sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Com que taça... eu vou... ao vinho que você me convidou ?



Começar um post sobre vinho parodiando Noel Rosa é o máximo, fala a verdade ...

Meus amigos Vânia e Gerson, lá de Goiânia, me perguntam sobre as taças apropriadas para beber vinho - será que faz diferença ? Isto é, o modelo da taça pode interferir no sabor do vinho ? Estranho, né ?

Estranho - mas, em um certo nível, real. Há duas vertentes principais que explicam esse troço que parece tão estranho, à primeira vista.

A primeira delas (mais subjetiva) é que a experiência sensorial que a gente vive ao beber um bom vinho passa pelo conjunto dos nossos sentidos. Evidentemente, a gente cheira e saboreia o vinho - mas o primeiro impacto é o visual. E a apreciação visual já começa a impressionar - positiva ou negativamente - os nossos sentidos, de forma a "ajudar" a formar a opinião. É como na história da gastronomia, aquele segredinho que os japoneses conhecem tão bem : a gente começa a comer com os olhos ...

A outra razão é muito mais objetiva : com os avanços científicos e tecnológicos, hoje em dia já é possível fabricar taças que "exploram" da melhor forma possível as características de cada vinho - vinhos mais tânicos ou mais suaves, vinhos mais ou menos encorpados - pra não falar das coisas mais óbvias : brancos, tintos, rosados, fortificados, doces ...

Se a gente fuçar um pouco na Internet, descobre que há taças especialmente desenhadas para cada um desses tipos de vinho. Li em algum lugar que o famoso fabricante Riedel, da Áustria, tem mais de 400 modelos de taças - um para cada tipo de vinho ou de uva do mundo ...

Então a gente tem que ter dúzias e mais dúzias de diferentes taças, para os diferentes vinhos ? Não, claro que isso não é necessário, a não ser que você tenha muita grana para torrar ... Eu, pessoalmente, prefiro reservar a grana para os vinhos ...

Então, o fundamental é ter dois tipos de taças - exatamente com a Vania já está pensando em fazer.



Uma delas é reservada para os espumantes. Esses, realmente, merecem uma taça específica, a famosa flûte , que significa flauta, em francês. É aquela tacinha comprida e fina, com haste, cujo principal papel é fazer com que a perlage do espumante fique mais concentrada e dure mais tempo. Perlage, você sabe, são as famosas bolhinhas que fazem do espumante um vinho absolutamente diferenciado ...






O outro tipo pode ser uma taça muito conhecida como taça ISO, ou taça de degustação. Elas podem ser encontradas tanto em vidro como em cristal, e são produzidas hoje em dia por praticamente qualquer fabricante de taças. Estas taças são taças coringa, que podem tranquilamente ser usadas para qualquer tipo de vinho.

Há também variantes da taça ISO que mantém o formato básico, mas são maiores, mais bonitas, talvez mais elegantes - suprem perfeitamente esse mesmo papel.



Condições mínimas para as taças - tanto as flûte quanto as ISO :

  • devem ser de cristal ou de vidro fino - nada daquelas bordas grossas e pesadas que se chocam contra os lábios. Esqueça os copos de requeijão, por favor ...
  • devem ter o corpo afunilado, arredondado em baixo e com a boca mais estreita, para melhor canalizar os aromas do vinho em direção ao rosto do cachace.... digo, do degustador.
  • devem ter haste, o famoso pezinho, para que o calor da mão não interfira na temperatura da bebida.
  • devem ser transparentes, sem cores, sem desenhos nem gravações que afetem a visão do precioso líquido no seu interior ...
  • devem ser lavadas com muita água corrente e um mínimo de detergente líquido, para que não fiquem resquícios.
Depois, quando a grana estiver sobrando, você começa a sofisticar e vai comprando uma taça específica para cada vinho que gosta de beber - uma para os Bordeaux, outra para os Borgonha, uma terceira para os Sauternes ...

Estas são as medidas oficiais da taça ISO, para quem se interessa por regulamentos


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Blogueiros mal-humorados

Tenho o hábito de percorrer alguns blogs sobre vinhos, para aprender e para me divertir - evidentemente, gosto do tema, como se nota ... Os blogs que acho mais legais estão destacados aí na lateral. Vale a pena visitá-los : você vai aprender mais sobe vinhos, vai se divertir, vai dar boas risadas.

