sábado, 11 de fevereiro de 2012

O enófilo é antes de tudo um chato-de-galochas ...

Recebo um e-mail de um velho amigo (como provocação, eu suponho ...), com um texto onde o autor afirma que essa conversa toda de sommelier e de enófilo é pura frescura. Uma frase do texto diz que "a crítica de vinhos, com seu vocabulário pomposo e sofisticado sistema de notas de zero a cem, não é, em termos objetivos, muito mais do que uma fraude".

O autor afirma que, a partir de agora, vai classificar os vinhos que bebe apenas como Bom, Muito Bom e Fora de Série, considerando todo o resto palavrório vazio, puro marketing.

Será, mesmo ?

O sujeito que gosta de futebol certamente já comparou, na sua cabeça, Neymar com Messi. Bem, ele pode simplesmente classificar os jogadores de futebol como Ruins, Bons e Muito Bons. Neymar e Messi certamente serão classificados como Muito Bons - e fim de papo. Mas quem realmente gosta de futebol jamais vai abrir mão de comparar estilos, destacar a magia das firulas do Neymar, a eficiência mortal das arrancadas do Messi, a capacidade de um e de outro de chutar com os dois pés, ou de cabecear, ou de fazer lançamentos ... Será isso tudo "frescura" ?

O sujeito que gosta de cinema pode achar que Cidadão Kane é superior a Avatar, ou vice-versa. Claro : ele pode classificar os filmes como Chatos, Agradáveis e Excepcionais - e a conversa morre. Mas quem realmente gosta do tema não vai abrir mão de comparar a técnica de filmagem de um e de outro filme, o trabalho dos atores, o roteiro, a fotografia, a tecnologia empregada, a trilha sonora. Frescura ?

O sujeito que gosta de literatura , ao comparar um romance de Agatha Christie com um de Dostoeivsky, pode chegar à conclusão de que ambos são Bons, numa escala que inclui ainda Ruins e Maravilhosos. Mas há os que gostam do assunto de forma mais aprofundada - a esses, lhes encanta a chance de comparar o estilo dos dois escritores, checar a profundidade dos sentimentos expressos ou não expressos em um e em outro livro, a riqueza psicológica dos personagens, a criatividade (ou a repetição) nas fórmulas usadas nos diversos livros de cada autor, e assim por diante.

Música - você prefere Tom Jobim ou Michel Teló ? Será que basta classificar as músicas como Boas, Razoáveis, Insuportáveis , sendo todo o resto palavrório inútil ?

Numa palavra : é óbvio que existe um enorme contingente de público (seja para os vinhos, os livros, o cinema, o futebol, a música ou virtualmente para qualquer outro assunto) que se satisfaz com uma classificação simples e definitiva. Bom para eles.

Mas é claro que também existe um outro grande grupo de pessoas que gosta de fazer uma análise mais aprofundada do tema (seja ele qual for). Para essas pessoas, é importante (e divertido claro !) entender a razão mais profunda de porque é que este troço me agrada e este outro troço me aborrece, ou me agrada menos que o primeiro.

É evidente que este blog é escrito por um sujeito que se enquadra no segundo grupo de pessoas, e é escrito para pessoas desse mesmo grupo.

Nada contra quem não ama o tema o suficiente para querer aprofundar-se - mas, por favor, não venham me dizer que todo mundo do segundo grupo é sempre um chato, um farsante, que abusa de um jargão incompreensível.

Isso é nivelar por baixo qualquer discussão sobre qualquer tema, não acham ?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Peixe com banana-da-terra e vinho branco

Sexta-feira foi dia de novas experiências de harmonização aqui em casa.

O prato do jantar foi um espetacular badejo com banana-da-terra - coloco aqui uma fotinho, só pra dar água na boca do desavisado leitor :


Pois é, a Tereza estava em um dia inspirado !

O calor da noite de verão paulistana pedia uma bebida refrescante, gelada. Chegamos a considerar a hipótese de uma boa cervejinha, mas o velho desejo de beber vinho falou mais forte ...

Peixe, banana-da-terra, molho branco, noite de calor - claro, a pedida tinha que ser um vinho branco.

Optamos por um velho conhecido, um amigo leal que nunca nos desapontou : um Altos del Plata Chardonnay 2010, da belíssima vinícola Terrazas de Los Andes, que tivemos a oportunidade de visitar na nossa mais recente viagem a Mendoza (se quiser ler o que eu escrevi sobre essa visita clique aqui.)

E por que foi que escolhemos um chardonnay ? Bem, nossa intuição é de que a untuosidade natural do chardonnay argentino combinaria com o molho branco do badejo, e de que os aromas de fruta característicos dessa uva poderiam harmonizar com a banana-da-terra - pois foi exatamente isso o que aconteceu.

