sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Como fazer visitas às vinícolas

Nestes tempos em que o tal do enoturismo virou uma febre, é muito comum que as agências de turismo do país organizem visitas a vinícolas - podem ser as domésticas, do Vale dos Vinhedos, lá no Rio Grande do Sul, ou as do exterior - Mendoza, Chile, Toscana, Napa Valley, e por aí afora.

Meu amigo Fábio, grande incentivador (na verdade, um dos "pais" intelectuais) deste blog, uma vez me perguntou como fazer uma visita desse tipo. É claro que as vinícolas que decidem abrir-se ao turismo têm um programa de visitas pronto, que passa pelos vinhedos, pela produção, pelos locais de armazenamento dos vinhos - e que invariavelmente terminam nas famosas degustações. Mas é claro, também, que as vinícolas estão preocupadas acima de tudo com o seu próprio marketing, e que não vão entregar de bandeja ao visitante ocasional os seus problemas, os seus defeitos, os seus pontos fracos.

A pergunta do Fábio, portanto, procede - há alguns aspectos que são interessantes de serem focados, principalmente se a gente está de fato querendo formar uma opinião sobre a qualidade dos vinhos e a qualidade da própria vinícola. Se este não é o seu caso, se você está pensando apenas na diversão turística da visita, simplesmente faça a reserva vá até lá, e enjoy it. Caso contrário, continue lendo !

1 - A propriedade dos vinhedos - pergunte ao guia se o vinho é produzido na vinícola exclusivamente com uvas de vinhedos próprios, ou se eles compram uvas de terceiros. Este é um ponto importante - se há uvas compradas, fica mais difícil para o produtor garantir a qualidade, as características do terroir, o cuidado nos métodos de plantio, etc.

2 - Distância entre os vinhedos e a cantina - Cantina, claro, é o local da produção do vinho propriamente dita. Se os vinhedos ficam muito distantes, as uvas deveriam ser tansportadas em caminhões refrigerados. Caso contrário, o acúmulo dos cachos em longas distâncias pode dar início a um indesejado processo de fermentação natural. Para combater isso, alguns produtores - digamos - menos cuidadosos espalham sobre as uvas o famoso anidrido sulfuroso, que realmente retarda o início da fermentação - em compensação, quando usado em excesso, deixa no vinho um desagradável laivo amargo.

3 - Produção - como é controlada a temperatura de fermentação ? A fermentação é um processo delicado : pequenas variações na temperatura podem amortecer as leveduras responsáveis pelo processo. Produtores de primeira linha que usam tanques de inox costumam ter duas ou três cintas ao redor do tanque, em diferentes alturas, medindo e controlando essa temperatura.

4 - Amadurecimento do vinho - pergunte ao guia se a vinícola mantém todo o seu vinho em barricas de carvalho - ou se usam os famigerados chips. Pra quem não sabe, há gente por aí que, ao invés de estocar o vinho em barricas de carvalho, joga dentro dele os tais chips - aparas de carvalho que ficam lá dentro para dar o "toque de carvalho" que o mercado demanda. Como diz o Mário Trano, autor do delicioso blog MondoVinho, esses caras, ao invés de botar o vinho na madeira, botam a madeira no vinho ...

Bem, o post já está longo demais - voltarei ao tema outro dia.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A História do Vinho - livro para quem está realmente interessado no assunto

Se há um livro que pode ser considerado a bíblia dos interessados na história do vinho, é este aqui.

O autor Hugh Johnson é um britânico de 72 anos, que é considerado uma das maiores autoridades mundiais em vinhos. Apesar disso, ele sempre rejeitou o rótulo de crítico de vinhos : ele acha que isso empobrece a relação dos homens com o vinho, e se recusa terminantemente a dar notas ou pontos para os vinhos que prova. Em sua coluna na muito respeitada revista inglesa Decanter, ele comenta os vinhos que bebe, descreve suas sensações, compara com outros vinhos - mas não dá notas, jamais. Li, uma vez, uma entrevista em que ele se definia como "um impressionista".

Pois bem, esse sujeito bacana e interessante produziu, no já longínquo ano de 1989, este grande livro : A História do Vinho. Grande nos dois sentidos do termo - são cerca de 550 páginas onde ele investiga detalhadamente seu objeto, recorrendo sempre a fontes históricas, arqueológicas, antropológicas e por aí afora.

