quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Degustação : cores, aromas, sabores - Parte 4

Ainda sobre os aromas presentes nos vinhos - de onde vêm esses aromas ? O que, exatamente, provoca a presença de determinados aromas em um vinho ?

Bem, os aromas presentes em um vinho podem ter, basicamente, três origens : eles podem vir da própria uva (ou do terreno onde ela foi plantada), podem vir do processo de vinificação (isto é, o processo de produção do vinho) ou podem, ainda, vir do processo de amadurecimento do vinho depois de pronto.

Os aromas provenientes da uva são chamados de aromas primários. Eles estão relacionados, é claro, com o terreno onde as vinhas foram plantadas. Estão nesta categoria os aromas florais (violeta, rosa, jasmim, alecrim), os aromas de frutas (cereja, pêssego, abacaxi, ameixa, maracujá), os aromas vegetais (ervas, folhas secas, menta, pimentão) e os aromas minerais (quartzo, petróleo, iodo).

Depois vêm os aromas secundários, que são gerados no processo de vinificação, ou de elaboração do vinho. São aromas como manteiga, leite, iogurte, bolacha, brioches.

Finalmente, os aromas terciários são aqueles gerados no amadurecimento do vinho. Podem ser aromas de frutas (frutas secas, frutas em compotas ou geléias, nozes, amêndoas), aromas de madeira (carvalho, eucalipto, tabaco), aromas animais (couro, carne de caça), aromas de especiarias (pimenta do reino, cravo, noz-moscada) ou ainda os chamados aromas empireumáticos (defumado, queimado, chocolate, café).

Como os aromas terciários vêm do processo de envelhecimento do vinho, naturalmente eles só estarão presentes em vinhos envelhecidos, aqueles vinhos que passam algum tempo em barris de carvalho ou envelhecendo na própria garrafa. Esses aromas terciários têm também um nomezinho mais empolado, daqueles que os enochatos adoram : eles às vezes são chamados de bouquet. Um vinho jovem pode ter aromas sofisticados, mas não terá bouquet.

Parece coisa de gente maluca, descobrir tanta variedade de aromas em uma inocente tacinha de vinho, né ?

Mas eles existem, podem acreditar ! Estão lá - uns mais marcantes, outros mais sutis. É tudo uma questão de exercitar o nariz e - principalmente ! - a tal da memória olfativa.

Puxe pela memória, ao aspirar o aroma de uma taça de vinho, e veja o que você pode encontrar.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A Copa dos Copos - Parte 16 - Semifinais


Vamos nos aproximando da grande final da nossa Copa dos Copos. Um dos finalistas já está definido : é a França, que deixou fora da Copa a fortíssima equipe de Portugal.

A outra equipe sairá do confronto de hoje, entre Argentina e Itália - duas equipes poderosas.

A Argentina é a única representante da América do Sul nestas partidas da semi-final - o outro representate sul-americano de respeito, o Chile, caiu fora nas quartas-de-final, eliminado por Portugal.

Disposta a defender a honra do continente, a Argentina vem com sua escalação completa, baseada em seus grandes produtores de Mendoza e da Patagonia.

No gol, o sempre seguro e confiável Luigi Bosca.

A defesa é sóbria, séria, pouco dada a firulas : Séptima, Norton, Zuccardi e Salentein.

O meio-de-campo, no vinho, como no futebol, é criativo e elegante : Achaval Ferrer e O.Fournier.

E o ataque é insinuante e sutil, inesperado, às vezes brihante : Clos de Los Siete, Rutini, Pulenta e Catena Zapata.

No banco, uma infinidade de craques prontos a entrar em campo e desempenhar um grande papel : Kaiken, Escorihuela, Trapiche, Trivento, Terrazas de Los Andes ...

Do outro lado, a gloriosa Itália, de tantas e tantas partidas inesquecíveis, de tantos e tantos vinhos de sonho.

O goleiro é do Veneto, o portentoso Amarone.

A defesa formou-se inteira com base nos grandes vinhos do Piemonte : Barolo, Barbaresco, Barbera d'Alba e Asti.

O meio-de-campo, esguio, sedoso, aveludado - mas ainda assim, capaz de mostrar a velha garra italiana - vem da Toscana : Chianti, Brunello di Montalcino e Sassicaia.

O ataque alterna a doce suavidade do Vin Santo e do Passito de Panteleria com a agressividade letal do centro-avante sulista Primitivo de Manduria.

O jogo é equilibrado e avança lentamente, jogada a jogada, taça a taça.