Mas tenho notado que há um certo mau humor pintando, aqui e ali, na tal da blogosfera - que palavrinha horrorosa, não ?

A coisa consiste basicamente no seguinte : o sujeito emite sua opinião sobre algum vinho. Se você concorda com ele, ótimo. Se você não concorda, você automaticamente se encaixa numa das três situações abaixo :

  • Você é uma besta quadrada que não sabe diferenciar um malbec argentino de um cabernet sauvignon californiano.
  • Você é um enochato, um bebedor de rótulos, que está tentando impor seu ponto de vista medíocre e elitista e acabar com o prazer de quem simplesmente quer beber vinho.
  • Você é um vendido que está fazendo propaganda disfarçada de alguma loja ou importadora.
Bem, e eu o que sou ? Em qual das três categorias me encaixo mais confortavelmente ?

Vendido eu sei que não sou - se falo bem aqui de um vinho ou de uma loja, é simplesmente porque bebi o tal vinho e gostei, ou comprei vinhos na tal loja e fui bem atendido.

Uma besta quadrada ? Bem ... Já me atrapalhei tentando diferenciar um vinho branco de um vinho tinto, provados naquelas famosas taças negras, em que o cristal negro impede a gente de ver o conteúdo. Já tentaram fazer isso ? Ao contrário do que parece, não é mole, não ...

Serei então um enochato ?

Eu realmente acho que o prazer de beber um vinho não se esgota exclusivamente em verter o líquido goela adentro. Por uma disposição de espírito natural, gosto de saber mais sobre o que estou consumindo. Que tipo de vinho é, de que uvas foi feito, onde foi produzido, por quem, sob qual processo o vinho foi obtido. Qual a história - se é que há alguma - envolvida na concepção ou na produção daquele vinho específico - e por aí afora.

Aliás, essa minha predisposição vale também para outras coisas que consumo. Se leio um livro que me encanta, quero saber quem é o autor, qual sua nacionalidade, em que época viveu, que outras coisas publicou. Se vejo um filme, quero saber quem são os atores, o diretor. Não raro, vou atrás de sites especializados para saber onde foram feitas as locações, quem compôs as canções, e assim por diante.

Isso faz de mim um chato ? Provavelmente a resposta é sim, para um determinado número de pessoas que acham que tudo isso é irrelevante e que o prazer consiste apenas na fruição descompromissada do vinho, do livro, do filme, o que seja. Mas ouso supor que há por aí um monte de gente que pensa como eu que gosta e que se interessa por informações mais amplas - uma espécie de ampliação do simples prazer sensorial instantâneo.

Os bebedores do primeiro tipo certamente não vão nem chegar perto de um blog como o meu. Que eles continuem a beber seus vinhos alegremente e curtam seu prazer (como se eles precisassem da minha autorização para fazer isso !)

Para os bebedores do segundo tipo, eu os convido a continuar lendo e dando palpites em blogs como este e como os que eu venho destacando aí na coluninha lateral. Tenho certeza de que vão continuar a se divertir, trocando experiências e informações sobre os vinhos que beberam ontem ou os que pretendem beber amanhã.

Além do mais, vamos e venhamos, pra que tanto mau-humor ? Estamos falando de vinhos !! Imaginem como seria a postura desse pessoal se estivéssemos falando aqui de coisas realmente sérias - a crise econômica, a primavera árabe,  a poluição desenfreada, a campanha do Palmeiras na Brasileirão ...

Tenho dito !

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O aroma apurado do garçon

Siena, na Toscana - a bela Piazza del Campo



Há alguns anos, estávamos, Tereza e eu, flanando pela Toscana, desfrutando daqueles cenários maravilhosos, conhecendo as encantadoras cidadezinhas medievais - e, obviamente, bebendo vinhos.

Uma noite, estávamos em Siena, e decidimos jantar em um restaurante chamado Osteria Le Logge, no coração da linda cidade.

Escolhemos os pratos, e decidimos beber um Brunello di Montalcino Argiano 1999 - um dos grandes vinhos que tomamos nessa viagem. Estando por lá, na Itália, dá pra encarar o Brunello, que sai por no máximo 30 euros - a mesma garrafa sairia, aqui no Brasil, por cerca de 250 ou 300 reais.