A partir de especulações sobre como os mais antigos humanos teriam descoberto o vinho, Johnson envereda por uma trilha cronológica segura e bastante aprofundada. Fala sobre as origens do vinho, o vinho no Egito e na Mesopotâmia, a entrada do vinho na Grécia e depois na região onde hoje é a Itália. A seguir, o Império Romano, a relação tumultuada com o Islã, a Europa medieval, o surgimento dos grandes vinhos europeus (os Bordeaux e Borgonhas franceses, os italianos, os espanhóis).

Percorre a história do vinho do Porto e dos Tokaj húngaros, o florescimento da uva riesling na Alemanha, o surgimento da Champagne - e vai culminar com a explosão dos vinhos do Novo Mundo, especialmente nos Estados Unidos e na Austrália.

Aos interessados, já vou advertindo - não se trata de um livro de entretenimento, um livro "fácil". É uma pesquisa histórica rigorosa, ainda que sua leitura seja bastante fluida. Um livro, definitivamente, para quem está de fato interessado em aprender a história do vinho.

Eu, que sou apaixonado por História desde a adolescência, e que me apaixonei pelos vinhos há uns dez ou quinze anos - bem, eu adorei !

A edição brasileira é da Companhia das Letras, em boa tradução de Hildegard Feist.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Um ótimo vinho branco !

Pouco a pouco, passo a passo, vamos cedendo aos encantos do vinho branco. Embora ainda tenhamos uma enorme preferência pelos tintos, a gente vai lentamente descobrindo os bons brancos e os prazeres que eles podem nos proporcionar.

A propósito, essa é uma das coisas mais agradáveis do mundo dos vinhos : a possibilidade de sempre fazer novas descobertas, encontrando tesouros inesperados, vencendo preconceitos, saindo dos caminhos bastante trilhados - numa palavra, experimentando o novo.

No filme O Filho da Noiva (mais um desses filmes inesquecíveis com que nuestros hermanitos argentinos nos têm presenteado) há um diálogo divertido : o dono de um restaurante, ao telefone,  encomenda vinhos ao seu fornecedor. A certa altura, ele pede diversas caixas de vinhos tintos e também "uma ou duas caixas de brancos, pois sempre há gente de mau gosto por aí" ... É só uma piada engraçada, claro - para nós, Tereza e eu, a piada vai ficando cada vez mais distante da realidade.

Ontem provamos um delicioso Vicar's Choice Sauvignon Blanc 2009, da Nova Zelândia. Um vinho fresco, vivo, extremamente frutado. Aroma marcante de maçãs verdes, com um toque de mel e muita, muita personalidade. O vinho é produzido por uma vinícola relativamente jovem, fundada em 1994, na região de Marlborough, no sul do país.Combinou muito bem com o risoto feito pela Tereza, com aspargos, tomate-cereja e pimentões.

O preço ? Cerca de 60 reais na importadora Grand Cru - visite o site deles aqui. Se você preferir, pode comprar diretamente com o meu amigo Gilberto Laprega, através do e-mail glaprega@terra.com.br

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Post meramente comemorativo ...

Só para efeito de registro, o post aí debaixo, sobre o jerez, foi a centésima postagem feita por mim neste blog - que aliás, já conta com mais de 10.000 acessos ...

Nada mau para um despretensioso blog de vinhos com cerca de 10 meses de vida, né ?

Um brinde !!

O complexo e único vinho de Jerez de La Frontera

Dia desses, em outro post, eu mencionei o jerez, esse vinho produzido no sul da Espanha, na Andaluzia. Vale a pena falar um pouquinho sobre o jerez, pelo fato de ele ser um vinho único - em nenhum outro lugar do mundo um vinho é produzido da forma como os espanhóis fabricam o jerez.

O seu nome vem da cidade de Jerez de La Frontera, onde ele é produzido desde os tempos romanos - há evidências arqueológicas que indicam que já no século VII a.C ele era conhecido por lá !

Em geral, ele é produzido com uma uva da região, chamada Palomino. Alguns tipos de jerez - sim, há vários tipos ! - usam uma outra uva típica da região, chamada Pedro Ximénez.