A vitória só pode vir depois de uma prolongada prorrogação - nos pênaltis, a Itália finalmente manda de volta pra casa los hermanitos argentinos.

E nossa finalíssima anuncia-se brilhante e embriagante : França e Itália !

Não percam.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Oba ! Mais restaurantes com vinhos a preços acessíveis em São Paulo !


Volto a um tema muito gostoso - os restaurantes de São Paulo que estão finalmente caindo na real e oferecendo vinhos com preços bastante razoáveis.

Parece que o pessoal começou a se dar conta de que é melhor ter vinhos com preços justos que realmente vendem do que ter vinhos a preços estratosféricos que ficam encalhados ... Quem é que se anima a gastar 200 reais numa garrafa de vinho num jantar ?


Sábado passado, Tereza e eu estivemos em mais um desses restaurantes que vão se configurando como excelentes opções para o jantar em Sampa.

Estou me referindo ao De La Paix, um minúsculo bistrô na rua Tupi (que bairro é aquele ? Higienópolis ? Pacaembu ? Por aí, por aí ...) - aliás, esta rua Tupi vai aos pouquinhos se caracterizando como um novo corredor gastronômico da capital.

O De La Paix é um bistrô meio diferentão : um pequeno número de mesinhas em um espaço diminuto, com um cardápio atraente e sugestivo. Fomos atendidos pela Jane, que nos recebeu com muita gentileza e simpatia.

No andar de baixo da antiga casa onde ele está alojado, o De La Paix tem uma adega bonita, bem servida, com uma boa variedade de vinhos de diversas procedências. Eles não têm carta de vinho - a idéia básica é de que você mesmo desça até a adega e escolha o vinho que deseja tomar. O mais bacana de tudo : o restaurante tem uma bela oferta de vinhos que custam dois dígitos.

Na adega, bem espaçosa, há também uma grande mesa para umas doze pessoas, que pode ser reservada antecipadamente para grupos.

Tereza comeu um filé de frango com couscous marroquino que estava OK, e eu comi um delicioso filet au poivre, o clássico prato de bistrô que traz um filé ao molho de pimenta.

Tomamos um valpolicella chamado La Bandina, produzido no Vêneto pelo produtor Tenuta Sant'Antonio. Embora fosse um vinho de 2001, ele ainda apresentava uma cor brilhante com reflexos violeta. Seus taninos elegantes, amaciados por dois anos em carvalho, e seus aromas e sabores de frutas vermelhas e de especiarias combinaram muitíssimo bem com meu filé. O couscous marroquino da Tereza teve seus sabores delicados realçados pelo vinho.

Resultado geral - um bom jantar, com um vinho interessante, e sem sangrar nosso bolso ... Bom, não acham ?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Novas possibilidades de harmonização com massas e molho de tomate

Sexta-feira passada, Tereza e eu jantamos muito bem, em boa companhia - estávamos no Emporio Ravioli, simpático restaurante italiano da Vila Olímpia.

Nossos queridos amigos Cristina e Lie formavam o componente sempre essencial para uma harmonização perfeita - o bom papo, a conversa descontraída e bem humorada.

Comi um delicioso penne all'arrabiata - uma massa com molho de tomate picante que não está no cardápio, mas que eu como por lá há anos ...

A carta de vinhos é bem ampla e tem vinhos para todos os bolsos, desde os mais simplesinhos até coisas maravilhosas e caríssimas como os Tignanello, Brunello di Montalcino, alguns super-toscanos, etc.

Optamos por um Chianti Vernaiolo, produzido por um dos bons produtores da Toscana, o Rocca delle Macie. É um vinho feito a partir da clássica uva sangiovese (85 %), com uma pequena adição de merlot (15 %).

Segundo as regrinhas básicas da harmonização, é sempre aconselhável tomar o vinho da região com o prato da mesma região - bem, foi quase isso que fizemos, já que o vinho é toscano e o molho all'arrabiata é um molho da região do Lazio, onde fica Roma - lá, pertinho, portanto ...

A combinação casou bem. O molho tem sabores bem marcantes de pimenta e de alho, e o aroma profundo da sangiovese - acentuado pelo toque de merlot - suportou muito bem o confronto.

Em suma, ótimo jantar, em ótima companhia, com um ótimo vinho - que mais a gente pode desejar da vida ?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Copa dos Copos - Parte 15 - Semifinais


Vamos chegando ao final deste ano de 2010, e vamos chegando ao final da nossa Copa do Mundo de vinhos, a Copa dos Copos.

A primeira semi-final reúne dois pesos-pesadíssimos da produção mundial de vinhos de alta qualidade - França e Portugal.

