segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Uma Confraria de grande respeito !

Tereza e eu fomos convidados para participar da Confraria Credvinho – um grupo que se reúne mensalmente, há cerca de 14 anos, para degustar vinhos e jogar conversa fora.

Participar dessa Confraria é, para nós,  uma grande honra – ela foi fundada pelo Credídio Rosa, um grande conhecedor de vinhos, e figura sempre presente no mundo dos vinhos brasileiros. Não há produtor no Rio Grande do Sul que não reconheça seu nome, lembrado constantemente como um grande incentivador do produto brazuca.

O Credídio, infelizmente, faleceu em 2014, mas o grupo montado por ele mantém suas reuniões habituais – e hoje, a tarefa de manter o grupo unido e de organizar as reuniões mensais fica por conta da Vera, incansável e dedicadíssima  em suas árduas tarefas

Em nossa reunião de agosto, o tema escolhido foram as uvas autóctones – nomezinho complicado para designar as uvas que são produzidas quase exclusivamente em um único país, em contraposição às chamadas uvas internacionais – as manjadas cabernet sauvignon, merlot, chardonnay …

Começamos recepcionando os confrades e “confreiras” com um Simcic Marjan Rebula 2014, um vinho branco da Eslovênia, produzido com a uva rebula. A rebula ocupa hoje 26 % da área total de vinhedos da Eslovênia, e é plantada principalmente numa pequena região na fronteira com a Itália, conhecida como Colinas de Goritzia. Na Itália, a uva é chamada de ribolla gialla.

Um belíssimo vinho, de pungentes aromas de frutas cítricas e de maçã verde, com toques minerais.


Para a degustação propriamente dita, demos início aos trabalhos com um Nótios 2013, vinho tinto grego, produzido na região de Nemea, no Peloponeso, com a uva agiorgitiko. Um vinho jovem, sem madeira, que não nos impressionou muito – foi o ultimo colocado entre os quatro degustados …


A seguir atacamos um Modello Rosso delle Venezie IGT 2013, um italiano do Veneto, produzido pela vinícola Masi, com duas uvinhas bem peculiares. Uma dela é a refosco dal pedunculo rosso (adoro esse nome !), uva tão histórica que foi mencionada pelo escritor romando Plínio, o Velho, lá por volta do século I. A outra uva é a raboso, que significa “raivosa” no dialeto veneto, já que se trata de uma uva bastante tânica e de grande acidez.

O vinho me pareceu fresco e frutado, com taninos suaves e delicado. Creio que deve harmonizar bem com massas leves e com risotos. Ficou em terceiro lugar, na opinião da Confraria.


O terceiro vinho foi um Mastro Rosso IGT 2014, um italiano da Campania, produzido com a grande uva local que é a aglianico – ela é considerada uma das três mais importantes da Itália, ao lado da sangiovese da Toscana e da nebbiolo do Piemonte. Vinho potente e intenso, com aromas de frutas vermelhas e de especiarias. Era o meu preferido, mas a Confraria concedeu-lhe um honrosíssimo segundo lugar.



Para fechar, o vinho que ganhou a taça de melhor da noite – um Kadette Cape Blend 2012, sul-africano da região de Stellenbosch, produzido com uma mescla de pinotage, cabernet sauvignon, merlot e cabernet franc. Os sul-africanos dão o nome de Cape Blend a essa bela mistura, já que é o corte tradicional dos vinhos produzidos ao redor de Cape Town, a deslumbrante Cidade do Cabo.
Com seus doze meses de carvalho, o Kadette, da vinícola Kanonkop, tem aromas de framboesas e de groselhas maduras, com notas de café. Na boca, lembra chocolate negro, e tem um final seco, elegante e beeeeeeem prolongado …


Em resumo – foi uma delícia conviver com os novos amigos e bebericar esses vinhos pouco conhecidos.

Já estamos nos preparando ansiosamente para a reunião de setembro !


terça-feira, 25 de julho de 2017

CHI -CHI – CHI !! LE – LE – LE !! CHILE ! CHILE ! CHILE !

E viva o Chile !

Sim, sim, nestes dias desta semana, minha vontade é repetir a torto e a direito o famoso grito de guerra da  torcida chilena, como no título deste post.

Isso porque, no último final de semana, estivemos na casa de nossos queridos amigos Carol e Ivan, com suas sempre adoráveis filhotas – a doce e angelical Maria Eduarda e a espevitadinha Helena.

Caso este : eles estiveram passeando, em férias, pelo Chile, e trouxeram de lá deliciosas garrafinhas de belíssimos vinhos chilenos – e tiveram a ainda mais deliciosa ideia de nos convidar, à Tereza e a mim, para degustar essas preciosidades.

Foi um festim bárbaro, acreditem em mim !

Para comer, uma porção de gostosuras – queijos, bruschettas, embutidos, geleias, patês, damascos …

Para beber – ah, para beber …

Demos início aos trabalhos com nada mais, nada menos do que um Don Melchor Cabernet Sauvignon 2013, o vinho top da vinícola Concha y Toro, um dos melhores do Chile e – vale acrescentar – do mundo. Afinal, em sua versão de 2014, ele levou impressionantes 98 pontos lá na escala de nosso dileto coleguinha Robert Parker. A Concha y Toro é, provavelmente, a vinícola chilena mais conhecida ao redor do mundo, e fica no Valle Central – bem pertinho de Santiago.


Na verdade, apesar do nome, o vinho leva 91 % de cabermet sauvignon mesclados com 9 % de cabernet franc. Produzido com uvas de vinhedos de mais de 30 anos, o vinho estava fantástico. Macio e elegante, combinando os aromas da madeira com aromas frescos de erva e de frutas vermelhas.

A farra pantagruélica avançou, em seguida, para um Gran Bosque Private Reserve 2013, também de cabernet sauvignon, produzido pela vinícola Casas del Bosque, no Valle de Casablanca. Este eu não conhecia, e foi um enorme prazer ser apresentado a ele (não sei se a recíproca foi verdadeira).


O vinho recendia a madeira e frutas negras, e na boca apresentava taninos marcantes mas muito elegantes, sem nada de amargor.

O terceiro vinho (na minha opinião, o melhor da noite) foi o magnífico Lota 2010, da vinícola Cousiño Macul. Fundada na metade do século XIX, a vinícola permanece até hoje nas mãos da mesma família que lhe deu origem.