O jerez é um vinho fortificado, o que significa que depois de fermentado normalmente, como um vinho branco qualquer, a partir das uvas Palomino, o vinho recebe a adição de uma aguardente vínica que, obviamente, aumenta sua gradação alcoólica. Deixado a repousar no barril, o vinho desenvolve uma película na superfície - chamada de flor - que "isola" o vinho do contato com o oxigênio e lhe confere um aroma e um sabor muito peculiares.

A tal flor é, na verdade, uma levedura natural, que surge às vezes em outros vinhos - mas, se nos demais vinhos essa levedura é um problema a ser tratado, no caso do jerez é ela que vai dar ao vinho suas características mais marcantes.

Além disso, se você der uma olhadinha nas prateleiras das lojas, você vai notar que as garrafas de jerez em geral não são safradas, isto é, não indicam o ano da colheita das uvas. Isso porque, historicamente, o vinho é envelhecido pelo sistema que eles chamam de solera, que consiste simplesmente em uniformizar o vinho, misturando o produto de diversas safras.

As barricas de jerez costuma ser empilhadas em quatro ou cinco "andares". Os vinhos do ano estão no "andar" mais alto, os do ano anterior no "segundo andar" e assim por diante. Todo ano, eles pegam cerca de 2/3 de cada "andar" e misturam com 1/3 do "andar de baixo". O vinho que será engarrafado é aquele que está no "andar mais baixo", o "térreo" - e que contém, portanto, vinhos de diversos anos misturados.

É ou não é um processo único ?

E o resultado também é único - o jerez fino, que é o mais conhecido, é um vinho seco, de sabor inconfundível, que pode harmonizar muito bem com azeitonas, marisco, peixes, ostras e - como descobrimos no último fim-de-semana - fica delicioso com gazpacho.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Jantar espanhol, com amigos especiais

Sábado foi o dia de reunir nosso pequeno grupo para mais uma sessão de gastronomia e de vinhos - Claudinha, Walther, Tereza e eu nos encontramos em Campinas, para um jantar espanhol : pois é, a Claudinha tem dessas coisas, ela lê as receitas nos livros, mete a cara e em geral acaba perpetrando coisas deliciosas ...

O cardápio foi gazpacho (a deliciosa sopa fria de tomates, típica da Andaluzia) seguido de uma aromática paella, com seus frutos do mar, frango e muito açafrão.

Para começar, uns tapas, na melhor tradição espanhola : azeitonas e pão catalão, ou seja, fatias grossas de pão tostado esfregadas com alho e tomates, regadas a muito azeite de oliva - espanhol, of course ...

E os vinhos ?

Começamos muitíssimo bem - nossas azeitoninhas verdes harmonizaram maravilhosamente (o advérbio não é exagerado, acreditem !) com um jerez manzanilla Tio Pepe. Na verdade, trata-se de uma harmonização pra lá de clássica, que aparece em todos os livrinhos sobre o assunto.

Pra quem não sabe, o jerez é um vinho fortificado espanhol - ou seja, um desses vinhos que recebem uma adição de aguardente vínica, como acontece por exemplo com o vinho do Porto. No caso do jerez, produzido na cidade espanhola de Jerez de La Frontera, o resultado é bem mais seco. Eles usam, em geral, a uva palomino, e o processo de produção é bem diferente - vou falar disso em outro post, um dia desses.


Depois do jerez, foi a vez de uma excelente cava, o espumante espanhol produzido na Catalunha. A opção aqui foi pela Freixenet Cordón Negro, um dos dois grandes nomes da região (o outro é a Codorniu).

Em seguida, foi a vez do vinho branco - um belo Raimat Albariño 2008, da DO Costers del Segre, na Galícia.

Tereza, indecisa - o que beber primeiro ?
O jerez foi a agradável surpresa da noite, e harmonizou muito bem com o gazpacho e com o pão catalão, além das azeitonas. O vinho branco, da uva albariño, parente próximo daqueles vinhos verdes portugueses, casou muito bem com a paella.

E a cava Freixenet ... bem, a cava estava deliciosa, refrescante, rica de aromas, riquíssima de perlage - essa harmonizou bem com tudo ...