Para quem não conhece, o Brunello di Montalcino é o mitológico vinho da Toscana, feito com uvas sangiovese plantadas ao redor da cidade de Montalcino. Apesar de ser produzido por lá desde o século XIX, foi por volta dos anos 70 e 80 que o vinho se tornou famoso - e caríssimo - mundialmente.

Muito bem, lá vem o garçom (um rapazola de vinte e poucos anos) com nossa garrafinha de Brunello. Ele me mostra o rótulo, eu aprovo - como manda o figurino - e ele se põe a abrir a garrafa. Ao sacar a rolha o rapaz faz uma careta. Aproxima a rolha do nariz, dá uma fungadinha, pede licença e se retira, com a garrafa na mão - para nosso completo pasmo ...

Dali a pouco ele retorna, com outra garrafa, e nos explica o que aconteceu : ele sentiu, na garrafa e na rolha, um aroma estranho. Ficou cismado e foi procurar, segundo ele, uma pessoa "mais experiente", lá dentro, que confirmou - aquele vinho não estava bom. Portanto, lá estava ele, com uma segunda garrafa nas mãos. Esta foi aberta, mereceu a aprovação dele e a minha, e bebemos nosso Brunello alegremente.

Mas ficou, para nós dois, a dúvida eterna : como será que estava aquela outra garrafa, a que ele retirou ? Será que nós - tão entendidos ! - teríamos percebido com a mesma agilidade o que o jovem garçom percebeu numa rápida cafungada ? Será que teríamos mesmo notado o problema ?

Até hoje a gente se recrimina - devíamos ter mandado ele deixar as duas garrafas ... É, sim, senhor, não tem pobrema - nós vamos beber a boa e depois vamos beber a estragada, pódexar ...


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Moqueca baiana, harmonização complicada

A chef, em plena função ...
Ontem, Tereza estava inspirada e decidiu preparar uma moqueca baiana.

A palavra moqueca já tem uma sonoridade peculiar - sua etimologia é meio complicada ... Parece que pode ter vindo do substantivo moquem, que é um artefato, uma espécie de grelha, que os índios brasileiros usavam para preparar suas carnes de caça ou seus peixes.

Todo mundo conhece a famosa distinção entre a moqueca baiana e a moqueca capixaba : esta última, mais levinha, não leva dendê nem leite de coco, e tem uma cor mais avermelhada pela utilização do urucum.

Bem, Tereza optou pela moqueca baiana tradicional : peixe, cebolas, tomates e pimentões, azeite de dendê, leite de coco e coentro. Ficou uma delícia, com os sabores marcantes mas equilibrados, sem destacar demais os temperos fortes.

E aí vem a velha questão - que vinho combina bem com este prato ?

Optamos por um Altos del Plata Chardonnay 2009, um branco argentino produzido na região de Mendoza pela vinícola Terrazas de Los Andes. É um vinho fresco e frutado, com toques de abacaxi e de manteiga no nariz. Passa por carvalho, mas não muito tempo, o que lhe dá leves aromas de baunilha. Preço ? Não mais do que uns 30 reais.



A harmonização foi muito boa -a untuosidade do chardonnay combinou bem com a textura delicada do peixe e realçou os sabores mais marcantes dos temperos e dos vegetais.

Mas nós ficamos com uma curiosidade - como seria a combinação da moqueca com outros vinhos brancos ? Será que um sauvignon blanc seria demasiado ácido para o prato ? E que tal um Chablis ? Mineral demais ? E um bom vinho verde português, da uva alvarinho ?

São temas que instigaram nossa curiosidade e nossa sede - já marcamos com nossos amigos Cláudia e Walther um novo jantar, dentro de algumas semanas, onde vamos explorar essas possibilidades.

Depois eu conto como foi !

sábado, 13 de agosto de 2011

Novidade no blog

Suponho que o ideal de qualquer pessoa que escreve é ser lido, certo ?

Para não fugir da regra, é claro que eu, ao escrever estas mal-traçadas aqui no meu blog tenho como objetivo que elas sejam lidas pelo maior número possível de pessoas ...

Vai daí que acabo de acrescentar uma novidadezinha aqui no blog - vocês vão ver lá embaixo, na barra lateral, um botãozinho que publica automaticamente o post que você está lendo nas mídias sociais da moda.