O Lota é feito com a mescla clássica de cabernet sauvignon e merlot, vindas de vinhedos plantados no Valle del Maipo. No nariz, chamavam a atenção os aromas de frutas negras como ameixas ou amoras, mesclando-se aos aromas terciários gentilmente fornecidos pelos 18 meses em carvalho : algo como couro ou tabaco. Na boca, um vinho de alta acidez, frutado e elegante. Combinou maravilhosamente com os salaminhos e linguicinhas que estávamos degustando …

O final da festa foi com uma garrafa de EPU 2014, que é o segundo vinho da mitológica vinícola Almaviva, uma joint-venture entre os chilenos da Concha y Toro e os franceses da Baron de Rotschild. Aliás, parece que o nome EPU vem da antiga língua do povo mapuche, e quer dizer, precisamente, “número dois”.


Belíssimo vinho, um blend de cabernet sauvignon, carmenère, merlot e cabernet franc. Aromas de frutas vermelhas e de caramelo, com taninos discretos e notas frutadas na boca.

Enfim, foi um belo passeio pelo que há de melhor nas botellas chilenas. 

Carol, Maria Eduarda, Helena, Ivan – contem com nossa eterna gratidão por tão maravilhoso passeio !

terça-feira, 11 de julho de 2017

É um pássaro? É um avião? Não! É o Supertoscano!

Pois é, esse negócio de “supertoscano” parece coisa de história em quadrinhos (ou filme) de super-heróis, né ?

Você talvez já tenha ouvido, aqui e ali, esse termo – os tais vinhos chamados de “supertoscanos” … Que significa isso ?

Bem, o que acontece é que nos anos 60 a Itália decidiu criar classificações formais para seus vinhos – as classificações top foram (e são até hoje) as DOC (Denominazione de Origine Controllata) e as DOCG (Denominazione de Origine Controllata e Garantita). São assim classificados, por exemplo, os Barolo, os Brunello di Montalcino, os Chianti Classico

Pela lei, os vinhos que podem utilizar essas classificações devem utilizar apenas uvas italianas autóctones (originárias da própria Itália), como a sangiovese, a nebbiolo, a trebbiano, etc.

Mas alguns italianos são meio turrões, a gente sabe como é …

Pois foi graças a um ou dois desses italianos turrões que a gente hoje pode falar sobre (e principalmente beber !) os tais supertoscanos. Benditos turrões !!

No final dos anos 60, o Marquês della Rocchetta resolveu produzir um vinho, bem no coração da Toscana, apenas com uvas francesas – ele usou cabernet sauvignon e cabernet franc. Deu ao vinho o nome de Sassicaia.


Outro italiano turrão, o marquês Piero Antinori, decidiu então seguir o exemplo do seu patrício. Ele mudou o Chianti que sua família produzia a séculos, também na Toscana. Ao invés de usar apenas a clássica uva sangiovese, o Antinori começou a mesclar seu vinho com cabernet sauvignon e cabernet franc – e criou o vinho chamado de Tignanello.

Como o Sassicaia e o Tignanello usavam uvas não-italianas, eles não puderam ser classificados no topo da pirâmide, como DOC ou DOCG. Tiveram que se contentar com a classificação mais baixa da lei, na época – a simples vino de tavola (vinho de mesa).

A coisa começou a ficar realmente séria nos anos 90, quando Robert Parker (o mais famoso crítico mundial de vinhos) deu ao Sassicaia, em uma degustação às cegas, a nota máxima atingível : 100 pontos.

E agora ? A Itália passava a ter um vinho considerado de ótima qualidade, cobrava por esse vinho um preço compatível com essa qualidade (ou seja, caríssimo) – e o vinho não era considerado top nas classificações oficiais …

Em outros países do mundo, isso talvez fosse considerado um problemão. Na Itália, não foi assim, é claro … Os dois vinhos deram origem a um sem número de novos rótulos (Guada Al Tasso, Ser Giovetto, Solaia, Ornellaia, e um imenso etc.). Os americanos começaram a chamar esses vinhos de … adivinhe ! Sim, sim, são os supertoscanos !

São vinhos excelentes e caros, e continuam não sendo classificados como DOC nem DOCG. A maioria deles, hoje em dia, é classificada como IGT (Indicazione Geografica Tipica), uma categoria apenas intermediária.

Mas eles nem ligam !!

E nós, humildes bebedores, ligamos menos ainda …

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Sua Majestade, a pinot noir



Toda reverência é pouca para falarmos dessa grandiosa uva ! Para escrever este post, por exemplo, eu coloquei meu smoking e minha black-tie

Sim, pois estamos falando de uma uva que tem a marca da nobreza. Frágil e delicada, ela exige, para ser cultivada, condições climáticas muito específicas – há de ser uma região fria e seca. Sua casca, muito fina, é extremamente sensível às pragas e aos insetos que podem florescer em locais mais úmidos e mais quentes – sim, sim, exatamente como a pele sensível de uma pálida princesinha criada a Toddy dentro das muralhas de seu castelo …

A pinot noir prefere solos calcários, através dos quais ela possa lançar suas raízes em grandes profundidades para buscar seus preciosos nutrientes.

Essas frescuras da pinot noir fez com que, por muito tempo, ela fosse plantada apenas na região da Borgonha, na França – onde ela se originou, há cerca de dois mil anos. Só nos anos 80 e 90 do século XX sua produção foi levada para algumas outras áreas do mundo, graças aos esforços da tecnologia.

O vinho gerado a partir da pinot noir é quase inconfundível no olhar – é um vinho rosado, translúcido, bem clarinho – chega, às vezes, a lembrar um vinho rosé. Isso se deve à baixa presença, na casca da uva, das substâncias chamadas antocianinas – os pigmentos que dão aos vinhos sua cor de … bem, de vinho.

Mas a cor engana o incauto bebedor – você olha a taça, e supõe que vá provar um vinho suavíssimo. Ao primeiro gole, você se surpreende – o vinho é potente e pleno de sabores, marcante e absolutamente único.

Os grandes borgonhas, feitos exclusivamente com pinot noir, harmonizam perfeitamente com carnes suculentas como o boeuf bourguignon, com seus legumes e bacons. Harmoniza também com queijos cremosos como o brie e o camembert, com cogumelos, com trufas. Pessoalmente, eu gosto de pinot noir mesmo para alguns peixes de sabor mais marcante, como atum e mesmo bacalhau. Há quem diga que um bom borgonha harmoniza até com tapa na orelha …

E temos aí outra característica – eu ia dizer outra frescura – da pinot noir : ela não costuma ser boa para cortes, ou seja, para ser misturada com outras uvas. Sua elegância e sua delicadeza seria certamente contaminada ou mascarada pela presença de outras uvas. Pois é, a nobreza não se mistura com a ralé …

A não ser … bem, sim, há, de fato, um lugar onde a pinot noir concede ser misturada a outras pobres uvinhas … É a região de Champagne, também na França. Lá, a pinot noir se deixa mesclar à chardonnay e à pinot meunier – mas o motivo dessa condescendência é também nobre : esse blend vai gerar, simplesmente, os fabulosos champagnes franceses.