Ainda deu tempo de emborcarmos, no final da noite, um belo Rioja, um Marques de Cáceres Crianza 2006, pra ninguém dizer que não bebemos vinho tinto.

Parabéns, Claudinha e Walther, pelo magnífico jantar e pela bela seleção de vinhos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Alma do Vinho

Belo título, não acham ?

Pois é, é o título de um livro publicado por aqui em 2009, pela editora Globo, e que me foi dado de presente pela minha querida amiga Priscilla.

A proposta é pra lá de interessante - fazer uma seleção de contos, crônicas, poemas, textos curtos e fragmentos da grande literatura universal (incluindo brasileiros, é bom que se diga) que abordem, de alguma forma, o vinho.

A antologia é organizada em sequência cronológica : os primeiros textos são fragmentos da Bíblia,  como o Cântico dos Cânticos, atribuído historicamente ao rei Salomão. Os últimos são coisas bem recentes, como poemas da Hilda Hilst ou um mini-conto do grande Mário Quintana.

Como toda antologia, ela está sujeita a altos e baixos. Tem coisas ótimas, e coisas mais-ou-menos. Um problema meio chato é a tentativa - às vezes, forçadíssima - de encaixar "na marra" um texto legal na antologia, só porque lá pelas tantas o autor descuidadamente fala a palavra vinho. Mas isso não chega a atrapalhar - a leitura do livro, em geral, é bem agradável.

Alguns pontos de destaque, para mim, são os contos do americano Edgar Allan Poe (O tonel de Amontillado), do português Eça de Queiroz (O tesouro), do russo Anton Tchekhov (A aposta) e do brasileiríssimo João do Rio (História de gente alegre).

Só para dar água na boca, vejam que coisa linda é o micro-conto do Quintana :

"O nome do rei Nabucodonosor era belo e solene e lento como um cortejo religioso. Porém o povão, para abreviar, chamava-o simplesmente de Bubu.

É que o povo tem pressa porque a vida é curta, deslembrado de que, se passam rápido os anos, podem ser longos os dias, as horas, os minutos ... Tudo depende de como saboreá-los, degustando-os lentamente como faz um provador de vinhos. E como um vinho, a vida não deve ser bebida de um trago; senão a gente logo se embriaga e perde o preciso sabor de cada gole.

E assim também é que um poema deve ser lido : lentamente, verso a verso, passo a passo - como quem está seguindo o cortejo do rei Nabucodonosor."

Dá vontade de ler mais coisas, e de beber vinho, não dá ?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Bom restaurante, bom vinho, preços justos

Estou, com este post, seguindo a idéia de apresentar aqui no blog bons restaurantes em São Paulo, onde se pode beber bons vinhos, jantar bem e - importantíssimo ! - não voltar para casa com a sensação de ter deixado as calças no lugar ...

Semana passada jantamos no Innominato Osteria, uma simpática cantina no Paraíso, ali pertinho da 23 de Maio - os paulistanos mais "experientes" vão se lembrar do local onde por muitos anos havia uma granda caravela de madeira ... Se você quiser visitar o site do restaurante, clique aqui.

O nome, um tanto surpreendente, é tirado de um personagem de Manzoni, escritor italiano do início do século XIX - na primeira página do cardápio, você vai encontrar a história completa sobre a origem do nome, que é bem interessante.

Comemos um bom saltimbocca de palmito, em generosa porção que dá para duas pessoas, fácil, fácil. De minha parte, gosto muito do nome desse prato clássico italiano que, de tão apetitoso, salta à boca da gente ...

E bebemos um delicioso Rèmole, um IGT da Toscana feito à base da uva sangiovese misturada, como informa o  seu rótulo, com "uma pequena quantidade de cabernet sauvignon". O produtor é o sempre confiável Frescobaldi, e o vinho estava suculento, frutado, com boa acidez e toques de especiarias - o puro retrato da Toscana, pra quem aprecia ...

Total da conta, incluindo várias águas, dois cafés e serviço - cerca de 170 reais.

Bem razoável, não acham ?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Quando podemos devolver um vinho no restaurante ?

Todo mundo conhece o ritual clássico - você pede um vinho no restaurante, o garçon (ou o sommelier, quando há) abre a garrafa e lhe entrega a rolha.

