sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Conversa entreouvida no metrô

A gente tem falado (e lido) muito sobre o aumento do consumo de vinho no Brasil. Se ainda estamos a anos-luz da "litragem" anual dos nossos vizinhos argentinos e chilenos, pelo menos já conseguimos romper aquele deprimente patamar de uns dez anos atrás, quando a gente consumia mais Fanta Uva sem gelo do que vinho por aqui ...

Bem, mas uma coisa é ler estatísticas e estudos sobre o tema, outra, bem diferente, é a constatação empírica do fato, no dia-a-dia - ali, na batata, como dizia a Emília do Monteiro Lobato.

Quem me contou a história foi minha querida amiga Angela - a Angela, ao lado do Fábio e da Tereza, foram os meus grandes incentivadores, dois anos atrás, para começar a escrever este blog.

Estava a Angela, dia desses, sentadinha no metrô, indo pro trabalho. Ao seu lado, em pé, dois PMs (sim, dois policiais) conversavam animadamente. Lá pelas tantas, um dos PMs vira pro outro e comenta, despretensiosamente : "  Não achei muito bom aquele Malbec Gran Reserva de ontem, não ... "

Sabe-se lá por qual razão, diz a Angela que imediatamente se lembrou deste humilde blogueiro, e me  ligou pra contar a historinha ...

Bacana, né ? A gente, por preconceito ou por força do hábito, imagina que em pleno metrô, a conversa de dois PMs sobre bebidas vai girar ao redor de uma cervejinha, de uma caipirinha - e, de repente, nos salta à face um "Malbec Gran Reserva" ...

Pra mostrar duas coisas : 1 - o consumo de vinho realmente está se espalhando no país e 2 - preconceito não serve pra nada, mesmo.

A propósito, já que falei da Angela - ela vai correr, neste próximo domingo, dia 30 de setembro, a Maratona de Berlim, que vai acontecer às 9 horas da manhã (horário deles), às 4 da matina no nosso horário. Vou estar torcendo por aqui, é óbvio !

Saúde !

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mais um belo vinho do Chile !

Os vinhos chilenos são os únicos vinhos da América do Sul que gozam de prestígio inquestionável na Europa. Pode conferir : se você entrar num super-mercado em Paris ou Londres, vai encontrar vinhos europeus aos montes, de todos os preços e de todas as qualidades. Da América do Sul, com toda a probabilidade, você vai encontrar só chilenos.

É claro que isso tem a ver com o marketing dos vinhos do Chile, desde sempre focados na exportação. Mas é claro também que, se os vinhos fossem meia-boca, a coisa seria diferente ...

Acontece que não são. Há no Chile, hoje em dia, vinhos de primeira linha - sejam quais forem os critérios que a gente utilize para classificá-los. Alma Viva, Caballo Loco, Don Melchor - são alguns dos rótulos que não fazem feio ao lados dos consagrados europeus.

Faz tempo que eu deveria ter escrito aqui no blog sobre um outro vinho chileno que eu considero excelente - tomamos este vinho em casa, há algum tempo, e ficamos muitíssimo bem impressionados com ele. Estou falando do Sideral Altair 2007.



A Altair é uma vinícola bem nova. Foi fundada em 2002, no Valle Cachapoal, na região central do Chile - pertinho de Santiago. Seus fundadores foram Laurent Dassault, um francês, proprietário de vinícolas em Bordeaux e o empresário chileno Guillermo Luksic. Desde o início, seus dois rótulos (Altair e Sideral) vêm sendo sempre listados entre os melhores do Chile. Este Sideral 2007 ganhou 90 pontos do meu estimadíssimo coleguinha Robert Parker.

Segundo alguns blogueiros, parece que visitar a vinícola Altair é um programa bem legal - é uma dessas vinícolas (talvez por ser mais novas) que foram criadas já levando em conta os tais dos enoturistas. Isso eu não sei, ainda não estive lá, infelizmente ...

Mas o vinho é realmente de primeira linha. Feito com um corte de cabernet sauvignon, carmenère e syrah, ele tem a cara do Chile - os aromas intensos lembram frutas negras com um toque de pimenta-do-reino, na boca ele é potente e estruturado (daqueles que enchem a boca ...), os taninos são marcantes e macios, a permanência é loooonga .....