Pena que os vinhos da Bourgogne, onde a pinot noir é soberana, sejam TÃO caros pra nós, pobres brazucas

O jeito é ir de garrafinhas produzidas em outros locais – a Nova Zelândia produz bons vinhos dessa uva, e também no Chile e na Argentina (em menor escala) ela anda se dando bem.

Mas não se enganem – os pinot noir desses países do Novo Mundo são bons, mas ainda não se comparam aos da Borgonha.

Sua Majestade não se rende tão facilmente !







quarta-feira, 7 de junho de 2017

Excelente lugar, ótima comida ... e alguns vinhos

No último final de semana, a nossa BIP (Busca Incansável do Prazer) nos levou, ao lado de amigos queridos, a um belo cantinho da sempre bela Serra da Mantiqueira – o Restaurante Entre Vilas, próximo à cidade de São Bento do Sapucaí.

Os arredores são belíssimos – o verde e as imponentes montanhas da Mantiqueira, emoldurados, como estavam no sábado, por um céu tão azul que chegava a parecer artificial …

O restaurante é agradável, o pessoal de serviço é simpático, o proprietário e chef (Rodrigo Veraldi) é simpaticíssimo – e a comida é ótima, como mencionei lá no título do post. A proposta é mesmo de slow-food : você passa a tarde toda por lá, comendo diversos pratos, e espiando, sem pressa, a paisagem ao redor.

Definitivamente, é um lugar que vale a pena ser visitado, num fim-de-semana, para quem gosta de fugir de Sampa de vez em quando. Há até quem faça o famoso bate-e-volta, indo até lá só para almoçar e retornando no fim do dia. Pessoalmente, acho meio cansativo – foi uma delícia dormir por lá mesmo, numa bela pousada a 3 km de distância, e ainda desfrutar da manhã de domingo no mato.

Porém – ai, porém, como no samba do grande Paulinho da Viola …

Minha solene recomendação é que, pra acompanhar o bom almoço, você vá mesmo de cervejas, refrigerantes, sucos, essas coisas …

O Entre Vilas funciona também como vinícola, e serve no seu cardápio os vinhos produzidos por ali mesmo, na própria Mantiqueira – e, neste pormenor, a experiência não foi nada boa, não ...

Demos início aos trabalhos com um rosé feito da uva syrah, chamado Vento, safra de 2017. O vinho já tinha uma coloração um tanto estranha, avermelhada demais, parecendo artificial. Havia uma certa borra no vinho, também bastante estranha em se tratando de um rosé novíssimo. Aroma, nenhum. Na boca, nada de acidez, e um sabor residual de … groselha ! Não a fruta, mas a velha Groselha Vitaminada Milani – acho que todo mundo lembra do sabor, né ? Não cheguei a beber minha taça toda.



Passamos depois aos tintos – o vinho seguinte foi um tinto de cabernet franc, chamado Montesa. O visual até que prometia, com seus reflexos violáceos bem marcantes. No nariz, a mesma ausência de qualquer fragrância, e na boca, a mesma falta total de acidez. Um vinho desequilibrado, chatinho, quase sem sabor.


A terceira garrafa foi do chamado Obsession, um blend de cabernet sauvignon e cabernet franc (em proporção de 80 % e 20 % respectivamente, segundo o proprietário). Este apresentava um aroma um pouquinho mais pronunciado- mas, mais uma vez, acidez zero e sabores muito, muito sutis – quase imperceptíveis, diria eu …

Acabou que o melhor vinho do dia foi a garrafa seguinte, o Vinho da Estância, um blend de cabernet sauvignon, tannat e tempranillo – que não é produzido lá, e sim em Dom Pedrito, na Campanha Gaúcha, pela Vinícola Guatambu.

Como se não bastasse, os vinhos são bem caros – o rosé custava 110 reais, o cabernet franc custava 130 reais, e o blend 150 reais. Definitivamente, pouca qualidade para muito preço …


Resumo da ópera : visite o Entre Vila com seu grupo de amigos, divirta-se com o passeio em si, aproveite a boa comida e a simpatia do pessoal – mas deixe o vinho pra lá …


segunda-feira, 22 de maio de 2017

A histórica uva syrah

Aqui, um três-por-quatro de nossa amiguinha
Histórica ? Por que histórica ?

Bem, a uva syrah é uma das mais antigas variedades de uvas conhecidas no mundo. Sua origem se perde nos meandros mitológicos : ela teria sido trazida da Pérsia ou do Oriente Médio pelos Cruzados, ou teria vindo das ilhas do mar Egeu, pelas mãos dos gregos, ou, ainda, teria sido trazida do Egito para a ilha italiana da Sicília.

O que se sabe de fato sobre a origem da syrah é que ela surgiu no sul da França, no vale do rio Rhône (ou Ródano, em português), provavelmente por volta do século XII.

No Rhône, a syrah produz vinhos densos e escuros, potentes e plenos de sabor e de aromas. No olfato, sua marca inconfundível é o aroma que lembra pimenta-do-reino e especiarias.

Na região ao norte do vale do Rhône, são produzidos os vinhos de syrah mais celebrados pelos apreciadores : os ótimos e caros Hermitage e Côte Rôtie.

Já nos anos 80 do século XX, a syrah se espalhou pelo planeta. Hoje, ela é a sexta uva mais produzida no mundo – e a gente pode encontrar belos vinhos feitos com syrah na Austrália e na África do Sul, no Chile e na Argentina, nos Estados Unidos - e mesmo em outros países da Europa, como Portugal e Itália.

No chamado “Novo Mundo” (categoria que abarca as Américas, a África e a Oceania), ela é normalmente chamada de shiraz – mas não se iluda : é a mesma uva mitológica que nos encanta há 800 anos.

Os vinhos australianos e sul-americano de syrah (shiraz) também apresentam especiarias no olfato, mas adicionam frutas maduras como ameixas ou amoras.

Em geral, são vinhos de sabores marcantes, com boa acidez, e com taninos macios -  claro que isso sempre depende do produtor, do enólogo ou do terroir específico de cada região.

Pessoalmente, eu creio que os vinhos de syrah harmonizam bem com pratos de sabores também marcantes e bem temperados : assados com molhos espessos, cordeiro, queijos amarelos fortes e assim por diante.