Você dá uma espiadinha na rolha, às vezes dá também uma cheiradinha. O garçon serve um dedinho de vinho na taça e fica esperando. Chegou o seu momento !

Você pega a taça entre os dedos, faz aquela cara de grande enólogo (alguma coisa entre o entendido e o levemente entediado) e dá uma olhada no vinho, contra uma luz ou contra um fundo claro. Aproxima a taça do nariz e dá aquela primeira fungadinha. Depois gira a taça, naquele movimento que caracteriza os enochatos, e cheira de novo. Aí, então, vira o olhar entendido e sorridente pro garçon e faz sinal afirmativo com a cabeça. Ele, feliz da vida, enche então as taças de todo mundo.

Afinal, pra que serve esse ritual todo ? Ele faz algum sentido, ou é pura frescura ?

Faz sentido, faz sentido, sim, senhor ...

Vamos começar com a rolha. O grande objetivo de examinar a rolha é para ver se há manchas de vinho no corpo da rolha. O normal é que só haja coloração na parte inferior, na base da rolha - aquela que obviamente fica em contato com o líquido. No corpo da rolha não deve haver mancha de vinho. Se houver, isso pode ser um primeiro sinal de problemas à vista. Pode significar que houve vazamento de vinho pelos poros da rolha -e que, portanto, deve ter havido vazamento de oxigênio no sentido oposto, para dentro da garrafa, o que pode ter estragado o seu vinho. Mas é apenas um sinal - o exame da rolha não é definitivo.

Sobre cheirar a rolha, bem ... Eu já vi um garçon abrir o vinho, cheirar a rolha ainda espetada no saca-rolhas, fazer um gesto negativo e levar o vinho de volta, trazendo outra garrafa - e olhe que era um Brunello di Montalcino ! Até hoje, a Tereza e eu nos arrependemos de não ter pedido para o cara deixar aquela garrafa na mesa também, além da outra, perfeita, que ele trouxe depois ...

Mas se você não tem um nariz excepcionalmente bem treinado, pode deixar a cheiradinha de rolha pra lá. Guarde seu nariz para cheirar o que realmente importa - o próprio vinho.

Bem, e o que pode haver no cheiro do vinho que pode me levar a mandá-lo de volta ? Duas coisas :

1 - O vinho pode estar oxidado - como suspeitamos pela análise da rolha, entrou ar na garrafa e o vinho estragou. O cheiro vai lembrar o cheiro de vermute (lembra daquele Cinzano que você bebia na adolescência ? É algo por aí.)

2 - O vinho pode estar bouchonné - a rolha de cortiça pode, às vezes, desenvolver um tipo de fungo que ataca o vinho. Ele fica com aroma de bolor, de mofo - sabe aquele pano molhado que ficou esquecido no fundo do quintal ? Algo assim. O nome bouchonné vem da própria rolha - ou bouchon, em francês.

Nestes dois casos, o certo é comentar com o sommelier o problema que você identificou, e pedir para que o vinho seja trocado. Normalmente, eles vão trocar sem grandes questionamentos, já que o fornecedor (importadora ou fabricante) do vinho geralmente aceita trocar as garrafas problemáticas.

E se você sentir o vinho foxado, ou seja, com cheiro de suco de uva, indício de que se trata de um daqueles vinhos feitos com uvas não-viníferas ? Ou se o vinho simplesmente não for do seu agrado ?

Bem, aí, meu amigo, o problema é todo seu - quem mandou escolher o vinho errado na carta ? A não ser que tenha sido uma recomendação do próprio sommelier, o melhor a fazer, nestes casos, é enfiar a viola no saco, beber quietinho e anotar bem o nome do vinho, para não cair na mesma cilada outras vezes.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vinturi - um aerador portátil para vinhos

Jantamos ontem na casa dos nossos queridos amigos Guillermina e Adalberto - além deles, o Sebastian também estava por lá. Todos leitores deste blog e todos grandes bebedores de vinhos !

Acompanhando o churrasco, tomamos um delicioso Monte do Pintor - um vinho do Alentejo, sedoso e encorpado, potente como só os vinhos portugueses podem ser. Para completar, sua imponente garrafa de 1,5 litros dava ainda mais vontade de bebê-lo ...