Se você leu um textinho por aqui, gostou dele, e tem a súbita e alucinada compreensão de que seus amigos simplesmente precisam ler esse mesmo texto, é só ir lá no botãozinho adequado e - shazam ! - o texto será publicado no seu Facebook ou no seu Twitter.

Bacana, né ?!?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Chile e seus vinhos



Existem registros históricos que falam de vinhas sendo plantadas no território chileno já no século XVI. Como em muitos outros lugares, esses antigos vinhedos chilenos começaram a ser plantados por motivos religiosos : os missionários católicos europeus que chegavam ao país precisavam do vinho para celebrar suas missas.

Já no século XIX, após a independência do país, a alta sociedade chilena estava acostumada a emular o estilo de vida francês - aí incluídos a arquitetura, as artes, a gastronomia - e, claro, o gosto pelos bons vinhos.

Foi então que a praga da filoxera atacou impiedosamente os vinhedos europeus (falei sobre essa história aqui no blog, neste post). Por alguma razão pouco conhecida, os vinhedos do Chile jamais foram atacados pela praga. Há quem diga que isso se deveu às águas geladas do Pacífico sul, ou à presença protetora da cordilheira dos Andes - ou, o que é mais provável, a uma combinação desses e de outros fatores geográficos.

O fato é que os vinhedos resistiram, e resistem até hoje, à filoxera. Com a destruição dos vinhedos da Europa, dezenas - talvez centenas - de especialistas europeus desempregados bandearam-se para a então quase desconhecida América do Sul - e começa assim o imenso desenvolvimento da vitivinicultura chilena.

Esse é o condicionamento histórico que explica o fato de que o vinho chileno é, hoje em dia, o mais conhecido e mais valorizado vinho da América do Sul na Europa. Quem já teve oportunidade de visitar uma loja de vinhos (ou restaurantes) em um dos países europeus tradicionalmente consumidores de vinho terá certamente observado isso. É muito raro encontrar por lá vinhos argentinos, uruguaios ou brasileiros - mas os chilenos estão sempre por lá, às vezes até nas prateleiras dos super-mercados franceses, espanhóis ou italianos.

E aí, para aumentar o charme dos chilenos, vem a história famosa da uva carmenère. Essa uva, originária da nobre região de Bordeaux, na França, foi praticamente extinta por lá pela tal da filoxera. Acontece que, desde o século XIX, algumas vinhas de carmenère eram importadas pelos chilenos, em geral misturadas às vinhas de uva merlot. Por décadas e décadas, a merlot e a carmenère foram plantadas e utilizadas em conjunto, como se fossem a mesma uva.

Foi só em 1994 que um professor francês, Jean-Michel Boursiquot, em visita ao Chile reconheceu aqueles vinhedos como sendo da tal carmenère - eles demoravam duas ou três semanas a mais para amadurecer, em comparação com  os outros pés de merlot. Espertamente, os produtores chilenos souberam fazer desse acaso uma tremenda vantagem, e consagraram a carmenère como a uva emblemática do Chile, com seus vinhos amigáveis e suaves, de coloração vermelha violácea, fáceis de beber.

No mercado brasileiro, você pode encontrar uma imensa lista de vinhos chilenos de bons produtores. Vai aqui uma listinha com os nomes de alguns desses produtores - se esbarrar numa dessas marcas por aí, pode comprar sem medo de errar :

  • Almaviva - grande (e caríssimo) vinho chileno, feito em um joint venture entre a Concha y Toro (maior produtor chileno) e o Barão Philippe de Rotschild (consagrado produtor de Bordeaux)
  • Concha y Toro - enorme produtor, que tem uma linha que vai desde os vinhos bem simples e baratos (como o Sunrise e o Reservado) até os excelentes e caros (Don Melchor e Carmin de Peumo). Eles têm também uma linha intermediária, de boa relação custo x benefício, como o Marques de Casa Concha e o conhecidíssimo Casillero del Diablo.
  • Cousiño Macul - vinícola muito antiga e tradicional, com bons rótulos no mercado brasileiro.
  • Casa Lapostolle
  • Domus Aurea
  • Errázuriz
  • Haras de Pirque 
  • Leyda
  • Matetic
  • Viña Montes
  • Tarapacá

São apenas alguns nomes, é claro - a lista é enorme.