O vinho tem coloração amarelo bem clarinha, com leves reflexos verdeais. O arome é bem intenso e frutado, lembrando frutas tropicais (abacaxi, pêssego). A passagem por madeira deixa um toque característico, mas leve, não muito marcante. E o sabor é prolongado, com aquela mineralidade própria da chardonnay, que combina bem com o sabor do peixe.

Em suma, mais um daqueles jantares que ao final a gente está se sentindo feliz e relaxado, de bem com a vida e com os seres humanos em geral ...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Viva o Instituto Inhotim, em Brumadinho !

Instituto Inhotim - Galeria Adriana Varejão, que parece suspensa no ar
Às vezes, gosto de fazer neste blog um ou outro post que não tem nada a ver com o mundo dos vinhos. É uma forma de compartilhar o que vejo por aí com meu gigantesco universo de leitores (já são mais de 2, pelo que sei, sem contar a Tereza).

Então vamos lá. As tristes notícias sobre as enchentes em Minas Gerais, neste começo de ano, trouxeram às manchetes o nome da cidade de Brumadinho, ali perto de Belo Horizonte. Pelo que li nos jornais, Brumadinho chegou a ficar alguns dias totalmente isolada, já que as chuvas inundaram ou destruíram as estradas ao redor.

E eu me lembrei de que estive em Brumadinho no final do ano passado .. Em outubro de 2011, visitamos a cidade - minúscula, sem graça, na periferia de BH. Chega-se a ela por um caminho horrível, esburacado e cheio de curvas.

E o que há lá pra ver, afinal ? O que é que nós fomos fazer em local tão pouco atraente ?!?

Meus amigos, em Brumadinho fica aquele que é simplesmente o mais espetacular museu de arte contemporânea que eu já tive oportunidade de visitar (e olhe que não foram poucos os que já conheci por esse mundão afora ...)
De Lama Lâmina, do artista americano Matthew Barney

Estou falando do Instituto Inhotim. Trata-se de um parque de mais de 90 hectares, com um paisagismo maravilhoso, um verdadeiro jardim botânico que, só de palmeiras, tem mais de 1.400 espécies.  São parques e alamedas sem fim, ladeadas por uma vegetação riquíssima e muito bem cuidada. Ao longo de todos os caminhos, há carrinhos elétricos pilotados por funcionários que prontamente se oferecem para levar os turistas para onde eles desejarem, dentro do parque.

Espalhados pelo parque lindíssimo, há cerca de 500 obras de arte contemporâneas, de mais de 100 artistas. São nomes como Hélio Oiticica, Adriana Varejão, Doug Aitken, Matthew Barney, Tunga, Chris Burden. Se você colocar um desses nomes aí no seu Google vai encontrar coisas bem legais feitas por eles, espalhadas pelo mundo.
Beam Drop, do artista americano Chris Burden

Pois lá no Inhotim as obras estão maravilhosamente rodeadas pelo parque, e o impacto que elas causam na gente é difícil de ser explicado em palavras. Só indo lá pra ver. Pra ficar num lugar-comum bem manjado, vou dizer apenas isto : é de tirar o fôlego.

Ao lado de cada obra de arte, há sempre um ou mais estagiários, bem-informados e solícitos, prontos a darem explicações sobre a obra, o artista, o parque.

O museu foi criado por um empreendedor particular, o Bernardo Paz, um empresário de família riquíssima que gostava de colecionar obras de arte e, lá um belo dia, decidiu abrir sua magnífica coleção para a visitação pública.

Com toda a certeza, trata-se do mais espetacular museu do país, e seguramente, um dos mais espetaculares do mundo - e a gente mal fica sabendo que uma maravilha dessas está aqui no Brasil, disponível para todo mundo, por 20 reais o ingresso ...

Espero que as benditas enchentes do verão não tenham afetado nada por lá !

O Sonic Pavillion, de Doug Aitken - microfones a centenas de metros de
profundidade revelam o "som da terra"

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Na terra dos Faraós

Ah, meus amigos, não há nada melhor do que um bom jantar, numa noite de quinta-feira, em casa, acompanhado de um bom vinho egípcio ...

Vinho egípcio, eu disse ? Ora ! Mas, existe vinho egípcio ?!?

Pois é, existe, sim .. Eu também não conhecia. Meu caro amigo Gerson, que fez uma viagem maravilhosa pela África, de sul a norte, por quase dois meses, me trouxe de presente uma garrafa de ... vinho egípcio !