O vinho deve custar algo ao redor de 100 / 110 reais - e vale cada centavo, podem acreditar em mim. Aliás, não acreditem, não - provem vocês mesmos e depois me contem !




segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Aspargos, queijo brie e borgonha


Tereza perpetrou, dia desses, mais um de seus estupendos risottos - desta vez foi aquele que é um dos meus preferidos, de longe : um risotto de aspargos e queijo brie.

Indo por partes : adoro risotto, gosto muito de aspargos verdes, e sou apaixonado por queijo brie. Será que alguma força maligna ou demoníaca me faria NÃO gostar de risotto de aspargos e queijo brie ? Nem a pau, Juvenal, nem a pau ...

Estava ótimo !

E aí vem a harmonização - é evidente que a gente iria tomar vinho, mas qual vinho ?

Se a gente for ortodoxo e quiser seguir o cânone mais clássico das harmonizações, desconfio que o recomendado aqui seria um vinho branco.

O pobrema é que tem outra coisa pela qual eu sou descabeladamente apaixonado - eu acho que há poucas coisas no mundo que harmonizem tão bem como queijo brie e um bom pinot noir, especialmente se for um Borgonha ... Haverá quem ache que isso é uma heresia, mas Tereza e eu não abrimos mão - queijo brie é com Borgonha.

E lá fomos nós - o escolhido da noite foi um Maison Champy Bourgonge Pinot Noir 2008 - um bom Borgonha daqueles chamados genéricos, ou seja : as uvas são colhidas na região demarcada da Borgonha, mas não procedem de um vinhedo ou de uma sub-região específica. A Maison Champy, se não é um produtor de primeira linha (e não é...) é , ao menos, um produtor muito tradicional : a casa foi fundada em 1720, segundo o seu site.

E o preço é bem razoável - ao redor de 70 reais.



O vinho é como deve ser um pinot noir da Borgonha - na taça, aquela coloração pálida, totalmente transparente, através da qual a gente vê os dedos do outro lado do copo. Ao brotar da garrafa para a taça, o vinho brilha em reflexos violáceos que já são um convite à boca ... Aromas intensos de fruta numa primeira camada, seguidos por outros mais profundos - carne de caça, couro, algo de tabaco. No paladar, um vinho macio, sedoso, com álcool na medida certa.

A harmonização foi ótima - o sabor predominante do brie no risotto "casa" à perfeição com os sabores do vinho, e realçam-se mutuamente. Os aspargos verdes entram como um contraponto, um contraste levemente amarguinho que se destaca na boca.

Enfim, parodiando meu querido e saudoso tio Edgar : "Se Deus fez coisa melhor do que isso, então fez pra Ele ..."

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Ah, os incríveis nomes das uvas portuguesas !


Tinta-de-escrever, amor-não-me-deixes, bastardinho, olho-de-sapo, carrega-burros, esgana-raposas, coração-de-galo, donzelinho, esgana-cão, padeira, pilongo, rabo-de-ovelha, pé-de-perdiz, Zé-do-telheiro ...

Boal-cachudo, chapeludo, borrado-das-moscas, carão-de-moça, dedo-de-dama, esganoso, rabigato, folgasão, olho-de-lebre, marquinhas, pé-comprido, pêra-de-bode ...

Sim, meus amigos, esses são alguns dos curiosíssimos e pouco conhecidos nomes de algumas uvas portuguesas.

Os portugueses, sempre ciosos de sua cultura centenária, produzem a imensa maioria dos seus vinhos com as chamadas uvas autóctones – são aquelas castas originárias de Portugal, e que (com raras e honrosas exceções) não são produzidas em outros locais. São mais de 300 cepas diferentes, e elas realmente dominam a ampla produção dos vinhos portugueses, embora hoje em dia já haja alguns produtores aventurando-se com ótimos resultados nas cepas mais manjadas : syrah, cabernet sauvignon, algum merlot.
Vamos dar uma olhadinha nas cepas autóctones mais populares, começando pelas tintas, muito mais utilizadas do que as brancas :
  • Aragonés ou Tinta Roriz – esta é uma que é produzida também fora de Portugal – na Espanha, onde recebe o mais conhecido nome de tempranillo. Produzem  vinhos frutados e macios, e são muito usadas nos belos vinhos do Douro (inclusive nos refinados Porto) e nos do Dão, um pouco inferiores.
  • Baga – é a rainha da região da Bairrada, cujos vinhos vêm melhorando de qualidade nos últimos tempos, por conta de bons produtores como Luis Pato e Caves São João, entre outros.
  • Castelão – também chamada de periquita, é a uva que gera os vinhos da Estremadura, que ainda não estão entre os grandes do país. O vinho Periquita, muito conhecido aqui no mercado brazuca, é feito de castelão.
  • Touriga Nacional e Touriga Franca – também entram no mix de cepas permitidas nos vinhos do Douro e do Dão.
  • Trincadeira – uva de região do Alentejo, onde bons produtores como Esporão e Cartuxa produzem vinhos macios, fáceis de beber – e que vêm ganhando adeptos e mercados pelo mundo afora.