Além do prazer de compartilhar essa preciosidade com os amigos (e além da emocionante discussão política que tomou conta da mesa a certa altura), o grande charme da noite ficou por conta do Vinturi, mais um desses apetrechos que deixam os enófilos com os olhos cobiçosos brilhando ...

Trata-se de um pequeno instrumento de vidro, bonito e elegante, que pode - segundo o fabricante - substituir o decanter em sua função de aerar ou oxigenar o vinho. A coisa consiste simplesmente em segurar o aparelhinho sobre a taça e verter o vinho, de forma que o líquido passe primeiro por ele antes de cair na taça.

O resultado é impressionante !  Incrédulos, nós fizemos o teste de verificação na hora, provando goles alternados de taças diferentes - com e sem o uso do Venturi. O vinho realmente fica aerado como se tivesse repousado por pelo menos uma hora num bom decanter.

Claro, é só mais um dos muito gadgets que os bebedores de vinho têm à disposição hoje em dia nas lojas do ramo - mas que funciona, funciona, principalmente se você tem pressa de beber o vinho da garrafa que acabou de abrir, e não tem saco de deixá-lo descansar por uma longuíssima hora no decanter.

Parece que o tal aparelhinho se baseia em um princípio físico qualquer, relativo à dispersão do ar por dentro do líquido quando este passa por um tubo estreitado. Quem quiser entender melhor o processo pode arriscar uma consulta na Wikipedia em inglês. É só clicar aqui.

Saúde !


Sebastian usando o Vinturi, diante dos olhares desconfiados da Guillermina e da Tereza

Novos - e jovens - apreciadores de vinho !

Vejam na foto aí acima - meus jovens amigos, Fernando e Viviane, que voaram direto do calor do Nordeste brasileiro para o frio de Santiago do Chile.

Foram esquiar, mas já que estavam por lá, resolveram dar uma passadinha na maior vinícola chilena ...

Espero que tenham gostado do que beberam po lá !

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A gente bebe muito pouco vinho !

Estive analisando um interessante relatório, produzido pelo Wine Institute da Califórnia, sobre o consumo de vinho per capita no mundo todo. Se alguém quiser ver o relatório completo, é só clicar aqui.

Vocês jamais vão adivinhar qual é o país que ostenta o MAIOR consumo per capita no mundo todo ... Vamos lá, tentem adivinhar !

Pois é, erraram ! Trata-se, nada mais, nada menos, do que o Vaticano ! Sim, senhor, o Vaticano é o primeiro colocado na lista no ano de 2008, com cerca de 66 litros de vinho por habitante, no ano ! Dizem que uma possível explicação é que a população do país, minúscula, é quase totalmente formada por adultos - e adultos beberrões, acrescento eu.

Curiosidades à parte, a lista apresenta, lá no topo, os países óbvios : França é o terceiro, com 53 litros. Itália é o sexto, com 50 litros. E Portugal é o sétimo, com 44 litros. Não tão óbvio é que a Espanha é apenas o décimo-quinto colocado, com 33 litros por ano.

E nós ? Onde é que está o nosso auri-verde pendão, que tanto nos enche de orgulho ? Pois o Brasil está numa modestíssima posição na lista : somos o país de número 98, e bebemos menos de dois litros de vinho por ano !

Dentro os países latinos, estão na nossa frente o Chile, com 16 litros, o Uruguai, com 25 litros e - evidente ! - a Argentina, onde cada um de los hermanitos traça 27 litros por ano. Mais uma curiosidade - o país da América Latina melhor colocado é, pasmem, a Guatemala, com 29 litros por ano. Por que será que os guatemaltecos gostam tanto de vinho ?

Claro que também estão muito na nossa frente países como os Estados Unidos (10 litros), a Nova Zelândia (22 litros), a Austrália (23 litros), a Alemanha (24 litros), a África do Sul (8 litros).

Até os paraguaios bebem mais vinhos que nós - eles estão bebendo cerca de 4 litros por ano.

Aí, moçada, vamos virar esse jogo ! Todo mundo bebendo vinho aí, façavor !!

Tereza e eu, modestamente, estamos contribuindo bem para aumentar nossa combalida médiazinha ...