Os times são realmente muito fortes e é uma pena que um deles - e somente um ! - possa ir para a finalíssima ...

O time de Portugal é uma grande esquadra, embora sua defesa não seja das mais brilhantes : no gol, o Vinho Verde tem seus admiradores pelo mundo, mas também é muito contestado por certos especialistas. Este blogueiro, particularmente, nunca viu grandes atrativos no Vinho Verde ...

E o restante da defesa não é lá muito seguro : Dão (que já viu dias melhores e hoje está em franca decadência), Bairrada e Estremadura (que oscilam momentos ótimos com outros constrangedores) e Ribatejo (que ainda não se firmou no cenário futebolístico mundial).

Já no meio-do-campo a história é outra - aqui brilham os geniais Douro, Alentejo e Moscatel de Setúbal.

O ataque é igualmente vibrante, com Algarve, Madeira (atacante histórico das naus portuguesas) e o sempre genial, brilhante, constante e cada vez mais amadurecido Vinho do Porto.

Mas o que dizer da França ?

O que dizer do goleiro Champagne, que empolga o mundo inteiro a séculos ?

Como classificar uma defesa que tem Banyuls (o incomparável vinho de sobremesa que harmoniza com chocolate!), Provence, Vale du Rhône e Vale do Loire ?

O meio-de-campo, simplesmente perfeito, vai de Chablis e Borgonha - talvez os melhores do mundo em suas posições.

E o ataque é formado pelos matadores de Bordeaux : Pauillac, Sauternes, Margaux e Pomerol ... (ainda ficam na reserva craques do quilate de Médoc, Saint Émilion, Pessac-Léognan e outros históricos ...)

Vai-se Portugal, não tem jeito - a França é a primeira grande finalista da nossa Copa dos Copos !

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

OBA ! Beber vinho faz bem para a saúde !

Minha querida amiga Rosangela, leitora do blog, me manda um interessantíssimo artigo científico falando sobre a relação entre vinho e saúde - tema que, aliás, está meio na moda ultimamente. Não sei se será apenas desculpa de bebum, mas o fato é que as conclusões parecem ser fora de dúvida - existe mesmo uma relação positiva entre vinho e saúde.
Segundo esse artigo, que foi publicado em uma revista médica em Porto Alegre, no ano de 2007, as uvas são frutas ricas em flavonóides, que são compostos químicos que agem como anti-oxidantes - ou seja, eles têm um grande potencial para reduzir os riscos de doenças cardio-vasculares.
O estudo se concentrou na comparação dos efeitos da ingestão de uvas, de suco de uvas e de vinhos tintos. Claro que a conclusão foi favorável ao consumo do vinho tinto (senão, eu não estaria escrevendo este post aqui, neste blog, certo ?)
Acontece que os tais flavonóides da uva, no caso do vinho tinto, são ricos em compostos químicos chamados de polifenóis, como o resveratrol e a catequina.
No caso do suco de uva e da própria uva, os resultados não foram muito conclusivos, e os autores acabam sugerindo que novos estudos precisariam ser realizados.
Já no caso do vinho tinto ... É isso mesmo, os doutores não têm dúvida - o consumo de vinho tinto reduz a oxidação do colesterol LDL e diminui a pressão arterial, reduzindo, portanto o tal risco de doenças cardíacas.
Bacana, né ?
Podemos agora beber nosso santo vinhozinho em paz, com a bênção dos especialistas - além de ser gostoso e de nos dar enorme prazer, o vinho tinto também faz bem para a saúde ! Bom para o corpo e bom para a alma !
Alguém precisa pesquisar os efeitos benéficos do vinho branco ...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mais uma boa opção para comprar vinhos, no Campo Belo

Pessoal, para quem curte comprar seus vinhozinhos em lojas, vai aqui uma dica de uma nova loja bem legal, na região do Campo Belo, aqui em São Paulo.

É o Empório Del Mundo, um loja bem transada que abriu há cerca de cinco meses. Eles importam os chilenos da vinícola Casa Donoso - uma boa pedida em termos de custo/benefício é a linha Bicentenario, nas versões malbec, cabernet sauvignon e carmenère, saindo na faixa de uns 40 reais.

A loja também está trabalhando bastante com vinhos espanhóis, especialmente da denominação de origem Montsant, ainda pouco conhecida no Brasil. É uma região vinícola que fica na Cataluña, próxima da cidade de Tarragona, e que produz seus vinhos principalmente à base das uvas espanholas garnacha e cariñena, mas também usam syrah e tempranillo. A conferir !