E agora, algumas brancas :
  • Alvarinho – a principal uva dos famosos vinhos verdes do norte de Portugal, refrescantes e algo rascantes, que combinam maravilhosamente com frutos do mar (provei uma vez, com uma deliciosa paella, na casa da Guillermina - só de lembrar, me vêm lágrimas à boca ...). Os vinhos verdes, em regiões um pouco mais ao sul, também são produzidos com as variedades loureiro e trajadura.
  • Encruzado – a uva branca típica da região do Dão, inferiores aos tintos.
  • Antão Vaz, Arinto, Fernão Pires – uvas da região de Portugal Central (Estremadura, Bucelas, Ribatejo), produzem vinhos secos e frutados, com boa acidez.
  • Moscatel – talvez, a mais famosa das uvas brancas portuguesas, que produz maravilhosos vinhos doces, de coloração âmbar e aromas de caramelo.
  • Malvasia, Sercial, Verdelho – uvas brancas da ilha da Madeira, usadas exatamente no célebre vinho Madeira – que já foi muito famoso mundo afora, depois perdeu muito do seu charme e vem, mais recentemente, sendo “re-descoberto” pelos consumidores mais novatos – entre os quais se inclui este humilde blogueiro.
Enfim, os nomes são curiosos e despertam na gente a vontade de experimentar – ou seja, são a cara daquilo que, para mim, é o grande encanto do mundo do vinho ...


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Só um postzinho engraçadinho ...

- Sabe como é que se chama uma refeição sem vinho ?

- Nãããããoooo .....

- Café da manhã !!

Você acha que já viu harmonizações exóticas ? Veja só esta aqui ...

Ontem, quarta-feira, voltamos a desfrutar de mais um delicioso jantar naquele que é hoje nosso restaurante japonês preferido - o Huto, em Moema.

Já falei do Huto em outros posts deste blog - se ficou curioso, leia aqui e aqui. É sempre um prazer renovado voltar ao Huto - seja pela comida excelente, seja pela sempre calorosa e gentil recepção do Fábio, seja pelo serviço sempre atencioso e profissional.

Por outro lado, a harmonização dos vinhos com a comida japonesa é um troço sempre complicado ...

No jantar de ontem conversamos com o Rafael, o sommelier do restaurante, e ele nos indicou um vinho pra lá de exótico : o branco Marjan Simcic Rebula 2009 - simplesmente, um vinho da Eslovênia ! Pra quem não sabe (eu não sabia !) a Eslovênia tem muita tradição na produção de vinhos : parece que eles produzem vinhos por lá há cerca de 2.400 anos.

A Simcic é uma das melhores vinícolas do país, e está localizada próxima ao litoral, na região de Primorje (que, a propósito, quer dizer exatamente "ao lado do mar"). A família Simcic produz vinhos por lá há algumas gerações, e o Marjan Simcic é hoje o enólogo responsável pelos vinhos. Parece que a pronúncia correta desse nome é algo como "marian simchich" - mas não boto a minha mão no fogo, não ...

Esta uva Rebula, apesar do nome estranho, é a mesma uva ribolla, bem mais manjada uva do Friuli italiano.

Muito bem - e que tal, o vinho esloveno ?

Gostamos muitíssimo ! O vinho tem um aroma delicado, de frutas e flores, talvez peras. O aroma é doce e engana a gente - na boca, o vinho não tem nada de adocicado. É um vinho untuoso, com uma boa acidez e um leve toque mineral.

A harmonização foi certamente a melhor que já provamos em restaurante japonês - pela primeira vez, o vinho casou bem com tudo o que comemos, desde os picantes rolinhos de camarões e vieiras até o quase cremoso sushi com atum grelhado e foie gras. Aquele tipo de harmonização que a gente adora, em que o resultado final realça a qualidade tanto do vinho quanto da comida.

Fica aqui nosso agradecimento eterno ao Rafael, que nos apresentou essa beleza cuja foto vai aí abaixo.