Confesso que eu jamais tinha ouvido falar de vinho egípcio. Este que bebi é um Château des Rêves Cabernet Sauvignon 2008. Segundo o contrarrótulo do produtor, o vinho leva também uma pequena proporção de uvas carignan e syrah.

Em tempo : gostaram do nome do vinho ? Château des Rêves - o Castelo dos Sonhos ! Bem, pelo menos pretensão não falta a esses egípcios ...

E que tal o vinho ? Muito fraco, infelizmente, muito fraco ... O visual é até bonito, com uma forte coloração rubi com reflexos violeta no líquido límpido e brilhante. Aroma, quase imperceptível : depois de uns 20 minutos de aberto, o vinho simplesmente não tinha aroma nenhum.

Na boca, a total falta de acidez caracterizava aquilo que alguns enófilos gostam de chamar de vinho chato, sem vida e sem graça. Permanência, zero ...

Em suma : fique com um bom argentino, chileno, ou mesmo um brasileiro. Mesmo eu, que não sou grande fã dos tintos brasileiros, lembro que semanas atrás tomei um Dal Pizzol Gamay Beaujolais 2007 muito superior a este.

Deixemos ao Egito sua história maravilhosa, seus monumentos de cair o queixo, seus museus fabulosos. Vinho ? Esqueça ...

Mas agradeço muitíssimo ao Gerson pela experiência que me proporcionou - onde mais eu poderia encontrar um vinho do Egito ?

A garrafa até que é bonitinha, convenhamos !

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Napoleão, Charles Dickens, Tereza e eu

Semana passada, recebemos em casa nossos queridos amigos Vânia e Gérson, vindos de Goiânia.

O Gérson acabou de fazer uma viagem maravilhosa : por quase dois meses, ele percorreu boa parte da África, sozinho, desde Johannesburgo (na África do Sul) até o Cairo (no Egito). Quase toda a viagem foi feita por terra, de trem, de ônibus, de barco. Quem se interessar, pode ler os seus relatos, igualmente maravilhosos, e escritos com muito humor e com rara capacidade de observação humana, no blog Tô na África !!

Pois bem - o Gérson nos trouxe de lá um desses vinhos que formam o universo de sonhos que todo enófilo alimenta no fundo do seu coração e de sua mente.

Estou me referindo ao Vin de Constance, um vinho doce produzido na região de Constance, ao sul da Cidade do Cabo. Esse vinho é produzido com uvas muscat de frontignan supermaduras, pela vinícola Klein Constantia. Um vinho idêntico era produzido na região  desde o final do século XVII - e era famoso por ter sido o vinho preferido de Napoleão Bonaparte. Um pouco mais tarde, o grande escritor inglês Charles Dickens também andou elogiando o tal vinho.

Pois bem, tenho que confessar a vocês que, além de Napoleão e Dickens, o Vin de Constance tem hoje em dia mais dois entusiastas : Tereza e eu ...


A embalagem já é cativante e convidativa, com a garrafinha de vidro escuro imitando as garrafas originais de séculos passados.

Provamos, embevecidos, o líquido de sedutora coloração dourada-âmbar, que recendia a abacaxi e amêndoas torradas, com toques de mel, tangerinas, mangas ...  Na boca, um vinho estruturado e potente, com boa acidez, e um final muito, mas muito prolongado.
Notem a coloração do vinho, e o charme da garrafa

Combinou muitíssimo bem com a torta de frutas que comemos de sobremesa - em um jantar onde ainda provamos um bom Bourgogne branco (Château de Dracy Chardonnay 2007) e um tinto também providenciado pelo Gérson (um Stellenzicht Golden Triangle Pinotage 2007).

Isso tudo, entremeado pelas histórias e causos vividos por ele entre África do Sul, Uganda, Moçambique, Tanzânia, Sudão, Etiópia, Zanzibar ...

Nós quatro (Napoleão, Dickens, Tereza e eu) ficaremos eternamente gratos à Vania e ao Gérson que nos proporcionaram esse prazer fantástico !

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Novas experiências com vinhos e comida japonesa

Esta semana, voltamos a jantar naquele que é hoje nosso restaurante preferido de comida japonesa em São Paulo : o Huto, em Moema.

No Huto, encontramos outra vez, como sempre, pratos deliciosos e criativos, longe da mesmice dos "restaurantes japoneses" e "temakerias" que aparecem em cada esquina da cidade, servidos em um ambiente extremamente agradável, supervisionado pela simpatia do Fábio - e tudo isso com preços honestos !

Vejam só as maravilhas que provamos por lá : berinjela japonesa (lentamente cozida, preservando a forma e desmanchando-se na boca quase como um creme), tempurá de palmito (envolvido em folhas de shissô e flor de sal), um delicioso ovo empanado com azeite de trufas, um tenro filé de merluza negra, sushis de polvo, atum, salmão ... Uma festa !