Você vai encontrar belos exemplares de syrah do Chile e da Argentina aí no supermercado ao lado da sua casa, garanto. Pode ser que encontre também alguns italianos e portugueses, a preços convidativos. Experimente – acho que você vai gostar !

Alguns exemplos aleatórios de bons syrah, bebidos por mim mesmo, com preços ao redor de 100 a 120 reais :

  • Argentinos : Escorihuela Familia Gascón Syrah, DV Catena Syrah Syrah, Septima Varietal Syrah.

  • Chilenos : Matetic Corralillo Syrah, Montes Alpha Syrah, Aquitania Reserva Syrah.

  • Australiano : Heartland Shiraz,


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Bebendo vinho como Astérix

Em ânforas ! Sim, há inúmeras evidências arqueológicas de que os antigos romanos produziam e armazenavam seus vinhos em ânforas de cerâmica. Mais tarde, como se sabe, as ânforas eram furtadas por Astérix e Obelix e devidamente esvaziadas durante os jantares pantagruélicos na pequena aldeia gaulesa …

Mas em outras pequenas aldeias pelo mundo – mais precisamente, na bela região do Alentejo, em Portugal, a tradição de produzir vinhos em ânforas de cerâmica foi, de alguma forma, preservada. É comum, ao que parece, que famílias produzam seus vinhos domésticos usando velhas ânforas de cerâmica presentes na família há gerações. Vejam a história neste site, bem interessante – é só clicar aqui. Se quiserem ver uma animação sobre como o vinho de talha é produzido, cliquem aqui.

Está lá no Alentejo a vinícola Herdade do Esporão, uma das maiores e mais importantes do país. Eles produzem grandes vinhos, como o Esporão Reserva, o Quinta dos Murças, e vários outros rótulos. Alguns anos atrás, o pessoal da Herdade do Esporão decidiu fazer uma aposta no mínimo curiosa : trazer para dentro de sua grande vinícola, de porte industrial, a velha e doméstica tradição alentejana do vinho em ânforas.

As ânforas da Herdade do Esporão

Nos últimos anos, eles têm produzido cerca de 3.000 garrafas por ano desse curioso vinho, chamado por eles de Vinho de Talha. Foram construídas grandes ânforas de cerâmica, com o mesmo material e com as mesmas técnicas das ancestrais ânforas caseiras, e a fermentação das uvas ocorre dentro delas.

O vinho feito nessas ânforas – ou talhas - tem uma série de características próprias, que fazem dele praticamente um vinho orgânico : são utilizadas apenas leveduras indígenas (naturais), e não aquelas produzidas em laboratórios, e são utilizados, segundo a vinícola,  pouquíssimos produtos químicos.

O resultado desse processo vem sendo engarrafado em dois rótulos distintos : o Vinho de Talha Vinhas Velhas e o Vinho de Talha Moreto.


O Vinhas Velhas é produzido com as uvas tradicionais do Alentejo (aragonez, castelão, moreto e trincadeira), mas plantadas em antigos vinhedos que tem suas origens meio obscurecidas pelo tempo.


O Moreto é produzido apenas com a uva moreto, mais uma das uvas autóctones da região.

Meus queridos amigos Antonio, Denise e Edu estiveram, mês passado, visitando a vinícola, e trouxeram de lá algumas garrafinhas desse curioso vinho.

E que tal o vinho ?

Bem, a verdade é que o vinho está mais para curioso do que para ótimo …

Na taça, o vinho lembra, surpreendentemente, um Borgonha – tonalidades violetas bem vivas e uma transparência quase total, bem diferente do que a gente está acostumado em matéria de vinhos alentejanos.

O olfato, bem discreto, guarda traços de frutas e flores.

Na boca – miseravelmente ! – parece um vinho um tanto aguado, com pouca acidez, sabores discretíssimos, e permanência quase nenhuma. De forma geral, não agradou a nenhum de nós, no grupo que fez a degustação. E não é nada barato – cada garrafa custou cerca de 22 euros lá na vinícola …

Eu diria que essa, provavelmente,  é a razão pela qual os nossos bravos gauleses gostavam mais da poção mágica do druida Panoramix do que dos vinhos roubados dos romanos …







Enfim – ficam aqui as informações como curiosidade, neste sempre rico e criativo universo dos vinhos.



terça-feira, 11 de abril de 2017

Mitologia engarrafada em Portugal

Fazia algum tempo que a gente não revia nossos queridos amigos Sílvia e Nuno – e por razões muito boas : primeiro, Tereza e eu estávamos viajando por 20 dias pelo Marrocos. Logo em seguida, eles partiram para uma viagem de 30 dias por Portugal, onde o Nuno pôde rever sua terra natal, da qual estava afastado há um bom tempo.

Domingo último, matamos as saudades – e eram tantas histórias para contar, de um lado e de outro,  que ficamos juntos por quase 8 horas (!!!), falando sem parar …

Isto é – sem parar, não. Paramos algumas vezes, para comer e principalmente para beber algumas das coisas maravilhosas que eles trouxeram de sua viagem.

Provamos vinhos deliciosos, do Douro e do Alentejo, mas o grande destaque do dia – e causa deste post solene – foi a garrafinha da foto aí abaixo :


Sim, entre tantas coisas boas para falar, para ouvir, para comer e para beber, despontou nada mais, nada menos do que um mitológico Pêra Manca Branco 2014

Pra quem não está ligando o nome à pessoa, o Pêra Manca é o belíssimo vinho produzido na igualmente belíssima cidade de Évora, no coração do Alentejo, pela Adega Cartuxa (Fundação Eugênio Almeida). Ah, ele é também, ao lado do Barca Velha, um dos dois mais famosos, respeitados e reverenciados vinhos de Portugal.

A história da Adega Cartuxa é interessante – seu fundador, Vasco Maria Eugênio de Almeida, era um dos homens mais ricos de Portugal. Ao morrer, em 1963, e como não tinha herdeiros, ele deixou sua fortuna para a Fundação Eugênio Almeida – que, desde então, reverte todos os seus lucros em inovações tecnológicas e – o que é mais bacana – em ações sociais junto à comunidade em que está inserida.

O Pêra Manca Branco é produzido com as uvas antão vaz e arinto, carregando toda a tipicidade do Alentejo. Aroma frutado, cítrico e mineral – daqueles aromas que têm “camadas” : à medida em que o tempo vai passando, você vai descobrindo na taça novas nuances.

Na boca, um vinho seco, mas macio, com ótima acidez, e com sabor complexo e muito persistente.

Harmonizou maravilhosamente com um queijinho camembert – a acidez do vinho combinada à untuosidade do queijo resultava em uma coisa nova, um terceiro e delicioso sabor, que lembrava nozes ou amêndoas. Inesquecível !