Que tal você fazer suas próprias experiências e descobertas e compartilhar com a gente aqui no blog ?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Raclette e vinhos

Sábado paulistano, friozinho - embora já não aquele frio gelado do começo da semana - uma boa desculpa para ter bons amigos e boa conversa ao redor de uma raclette. Foi o que fizemos, com a Ester, nossa queridíssima amiga de tantos anos.


E o que vem a ser uma raclette ? É um prato típico da Suíça, uma variante do fondue. Um queijo derretido e raspado sobe batatas cozidas. O nome raclette vem do verbo francês racler, que significa exatamente raspar. O queijo a ser usado, segundo os suíços, é o próprio queijo raclette, um queijo de leite de vaca, de massa cremosa e aerada, produzido no cantão suíço de Valais. Mas a gente gosta de variar, e usa, às vezes, outros queijos que derretem bem, como o emmental, o gruyère, o gouda, e até o nosso brasileiríssimo queijo do Reino. Nada melhor para aquecer uma noite fria, já que a racletteira aquece o ambiente enquanto a conversa aquece a alma.

Como acompanhamento, gostamos de usar cebolinhas e pepinos em conserva, presunto cru, bacon fritinho y otras cositas más.

E que vinhos acompanham a raclette ? Bem, aqui se dá o mesmo que com o fondue. Os suíços, sempre dispostos a fazer tudo certinho, só a comem acompanhada de um vinho branco - em geral, um Fendant, também produzido no Valais, com uvas locais chamadas chasselas. Nós, brazucas, sempre chegados a uma certa iconoclastia, preferimos um tinto - já que se trata de um prato de inverno, nada melhor do que um vinho tinto para colaborar nesse processo geral de aquecimento das noites paulistanas.

E aí tentamos várias opções.

Começamos com um Rèmole IGT 2009, um vinho italiano, produzido na Toscana, pela conceituada casa de Frescobaldi. É um vinho feito à base de uvas sangiovese (claro, vindo da Toscana, não poderia ser diferente) com uma pequena adição de cabernet sauvignon. Um vinho suave e macio, gostoso - mas faltou acidez para se contrapor à untuosidade dos queijos e batatas.




Partimos depois para o campeão da noite - um delicioso Casa Lapostolle Merlot 2007, providenciado pela Ester. Um chileno valente e encorpado, com aromas de frutas vermelhas e baunilha, boa acidez e boa permanência na boca.






O terceiro vinho foi um Guardian Peak Shiraz 2009, da África do Sul, elegante e saboroso, com aromas muito marcantes e aquele sabor que os americanos chamam de spicy, ou temperado.





Fechamos a noite com um Aurora Colheita Tardia 2010, um bom vinho brasileiro de sobremesa, não muito doce e com marcada acidez. Os aromas são de flores e de frutas secas, com um toque de mel no final. Ele é feito de uma mescla de semillon (que lhe dá a coloração dourada) com malvasia bianca, que certamente é a responsável pela doçura do vinho.

E depois fomos dormir, felizes da vida ...

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dia dos Pais - Vinho é sempre um bom presente !

Chegando o Dia dos Pais, vou usar de novo aqui no blog uma sugestão da minha querida amiga Angela (cadê você ?) - vou fazer uma listinha de vinhos que podem fazer bonito como presente no próximo domingo.

Procurei fazer uma lista com vinhos a preços razoáveis - entre 30 e 70 reais - e que podem ser encontrados com facilidade no nosso mercado.

Evidentemente, essa lista representa apenas o meu gosto pessoal - certamente, há centenas de rótulos por aí que se encaixam nesses mesmos critérios. Estes são apenas alguns deles. Vamos lá :