Além disso, a loja tem vinhos das várias procedências tradicionais - Argentina, França, Espanha, Portugal, etc. - e ainda tem cervejas especiais e artesanais, umas comidinhas importadas e, acima de tudo, o bom papo dos donos Ramiro e Carlos Henrique.

Fica na rua República do Iraque, 1.066.

Mais uma boa harmonização com pizza

Nada mais paulistano do que comer pizza e tomar vinho, certo ?

Ontem foi dia (ou noite) de mais uma harmonização desse tipo.

Fomos à pizzaria Veridiana, em Higienópolis, aqui em São Paulo, que já se tornou um endereço tradicional, seja pela beleza do local, seja pela qualidade das pizzas, seja ainda pelo atendimento sempre gentil e atencioso.

As pizzas estavam deliciosas, especialmente a de calabresa, levemente apimentada.

O vinho escolhido foi um Chianti Colli Aretini 2006, fabricado na Toscana por Logge Vasari. Colli Aretini é uma denominação especial de uma sub-zona do Chianti, próxima da cidade de Arezzo. O preço estava bastante razoável para um vinho tomado em restaurante - cerca de 70 reais.

O vinho é leve e ligeiramente frutado, mas preserva uma intensidade de aromas mais ricos, dados pela uva sangiovese, com taninos muito suaves.

A combinação com a calabresa condimentada e com o molho de tomate foi ótima - também não fez feio com a pizza napolitana, onde os sabores mais marcantes do alho propiciavam um contraste mais intenso com os sabores da uva.

Para completar a harmonização perfeita, uma companhia muito agradável com nossos queridos parentes do Ceará - Angela e Vanderlei - e um serviço simpático e atencioso, começando pelo garçon piauiense que nos atendeu e nos mostrou belas fotos das opalas produzidas em Pedro II, sua cidade de origem.

Fica aí a dica para quem vai sair hoje ou amanhã em busca da pizza perfeita aqui em Sampa.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Vinhos da Hungria



Visitando a Hungria e rodando por Budapeste e por algumas cidadezinhas do interior do país, a primeira coisa que surpreende a gente é que as cartas de vinhos dos restaurantes praticamente só têm vinhos húngaros. Parece que eles estão firmemente decididos, por lá, a tornar populares e bem conhecidos os seus próprios vinhos - e olhe que os vinhos em geral não são lá grande coisa, não ...

Claro que há os maravilhosos Tokaj, dos quais já falei em outro post. Esses são, sem dúvida nenhuma, grandes vinhos de sobremesa, que valem a pena ser provados. O chato é que os Tokaj, lá na Hungria, são baratíssimos - mas chegam aqui no Brasil a preços simplesmente proibitivos ! Quando será que vamos acabar com isso no Brasil ? Quantos presidentes mais teremos que eleger para colocar um ponto final nessa roubalheira ?

Enfim, fora dos Tokaj, andamos experimentando algumas coisas diferentes por lá :





  • Bikavér - são vinhos tintos, produzidos na região da linda cidade de Eger. As uvas básicas são uvas húngaras, com nomes difícieis de pronunciar e pouco conhecidas fora do país : kékfrankos, kékoportó, zweigelt. É um vinho robusto e encorpado - aliás, o nome bikavér significa sangue de boi : no ano de 1552, a cidade de Eger foi atacada por invasores turcos, que foram repelidos com bravura por um pequeno número de húngaros. Espalhou-se ente os turcos o rumor de que os húngaros eram muito corajosos porque misturavam sangue de boi ao seu vinho de todo dia ... Não é nenhuma maravilha, mas até que combina bem com as comidas fortes e gordurosas que se come por lá - carne de caça, foie gras, goulash, molhos de cogumelos, etc.


    • Vinhos brancos - na região do lago Balaton, a Hungria produz alguns vinhos brancos interessantes. Eles podem ser produzidos tanto com as uvas mais tradicionais (chardonnay, sauvignon blanc, gewürztraminer) como com algumas uvas locais como a hárslevelü e a furmint. De novo, não se trata de vinhos maravilhosos, mas combinam bem, por exemplo, com perca - o peixe típico pescado no lago Balaton.


    No mais, nada como finalizar um jantar com um cálice de palinka - é uma espécie de bebida nacional, uma aguardente destilada de frutas. Pode ser feita de ameixas, pêras, pêssegos, etc. É uma bebida forte e saborosa, que lembra um pouco a grappa italiana.

    Também bebemos o Unicum, uma bebida digestiva feita de ervas - a Tereza achou horrorosa ... É amarga como o diabo, e lembra um pouco o nosso velho Underberg. Alguém aí ainda lembra de Underberg ??