Fica registrada aqui, portanto, nossa imensa gratidão à Sílvia e ao Nuno por nos proporcionarem a graça de saborear essa maravilha !

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A uva dos castelos dos contos de fada

Castelo de Chambord
No oeste da França fica a bela região cortada pelo rio Loire. Ao longo do seu vale – e ao longo dos séculos – foram sendo erguidos na área alguns dos mais famosos e mais lindos castelos do mundo. Entre os séculos X e XVI, a nobreza francesa construiu por aqui os castelos de Amboise, Chambord, Chennonceau … Pra repetir o chavão de sempre, parecem todos saídos dos contos de fadas que a gente lia na infância.

Castelo de Chennonceau

Pois é nessa terra encantada que reina uma uva muito especial – a chenin blanc. Segundo os estudiosos do assunto, a chenin blanc parece ter surgido em algum ponto do território francês por volta do século IX. No Vale do Loire ela encontrou, nos solos de argila e calcário da região,  à sombra dos belíssimos castelos, o terroir perfeito para desenvolver sua marcante acidez e sua complexidade.

O escritor francês François Rabelais, lá pelo início do século XVI, já mencionava a chenin como integrante dos banquetes e festivais dos camponeses de Anjou – uma sub-região do Loire.

Essa nossa uvinha é também muito versátil (a manjada expert Jancis Robinson afirmou certa vez que a chenin é provavelmente a uva mais versátil do mundo) : os franceses elaboram com ela vinhos varietais secos, mas também vinhos de sobremesa, vinhos fortificados e até um bom espumante, o Crémant de Loire. Ela também entra em alguns blends com outras uvas brancas, como sauvignon blanc ou chardonnay, contribuindo com sua característica acidez.

Partindo do Loire, a chenin blanc espalhou-se pelo chamado Novo Mundo. Nova Zelândia, Estados Unidos, Austrália e – principalmente – a África do Sul produzem hoje ótimos vinhos dessa cepa. A propósito, na África do Sul ela é hoje a uva mais plantada, ocupando cerca de 18 % dos vinhedos.
Os vinhos do Loire tendem a apresentar aromas de minerais e toques de mel, com a acidez da fruta se destacando. Já os do Novo Mundo costumam exibir aromas mais, digamos, tropicais : são aromas de frutas como goiaba e banana, abacaxi e pera.

Tenho bebido bastante, nos últimos tempos, um ótimo chenin blanc sul-africano, chamado Neethlingshof . OK, OK, o nome é difícil de pronunciar, mas acreditem – o vinho é muito bom !

Quando possível, beberiquem um vinho de chenin blanc – e sonhem com os encantadores castelos das fotinhos aí do alto …




sexta-feira, 24 de março de 2017

Velho Mundo X Novo Mundo - a classificação dos vinhos

Há, no mundo dos vinhos, um conceito bem manjado – quando a gente está falando de vinhos do Velho Mundo (França, Espanha, Portugal, Itália, etc.), o que vale conhecer é o tipo de vinho (Chianti, Barolo, Primitivo…) ou a região produtora (Borgonha, Rioja, Alentejo …)

Já quando a gente está falando dos vinhos do Novo Mundo (Chile, Argentina, África do Sul, Nova Zelândia, Austrália, etc.), o que conta é a uva declarada no rótulo (cabernet sauvignon, chardonnay, malbec, etc.)

O pessoal de Bordeaux, por exemplo, nem pensa em registrar nos seus rótulos que seus vinhos são feitos com cabernet sauvignon, merlot e otras cositas más. Da mesma forma, o pessoal do Douro, jamais registra nos seus rótulos aqueles nomes curiosos das uvas que eles usam por lá : touriga nacional, tinto cão, tinta roriz.

Porque será que é assim ?

Bem, há, de cara, uma explicação histórica para isso. Os vinhos da Europa, em geral, são produzidos por lá há séculos - e  ficaram mundialmente conhecidos exatamente por suas denominações originais. São os Bordeaux e os Borgonhas, os Douros e os Alentejos, os Chiantis e os Barolos, os Riojas e os Ribera del Duero

Para produzir essas maravilhas, cada família de produtores tinha, há gerações e gerações, a sua própria formula mágica – uma base de cabernet sauvignon, um tanto de merlot, um nadinha de petit verdot – e o Bordeaux estava pronto !

Quando começaram as migrações europeias em direção ao chamado Novo Mundo, os agricultores que migravam tratavam de levar suas mudazinhas de videiras, para produzir seus vinhos nas novas terras. Eles podiam levar as videiras – mas não podiam levar na bagagem o conjunto do terroir e das centenárias tradições vinícolas de suas regiões natais …

Eles se viraram como puderam. Nem todas as uvas europeias se davam bem nas terras do Novo Mundo – e isso dificultava a produção dos vinhos como eles estavam acostumados. Eles trataram de plantar as cepas que realmente vingavam nas novas terras – e faziam seus vinhos com o que era possível.

Daí, o surgimento, no Novo Mundo, dos chamados vinhos varietais – aqueles feitos com apenas UMA variedade de uvas : merlot, cabernet sauvignon, chardonnay, malbec, sauvignon blanc …

Mas há também uma outra razão, de origem mais – digamos – marqueteira. Quando os caras trataram de vender seus vinhos no mercado internacional, eles não dispunham de “nomes fortes” como Chianti, Rioja, Borgonha para ostentar nos seus rótulos. Vamos e venhamos – se eles tratassem de colocar no rótulo, em destaque, nomes como Mendoza, Maipo, Stellenbosch e outros do tipo, ninguém ia comprar aquelas coisas esquisitas …

A saída, claro, foi imprimir, em grandiosas letras douradas, “MERLOT” , “MALBEC”, “CHARDONNAY”, ou fosse lá o que fosse que eles estivessem usando …


Com o tempo, essa passou a ser uma especie de marca registrada – os vinhos do Novo Mundo são, até hoje, principalmente identificados como varietais, ao passo que os vinhos do Velho Mundo são principalmente identificados pelos seus nomes – ou regiões – tradicionais.

É isso aí !

quinta-feira, 9 de março de 2017

Impressões (cinematográficas !) do Marrocos

Acabamos de chegar de uma maravilhosa viagem de férias – por 20 dias, estivemos percorrendo o Marrocos, onde volta-e-meia nos sentimos como se estivéssemos mergulhados em um filme – vocês sabem, algo como Lawrence da Arábia ou O Paciente Inglês, ou ainda O Céu Que Nos Protege.