Começando com os brancos :
  • Equus Haras de Pirque Chardonnay 2008 - um bom chileno, na faixa de 44 reais.
  • San Pedro de Yacochuya Torrontés 2009 - um argentino da região de Salta, feito com essa novidade (para nós) que é a uva torrontés, por 55 reais.
  • Felino Chardonnay 2009 - um ótimo argentino da região de Mendoza, produzido pela vinícola Cobos, cerca de 70 reais;
  • Saint Clair Vicar's Choice 2008 - um excelente vinho da Nova Zelândia, nas versões chardonnay, riesling e sauvignon blanc (minha preferida), por 73 reais.
  • Monte Velho - um bom branco português do Alentejo, produzido pela conceituada vinícola Herdade do Esporão, por 35 reais.
E agora, os tintos :
  • Arrocal Ribera del Duero 2006 - um espanhol diferenciado, por 60 reais.
  • Trio Merlot 2009 e Trio Cabernet Sauvignon 2008 - chilenos da maior vinícola do país, a Concha y Toro, por 42 reais.
  • Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon 2008 - este é um ótimo vinho da mesma Concha y Toro, um pouco mais caro, por 75 reais.
  • Centine IGT Banfi 2007 - um bom vinho da Toscana, de um bom produtor (Banfi), por 66 reais (ótimo para acompanhar massas com molho de tomate).
  • Finca Perdriel Colección 2006, nas versões malbec e cabernet sauvignon - um argentino de Mendoza, por cerca de 70 reais.
  • Clos de Los Siete 2008 - um argentino de Mendoza, assinado pelo conhecido enólogo Michel Rolland (o que faz dele um vinho chic !!), por 67 reais.
  • Assobio - um vinho português (claro, esses nomes curiosos são sempre portugueses !) da região do Douro, por 57 reais.
  • Pulenta Estate 2008, nas versões malbec e cabernet sauvignon - outro argentino de Mendoza, por volta de 76 reais.
  • Felino Cabernet Sauvignon 2008 - de novo, este ótimo vinho da Cobos, em Mendoza, por 70 reais.
E onde é que se pode comprar estes vinhos ? Bem, você encontra todos eles pela Internet - aqui vão algumas sugestões de sites onde você pode procurar :
  • Boutique do Vinho - www.boutiquedovinho.com.br
  • Grand Cru - www.grandcru.com.br
  • Qualimpor - www.qualimpor.com.br
De novo : esses sites são apenas sugestões - não patrocinam o blog, nem nada desse tipo. São apenas alguns locais - há dezenas deles - onde você pode comprar bons vinhos a preços honestos e ser bem atendido.

Se o seu papai não se emocionar ao ganhar uma dessas garrafas, no ano que vem dê a ele umas cuequinhas ...


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ainda os "vinhos suaves" - polêmica !

Meus amigos, eu sabia que meu post anterior, falando sobre os tais "vinhos suaves", iria render polêmica - mas acho que eu não esperava agressões como esta que recebi - transcrevo o texto na íntegra :

"Só pra te informar na Argentina se usa a uva que bem se entende.Boa parte dos vinhos que vocês idolatram tem corte de "mission", "crioja" e outras "coisas mais". No Brasil exite a tradição e a cultura de consumir vinhos com gosto de uva,que são obtidos vinificando-se uvas americanas ou híbridas.Na Europa não há esse costume e a legislação evita que ele se alastre.O famoso e proibido fragolino da Itália é feito com Isabel.A carga genética da uva não é capaz de determinar a qualidade do vinho, apenas traz algumas características.Portanto por favor, em nome do bom senso pense bem antes de escrever tamanhas besteiras. Atenciosamente Stevan Grützmann Arcari."

Pra começo de conversa, uma informação : o Stevan Arcari é enólogo de uma Estação Experimental em Urussanga, Santa Catarina, e está lançando um vinho feito de uvas goethe - ou seja, ele é parte pra lá de interessada nessa discussão, já que eu falei mal exatamente dos vinhos do tipo que ele está produzindo por lá ...

Ao invés de simplesmente autorizar a publicação do comentário mal-educado, eu preferi colocá-lo aqui, em um post específico, para poder responder com mais espaço. Vamos lá :

O argumento de que "os outros fazem, porque eu não posso fazer também ?", por si só, é lamentável - não vou nem perder muito tempo com ele. Lembra alguns sujeitos do PT, na época do mensalão, dizendo "só fazemos o que todos fazem". É claro que há produtores picaretas na Argentina que misturam cepas não-viníferas aos seus vinhos. Devemos imitar esses caras, ou aqueles que estão trabalhando a sério e disputando pra valer o mercado internacional com produtos de qualidade elevada ?

O Fragolino italiano é UM vinho produzido na Itália com uvas não-viníferas, está muitíssimo longe de ser a tônica dos vinhos italianos, como é dos vinhos brasileiros. É uma curiosidade do norte da Itália, que a União Européia não está aceitando como "vinho" em seus territórios. Você certamente não acha que a União Européia está com medo que o seu mercado seja abalado pelo humilde Fragolino, né ?