E para beber ? Bem, é claro que os fãs podem sempre pedir a carta de saquês e se divertir - mas Tereza e eu, como sabem os leitores deste blog, preferimos vinhos - mesmo que seja sempre uma tarefa arriscada harmonizar sabores tão variados.

A opção desta vez foi por um vinho bem diferente : um Pinots D'Alsace Domaine Bott-Geyl Métiss 2007. É um vinho orgânico produzido na Alsácia, no nordeste da França, e leva em sua composição uma mistura de uvas pinots (daí seu nome estranho) : são três uvas brancas (pinot blanc, pinot gris e pinot auxerrois) e uma uva tinta (pinot noir).


O vinho tem uma coloração amarela intensa e brilhante, aromas de mel e de flores, e na boca é frutado e bem equilibrado, com toques doces e ao mesmo tempo toques minerais. Um vinho delicioso, mas a harmonização não funcionou sempre, ao longo do jantar.

Casou muito bem com a berinjela e com os sushis onde a arte do sushiman (o simpático Tadashi) acrescentava uns toques adocicados. Também foi bem com a merluza negra - mas foi apenas OK para os sushis e os sashimis mais tradicionais.

Enfim, a experimentação, mais uma vez, valeu a pena.

O jantar, então, nem se fala - saímos de lá felizes e satisfeitos, programando a próxima volta.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Oba, oba ! Saiu a lista dos 100 melhores vinhos !!

Quem costuma ler estas mal-ajambradas linhas que eu rabisco aqui no blog sabe que eu não sou de levar muito a sério essas coisa de "listas oficiais" de melhores vinhos ...

Na melhor hipótese, a gente pode achar que essas listas são sempre baseadas em gostos e idiossincrasias pessoais, inteiramente subjetivos. Na pior hipótese, a gente pode desconfiar que haja muito marketing, muitos interesses envolvidos, etc.

O fato é que, mesmo não sendo consideradas como "a voz da verdade", algumas dessas listas são muito esperadas pelo mercado de vinhos internacional - já que elas podem alavancar ou abalar reputações e preços pelo mundo afora. E elas formam, bem ou mal, um corpo de referência para a gente consultar de vez em quando.

Nas últimas semanas, foi publicada uma dessas listas : é a lista dos 100 melhores vinhos do ano feita pela conceituada revista americana Wine Spectator. No mundo dos vinhos, as duas listas mais importantes que existem são, sem dúvida nenhuma, a do Robert Parker e a da Wine Spectator. Às vezes, nos catálogos das importadoras ou das lojas, a gente encontra aquelas letrinhas que informam que o vinho X ou Y teve "WS 95" - isto é, levou 95 pontos da Wine Spectator. Essa indicação, ao que parece, faz com que o vinho fique bem mais gostoso ... (pelo menos mais caro eu sei que fica).

Quem quiser consultar a lista toda pode clicar aqui. O site da Wine Spectator libera a emissão da lista em pdf para quem quiser.

Faço agora alguns comentários pessoais sobre a tal lista :


  • Chama a atenção o fato de que mais de 40 %  da lista é formada por vinhos americanos ... A maioria é da Califórnia, mas há também vinhos do Oregon, de New York, do Novo México. Isso parece indicar bem a preferência (ou será o preconceito ?) do pessoal que elabora a lista.
  • Há apenas dois (!!) vinhos franceses de Bordeaux, e eles ocupam o finzinho da lista, nas posições 94 e 95. E um deles é branco ... Definitivamente, os coleguinhas da WS não gostam muito dos famosos Bordeaux.
  • Além dos Estados Unidos, o Novo Mundo está representado por 2 australianos, 2 neo-zelandeses e 2 sul-africanos. Da América do Sul, há apenas 2 argentinos, e nenhum chileno.
  • A mim causa uma certa surpresa ter entrado na lista (por exemplo) um vinho grego e não ter entrado nenhum chileno (nem o meu preferido Don Melchor).
  • Também me surpreende que, entre os argentinos, tenha sido incluído o Catena Zapata Malbec, e não (de novo, por exemplo) o Cobos Malbec, que acho muito superior.
  • Finalmente, observem que faz parte da lista uma singela coluninha que indica o preço do vinho - em dólares e, evidentemente, no mercado americano. Saibam vocês que há apenas cinco vinhos com preço superior a 100 dólares. Na verdade, a média aritmética dos preços fia em menos de 45 dólares por garrafa. Se compararmos com os preços por aqui, a gente tem vontade de chorar ...
E aí ? Já beberam muitos da lista da Wine Spectator ? Planejam beber em breve ?
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