Fizemos um inesquecível passeio em camelo pelo deserto do Saara, nos perdemos nas infinitas ruelas das medinas de Fez, Marrakesh, Essaouira, comemos muitos tagine e couscous – e, claro, aproveitamos para conhecer os vinhos marroquinos, que ninguém é de ferro …

Tereza, nas dunas do Saara

De saída, três fatos curiosos :

1 – Sim, o Marrocos possui uma razoável produção vinícola. Eles possuem 15 regiões produtoras registradas, e sua pequena produção é de cerca de 1 décimo do que o Brasil produz, e menos de um centésimo do que é produzido pela França (maior produtor mundial).

2 – Apesar de ser um país majoritariamente muçulmano – religião que proíbe o consumo de álcool -, a grande maioria dos restaurantes turísticos têm vinhos e cervejas na sua carta.

3 – É muito difícil – quase impossível ! – encontrar nas cartas dos restaurantes um vinho que não seja marroquino … Seja por respeito à produção local, seja por conta de custos elevados demais, a verdade é que passamos estes 20 dias quase exclusivamente bebendo vinhos produzidos in loco.

E que tal são esses vinhos ?

Bem, falando francamente, não são lá grande coisa, não … Em geral, falta-lhes acidez : os vinhos são “chatos”, sem personalidade, um tanto mortinhos na boca … Talvez seja influência do terroir local, não sei ...

Mas há coisas boas.

Provamos por lá dois vinhos dos quais gostamos bastante :

Um deles foi o Tandem Syrah 2011, produzido na região de Zenata, próxima à cidade de Casablanca. Um bom vinho, com aromas de frutas negras e toques de especiarias (como todo bom syrah), com taninos elegantes e sabor agradável.


O outro – nosso preferido – foi o Les Coteaux de l’Atlas 2013, produzido pela vinícola Château Roslane na região de Meknés, no norte do país. A uva é 100 % cabernet sauvignon, e o vinho nos pareceu muito bom. Encorpado e potente, dando boa expressão à uva, com aromas entre frutados (cerejas e ameixas) e terciários (couro, tabaco). Na boca, um vinho intenso e equilibrado, com final persistente.

Desse último, trouxemos na mala uma garrafinha para bebericar por aqui. Como é sabido, o prazer proporcionado por um determinado vinho está muito ligado às circunstâncias – se você está feliz, em um lugar deslumbrante, entrando em contato com um povo e uma cultura fascinantes, você fica mais propenso a achar bom tudo o que bebe …

Será que aqui em casa, longe do Marrocos e de toda sua beleza, a gente ainda vai continuar achando este vinho muito bom ?? Veremos em breve …


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Pra não dizer que eu não falei das cervejas ...

Bem, pra provar que nem só de vinhos vive este blog, e pra demonstrar que nem só de merlots e chardonnays se embriaga este pobre blogueiro, aqui vai um post sobre um local ótimo para degustar … cervejas !

Estivemos esta semana em um local chamado Experiência Cervejeira : um misto de loja e bar de cervejas diferenciadas, que também serve chope e alguns petisquinhos.

O Experiência Cervejeira tem cerca de 120 rótulos diferentes, entre nacionais e importados – nem é preciso mencionar que as brahmas e skols da vida não estão disponíveis por lá …

O atendimento é feito pelo proprietário, o simpático Sidney, sommelier de cervejas profissional. Com seu grande conhecimento e sua imediata empatia com a clientela, o Sidney está lá com a duríssima missão de guiar o bebedor de cerveja por entre o imenso cipoal de rótulos, marcas, tipos, países e variedades disponíveis. Sim, meus amigos, o mundo da cerveja já é tão – ou mais ! – complexo que o nosso habitual mundinho dos vinhos !

Uma coisa muito legal é você encontrar no cardápio algumas “experiências” diferentes (daí o nome do local) – são harmonizações entre as cervejas e os petiscos, que são servidos em um display especialmente fabricado para esse fim.

Provei por lá três “experiências” distintas :

A primeira experiência envolvia queijo camembert e uma cerveja canadense de trigo, chamada Blanche du Paradis, da cervejaria Dieu du Ciel ! (o ponto de exclamação não é meu, faz parte mesmo do nome da cervejaria ! – este último é meu). A cerveja é leve e refrescante, com aromas cítricos e de especiarias – e a combinação com a cremosidade do queijo foi ótima.

A segunda experiência foi com linguicinhas de Blumenau e uma cerveja brasileira de puro malte cujo nome minha incompetência bloguística me impediu de anotar …

Ainda bebericamos uma Edelbrau Dunkel, produzida em Nova Petrópolis, Rio Grande do Sul. Uma cerveja escura de baixa fermentação, com um delicioso aroma de tostado.

Para fechar a brincadeira, mais uma “experiência” – a cerveja era a belga Kriek Boon, uma cerveja do tipo lambic, feita com a adição de cerejas inteiras. E a harmonização – pasmem vocês, como eu mesmo pasmei-me – foi com brigadeiro de colher de chocolate branco ! A untuosidade e a doçura do chocolate branco combinaram maravilhosamente com o doce-azedinho da cerveja, com um irresistível sabor de quero-mais.

A incrível harmonização de chocolate branco e cerveja

Eles também vendem por lá o chope (sempre variado) em belos garrafões de vidro, chamados de growlers, que você pode levar pra casa e, depois de devidamente bebido o conteúdo, voltar à loja para enchê-lo de novo – um charme !

Apresento a vocês, senhoras e senhores - o growler !


Enfim, de uma coisa estamos seguros – quando estivermos com vontade de fazer uma pausa no nosso nunca jamais cansativo vinhozinho-de-cada-dia, a parada certa será a Experiência Cervejeira.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Flanando pela Alsácia

Alsácia ! Sim, em meados de 2015, a BIP - a Busca Incansável do Prazer, nos levou à Alsácia, a pequenina região situada na fronteira entre a França e a Alemanha. Na verdade, nos últimos 400 anos, essa região já fez parte, alternadamente, dos dois países. Sabemos que estamos na França, mas os nomes das cidadezinhas e dos vinhos soam extremamente germânicos.

A região toda é formada por uma faixa de terra de pouco mais de 80 km de extensão, com menos de 20 km de largura - você cruza a região toda, de carro, em uma hora, se não parar em nenhuma das cidadezinhas ou vilarejos.

E isso seria, obviamente, uma tolice sem tamanho - o grande charme de passear pela Alsácia está precisamente em desfrutar, com muita calma, sem pressa, cada um dos lindos vilarejos que a compõem, caminhando pelas ruas estreitas e sinuosas, contemplando as casinhas feitas quase sempre com aquela estrutura de madeira aparente (eles chamam esse estilo de colombage), bebericando, aqui e ali, os vinhos brancos que fazem a fama da região.