A seguir, o enólogo nos informa que a carga genética não é fundamental para a qualidade do vinho. Deve ser isso o que imaginam aqueles produtores, espalhados por todo o interior do nosso país, que produzem nos seus quintais "vinhos" de abacaxi, de maçã, de figo ... Na verdade, por essa ótica, se a carga genética é pouco importante, dá pra produzir "vinho" de qualquer material orgânico que possa fermentar - uvas não-viníferas, cascas de batatas, arroz, sei lá. Continuo achando que isso não é vinho.

Felizmente, você, Stevan, tem a total liberdade de não ler as "tamanhas besteiras" que eu escrevo no meu blog - como eu tenho a total liberdade de não beber os "vinhos" que você produz.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O tema dos "vinhos suaves"

Alguns amigos de sempre deste blog me pedem para falar sobre "vinhos suaves" ... A Rita sempre me pediu para falar desse tema, e agora, mais recentemente, meu querido amigo Fernando volta ao assunto.

Vinhos suaves ... ai, ai, ai ... Que serão vinhos suaves ?!?

Bem, pra começo de conversa, é importante deixar uma coisa bem claro : só devem ser chamados de vinhos, mesmo, ali, na batata, as bebidas feitas a partir da fermentação de uvas viníferas.

Por uvas viníferas, a gente entende todas aquelas cepas bastante manjadas pelos bebedores de vinho : cabernet sauvignon, merlot, chardonnay, pinot noir, malbec, sangiovese, shiraz, etc.

E o que seriam as uvas não-viníferas - portanto, não adequadas para a produção do vinho ? São aquelas igualmente manjadas uvas de mesa, aquelas que a gente come de sobremesa (principalmente no fim do ano) : niagara, isabel, goethe, itália e outras.

As uvas viníferas são bastante diferentes das uvas não-viníferas. Do ponto de vista da ciência, trata-se de espécies diferentes do mesmo gênero. São todas do gênero Vitis, mas só a espécie Vitis vinifera é adequada para a produção do vinho. As outras espécies (Vitis labrusca, Vitis riparia, Vitis aestivalis, Vitis rotundifolia e dezenas de outras) são boas para comer e para fazer suco de uva - mas não para fazer vinho.

No Brasil, infelizmente, a legislação não restringe os produtores de vinhos - eles podem botar literalmente qualquer uva no seu vinho - isso não ocorre no Chile nem na Argentina, só para ficar por aqui mesmo, na América do Sul. Graças a essa legislação pra lá de compassiva, o Brasil (e os Estados Unidos também) é um grande produtor de vinhos feitos com uvas não-viníferas. Vai ver, é por isso que nosso vinho tinto jamais chega à qualidade daqueles produzidos por nuestros hermanitos ...

Vai daí que grande parte daquilo que se produz no Brasil com o título genérico de Vinho Suave não passa de enganação : é vinho feito de uvas não viníferas. Sua marca registrada é aquele aroma inconfundível de suco de uva - nada mais distante de um Vinho, assim, com "V" maiúsculo ...

Portanto, meus amiguinhos, se vocês querem tomar vinho de verdade, esqueçam a história do vinho suave, por favor ...

A boa notícia é que existem, sim, vinhos muito bons, fáceis de beber, feitos sob encomenda para pessoas que gostam de sabores suaves e que estão acostumadas (mal-acostumadas, eu diria ...) com essas beberagens fajutas.

Aqui vão algumas sugestões :

  • vinhos da uva pinot noir, especialmente os da Nova Zelândia. São vinhos leves, que não costumam ter taninos muito agressivos, agradáveis de beber mesmo por quem não está muito habituado. Os franceses também são maravilhosos - mas em geral muito caros.
  • vinhos italianos como Valpolicella, Bardolino (os dois do Vêneto), Primitivo (da Umbria), Nero d'Avola (da Sicília). São suaves, redondinhos, e são encontráveis a preços bem razoáveis.
  • para quem gosta de brancos, os Pinot Grigio italianos, ou os Torrontés argentinos são um bom ponto de partida.
Por fim, vocês, leitores do blog, devem fugir daqueles "vinhos coloniais" do Rio Grande do Sul, ou dos "vinhos licorosos" de São Roque, como o diabo foge da cruz ...Se beberem, por favor, não me contem !