Tereza, diante da célebre colombage

 As cidades de Estraburgo, ao norte (a capital da Alsácia), e de Colmar, ao sul, praticamente delimitam os extremos da região. No meio, dezenas de vilarejos encantadores, com nomes meio difíceis de pronunciar : Obernai, Selestat, Dambach-La-Ville, Ribeauvillé, Riquewihr, Eguisheim - este último é o preferido da Tereza ! Todos são semelhantes, e todos estavam incrivelmente enfeitados de flores por todas as partes. Em muitas delas, podemos avistar simpáticas cegonhas aboletadas em seus ninhos, no alto das torres.




Todas as cidades encontram-se literalmente cercadas pelos vinhedos, que vêm até a borda das ruazinhas medievais.

Quanto às uvas, planta-se por lá muita gewürztraminer, muita pinot gris (a mesma pinot grigio dos italianos), uma curiosa pinot auxerrois e, acima de tudo, a rainha da Alsácia - a riesling, que ocupa quase 25 % de todo o território.

Ao longo da região, cerca de 40 vinhedos recebem a classificação de Grand Cru - ou seja, são considerados vinhedos especiais, produzindo vinhos de qualidade superior. É claro que, como em qualquer lugar do mundo, essa classificação por si não garante que o vinho a ser bebido será ótimo - é apenas uma indicação que se trata de um terroir com características diferenciadas.

De forma geral, não bebemos nada que nos tenha encantado - vinhos bons, sem dúvida, e capazes de harmonizações excelentes com os pratos da culinária local - mas nenhum que nos tenha arrancado suspiros emocionados ...

Uma dessas boas harmonizações (e que foi também surpreendente, para nós) aconteceu na bela cidade de Colmar, no restaurante chamado Le Caveau de St. Pierre. Comemos o famoso chucrute alsaciano, pratos enormes e de sabor acentuado, com até 8 tipos de carnes diferentes : porco, frango, linguiças, salsichas ... Para beber, elegemos um Riesling Grand Cru Saering Domaines Schlumberger 2010. Ao provar o vinho, ele nos pareceu adocicado demais - e duvidamos muito que ele realmente harmonizasse com comida tão - digamos - poderosa ...



Surpresa ! Foi uma combinação ótima, contrastando os sabores, e com a acidez do vinho realçando e valorizando a comida. Vale, como sempre, a velha regra : sempre que possível, combine a comida e os vinhos próprios da região. Afinal, eles vêm aprimorando essa harmonização há alguns séculos ...

Enfim - uma região linda, chegando a ser deslumbrante em alguns pontos específicos, abastecida com vinhos bons sem ser magníficos. Exatamente o oposto do que vimos / bebemos na Borgonha ...


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A complicada e deliciosa região da Borgonha

Nunca consegui entender muito bem a classificação oficial dos vinhos da Borgonha. Fui “obrigado” a viajar até lá para compreender melhor essa complicação toda (ah, quantos sacrifícios sou forçado a fazer para satisfazer a curiosidade de meus milhares de leitores …)

A Borgonha não é uma região especialmente bonita para ser visitada como turista – exceção feita à bela cidade de Beaune e à belíssima e riquíssima cidade de Dijon. A rota dos vinhedos propriamente dita não tem nada de especialmente bonita.

Já os vinhos … ah, os vinhos da Borgonha !! Só o fato de a gente ir rodando de carro pela estradinha e passando pelos mitológicos vinhedos e cidadezinhas (Montrachet, Nuits-Saint-Georges, Gevrey-Chambertin, Chassagne-Montrachet, Aloxe-Corton, Vosge-Romanée, Meursault …) já vale a viagem, para o pessoal que curte vinhos como Tereza e eu.

Mas, sim, a classificação !

Bem, a Borgonha é retalhada em alguns milhares de pequeninos vinhedos, que formam aquilo que os autores mais antigos (como o Saul Gavão) chamavam de mosaico borguinhão.

Os vinhos produzidos nesses vinhedos são classificados em quatro categorias :

  •        Os mais comuns são produzidos com as uvas plantadas nos vinhedos da planície – são os chamados genéricos, que trazem no rótulo apenas Bourgogne ou, no máximo, Bourgogne Pinot Noir. São bons vinhos, mas vinhos comuns – são os mais fáceis de serem encontrados por aqui, no Brasil, e não são muito caros.

  •        A seguir, vêm os vinhos mais típicos, ainda dos vinhedos da planície. Eles são chamados de village, e trazem no rótulo o nome da cidade onde estão localizados : Gevrey-Chambertin, Aloxe-Corton, Nuits-Saint-George, GivryPuligny-Montrachet, e assim por diante. Às vezes, os seus rótulos também trazem o nome de um vinhedo específico, abaixo do nome da village. Já são bons vinhos, e já são também vinhos um pouco mais caros.

  •        A terceira classificação abrange os vinhos produzidos a partir dos vinhedos que estão no início da encosta das colinas. Eles são chamados de 1er Cru, que é uma classificação superior, atribuída a um vinhedo específico. Na village de Gevrey-Chambertin, por exemplo, há 24 vinhedos que mereceram esta classificação. São vinhos, em geral, excelentes, e beeeeeem caros, ao redor de 50/60 euros. Mesmo por lá, na própria região, definitivamente não são vinhos pra todo dia …

  •        A quarta classificação – o top dos tops – inclui os vinhos provenientes dos vinhedos que estão mais no alto, no meio da encosta. Por receberem melhor insolação, e por conta do terreno, alguns desses vinhedos recebem a classificação máxima : são os Grand Crus. São os vinhos mitológicos, maravilhosos – e caríssimos ! Custam, em geral, acima de 100 euros, e podem chegar a 300, 400 euros facilmente. Imaginem o preço com que chegam ao Brasil ! Na village de Gevrey-Chambertin, apenas 14 vinhedos são considerados Grand Crus. Em toda a Borgonha, apenas cerca de 40 vinhedos merecem esta classificação.

Essa classificação se reproduz, mais ou menos, em cada uma das cerca de 20 cidadezinhas, ou villages que se estendem a partir de Dijon, em direção ao sul.  

Bom, isso foi o que eu consegui compreender. Não vou botar minha mão no fogo para garantir que esteja tudo certinho – correções de gente mais bem informada do que eu serão muitíssimo bem-vindas !


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ostradamus !!!

No final do ano passado, a BIP – a Busca Incansável do Prazer – nos levou até Florianópolis, para visitar nossos queridos amigos Ester e Alex. Estivemos por 4 dias conhecendo o sul da ilha, onde nunca havíamos estado antes. É uma região muito bonita, marcada fortemente pela memória dos açorianos – os portugueses do arquipélagos dos Açores que, no século XVIII, imigraram em massa para o Brasil e estabeleceram-se em Santa Catarina.

Tivemos por lá um ótimo almoço no Restaurante Ostradamus – sim, o nome é esse mesmo, num evidente trocadilho com o famoso profeta seiscentista francês e as ostras, que são o prato forte do restaurante e, por sinal, um dos grandes atrativos gastronômicos da ilha.

O Ostradamus fica em Ribeirão da Ilha, em sua parte sul. Comemos por lá ostras preparadas de diversas maneiras, todas deliciosas.

Para beber, escoltando nossas ostras fresquíssimas, elegemos – surpresa ! – vinho.

O sommelier da casa, muito gentil, atencioso e extremamente bem informado, nos levou para uma estimulante visita à bela adega subterrânea do restaurante.

Seguindo uma recomendação do próprio sommelier, demos início aos trabalhos com um espumante Viapiana 575 Brut, produzido em Flores da Cunha, Rio Grande do Sul, pela vinícola Viapiana.

Elaborado pelo tradicional método champenoise, com 80 % de Chardonnay e 20 % de Riesling Itálico, é um espumante fresco e de boa acidez. A passagem de 9 meses em barricas de carvalho francês adiciona-lhe um certo aroma de baunilha, e o vinho tem um final prolongado e agradável. O nome do vinho – o tal “575” – é o número de dias (cerca de 20 meses) em que ele passa em contato com a borra antes do final da vinificação.

Não chegou a nos maravilhar, mas não decepcionou, absolutamente.

Seguimos a refeição com outro vinho sugerido pelo sommelier : um Garzón Albariño 2015, produzido em Maldonado, Uruguai, com a tradicional uva espanhola. Aromas florais e cítricos, fresco e levemente mineral na boca, acompanhou bem a nova rodada de ostras.

Também não foi encantador, mas esteve longe de nos desapontar. Na verdade, Tereza e eu bebemos coisas bem superiores em uma recente visita ao “paysito” vizinho – falarei disso em um dos meus próximos posts.

Enfim, a destacar nesta nossa visita ao Restaurante Ostradamus : a boa comida, o local agradabilíssimo, e o excelente tratamento que recebemos por parte dos garçons, do maître e do sommelier. Ao final da refeição, depois de jogar fora muita conversa fiada sobre vinhos com a equipe, ainda fomos brindados com um belo fecho : umas tacinhas de vinho do Porto que nos foram oferecidas como cortesia …

No vou nem mencionar, por absolutamente desnecessário, a excelente companhia dos nossos queridíssimos amigos !


Este humilde blogueiro, Tereza, e nossos grandes amigos Ester e Alex -
parecemos todos bem chateados, não ?


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

De volta - e derrubando (meus) preconceitos !

E aqui estou eu, de volta, após alguns anos de pura preguiça ! Incentivado – ou, mais precisamente, “comandado” – por minha mulher, Tereza, estou reativando meu velho blog, que já me deu vários prazeres e algumas pequenas contrariedades …
E volto bastante mudado – felizmente, acho que estou conseguindo vencer, um a um, meus velhos preconceitos. Um destes preconceitos – conhecido por quem costumava ler este blog – sempre foi muito ativo e presente contra os vinhos tintos brasileiros. Sempre achei que a gente produz, no Brasil, excelentes espumantes, alguns brancos muito bons – e tintos sofríveis !
Pois saibam vocês que o que me motivou a retomar este blog foi exatamente a qualidade de alguns vinhos tintos brasileiros que andei provando por aí afora.
Tereza e eu continuamos viajando intensamente, dando andamento a nossa velha “missão”, a BIP – a Busca Incansável do Prazer. Neste final de ano, a BIP nos levou a Tijucas do Sul, no Paraná, a cerca de 40 km de Curitiba. Lá estivemos em um simpático hotel chamado, ainda mais simpaticamente, La Dolce Vita.
Lá pertinho, tivemos a chance – um tanto desconfiados – de visitar a Vinícola Araucária, na cidade de São José dos Pinhais. Pois é, estão produzindo vinhos tintos e brancos no Paraná, bem acima do famoso paralelo 30º, longe, portanto, das manjadas regiões vinícolas do extremo Sul do país.
Com uvas francesas e italianas plantadas em apenas 3 hectares (de solo argiloso e cheio de pedras), a Vinícola é bem nova : iniciou sua produção em 2008. Fomos guiados, na nossa visita, pelo sommelier Fábio, simpático, entusiasmado e profundamente interessado no seu trabalho. Ele nos conduziu em um passeio pelos vinhedos, onde pudemos ver – ainda nascentes – os belos cachos de chardonnay, de pinot noir, de viognier
E provamos os vinhos, obviamente !
O espumante Poty, produzido pelo método champenoise, nas versões Brut, Demi-Sec e Nature não chegou a nos empolgar muito.
Partimos então para os tintos, que consideramos sempre como o grande desafio – e nossa surpresa foi grande e muito, muito positiva.
Provamos o vinho de entrada da Vinícola – o Gralha Azul Cabernet Franc 2014, que nos agradou muito – até pela ousadia de produzir um varietal meio “raro” por estas bandas. Com breve passagem por madeira, o vinho se mostrou complexo, com aromas de frutas vermelhas e negras amadurecidas, e nuances de couro e especiarias. Na boca, um vinho equilibrado, com taninos macios.
Depois, entornamos um belo Angustifólia Cabernet Sauvignon 2010, com estágio de 18 meses em barricas novas de carvalho francês. Este vinho, bem mais estruturado que o primeiro, mostrava aromas complexos, uma boa acidez, e um final prolongado e marcante – e terminamos nossa experiência com o mesmo vinho, da safra de 2009, considerada especialíssima pelo nosso guia Fábio.Belo vinho, com as boas características do primeiro ainda mais acentuadas.



Enfim, uma grata e surpreendente experiência, capaz de derrubar até mesmo meus mais empedernidos preconceitos …
A Vinícola Araucária ainda produz vinhos de merlot e chardonnay – não provamos por lá, mas trouxemos algumas garrafinhas pra casa … Ah ! – e eles têm também um belo restaurante, o Gralha Azul, onde fizemos uma ótima refeição – evidentemente, harmonizada com os vinhos da casa …
Parabéns ao pessoal da Araucária !

Vista do restaurante, a partir do vinhedo 

Sala de degustação da Vinícola


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