Feriadão de carnaval, não viajamos, nos dedicamos ao cinema (temporada de Oscar !) e aos vinhos, é claro ...
Tereza arriscou uma receita pra lá de audaciosa, tirada do site do chef - nada mais, nada menos - Claude Troigros. É mole ?
Tratava-se de um filé mignon assado envolto em folhas de acelga, que ficou muito bonitinho - vejam na foto a carne pronta para ir ao forno :
O filé foi escoltado por um molho chimichurri feito em casa, artesanalmente, passo a passo, e por um delicioso purê de batatas assadas com creme de leite.
Querem dar uma olhadinha no prato pronto ? Tá aqui, ó :
Bacana, né ? Bom de ver, melhor ainda de comer, acreditem !
E o vinho ? Bem, optamos por um Numina 2007, que estava na adega há alguns dias esperando um boa oportunidade. Este vinho é o top de linha da casa Salentein, de Mendoza, Argentina. É um corte interessante, formado por 85 % de malbec com 15 % de merlot. A combinação dessas uvas ficou ótima - a merlot entra com a estrutura, o corpo, uma certa agressividade tânica. E a malbec com sua inconfundível carga de fruta tão típica dos vinhos produzidos lá pelo nuestros hermanitos.
Li em algum lugar que o enólogo responsável pela Numina (Laureano Gómez) afirma que a merlot é o equivalente ao "esqueleto" do vinho, ao passo que a malbec comporia os músculos ...
O fato é que se trata de um grande vinho : coloração escura e profunda, aromas intensos de frutas vermelhas e de violetas mesclados com toques de tabaco e couro, taninos elegantes arredondados pelos 16 meses de barricas e uma permanência em boca bastante superior à média.
Combinou muito bem com a carne assada e o purê, e ficou um pouco prejudicado pelo chimichurri, de sabor muito acentuado.
De qualquer forma, um excelente vinho, que nós ainda não conhecíamos - e somos mais felizes hoje, que o conhecemos ...
Está sendo trazido pela Zahil, e custa alguma coisa ao redor de 100 reais.
Cheers !
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
A mais importante região vinícola do mundo
O poeta Carlos Drummond um dia escreveu : "É preciso fazer um poema sobre a Bahia ... Mas eu nunca fui lá."
Na minha opinião, Drummond é um dos três maiores poetas da língua portuguesa - mas isso não me impede, cara-de-pau que sou, de parafraseá-lo : "É preciso fazer um post sobre Bordeaux ... Mas eu nunca fui lá."
De fato nunca fui a Bordeaux (Tereza insiste para que eu escreva "ainda nunca fui a Bordeaux", o que é ótimo !), mas fiz algumas pesquisas sobre o tema e decidi escrever este post.
E porque é que "é preciso" escrevê-lo ? Por dois motivos.
O primeiro é que Bordeaux é simplesmente a mais conhecida e mais importante região vinícola do mundo, sem dúvida nenhuma.
O segundo é que dois casais de amigos meus, leitores habituais deste blog, vão visitar a região dentro de pouco tempo - a Michelle e o Ricardo, primeiro, e a Adriana e o Sebastian, mais tarde. Quem sabe este post pode ajudá-los na duríssima tarefa de decidir o que visitar por lá ?
A região de Bordeaux fica no sudoeste da França, e é cortada por dois rios famosos, o Garonne e o Dordogne, que se juntam no estuário da Gironde e desaguam no Atlântico. Os rios dividem Bordeaux em três regiões bem marcadas. A "margem esquerda" (a oeste do rio Garonne), a "margem direita" (a leste do rio Dordogne) e o triângulo entre os dois rios, chamada de Entre-Deux-Mers (que quer dizer "entre dois mares", embora não haja mar por lá e sim rios).
Tudo indica que o vinho começou a ser produzido por lá na época dos romanos, mas só há registros históricos a partir do século XII, quando Bordeaux esteve sob domínio inglês. Hoje, a região está dividida em 57 AOCs (Appellation d'Origine Contrôlée), e conta com mais de 10.000 produtores ... É, não vai dar pra conhecer todos eles, numa viagem, eu acho ...
O forte da região, como é óbvio, são os vinhos tintos, produzidos basicamente com 5 uvas : cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc, petit verdot e malbec (que eles às vezes chamam de cot). Também são produzidos alguns brancos secos, com uvas sémillon e sauvignon blanc. Ah, sim : produz-se por aqui ainda o mais espetacular vinho branco doce do mundo, o Sauternes.
A margem esquerda é o terroir por excelência da cabernet sauvignon, e ficam deste lado do Garonne algumas AOCs magníficas : Médoc, Haut-Médoc, St. Estèphe, Pauillac, Margaux, Pessac-Lèognan, Sauternes.
Grandes produtores por aqui são, apenas como exemplo, o Château Cos d'Estournel (St. Estèphe), os incomparáveis Château Lafite-Rothschild e Château Latour (Pauillac), o Château Margaux (Margaux) e o mitológico Château d'Yquem, que produz o Sauternes mais famoso (e mais caro !) do mundo.
A margem direita é o "império da merlot", com as AOCs St-Émilion, Pomerol, Lalande-de-Pomerol, entre outras. Grandes nomes desta região : Château Cheval Blanc (lembram do filme Sideways ? É aquele vinho que o Paul Giamatti bebe na lanchonete ...), Château Figeac, Château Lafleur, Château Pétrus.
A região de Entre-Deux-Mers é um pouco menos "atraente", do ponto de vista da qualidade dos vinhos - mas é a região que produz o maior volume em Bordeaux. A região é mais conhecida pela produção dos brancos secos.
Enfim, meus amigos que estão de partida para lá - vocês vão se divertir ...
Michelle e Ricardo, vocês que vão primeiro para Bordeaux - que tal descreverem pra gente, aqui no blog, o que viram / beberam / sentiram / curtiram por lá ? Fica aqui a sugestão ...
Na minha opinião, Drummond é um dos três maiores poetas da língua portuguesa - mas isso não me impede, cara-de-pau que sou, de parafraseá-lo : "É preciso fazer um post sobre Bordeaux ... Mas eu nunca fui lá."
De fato nunca fui a Bordeaux (Tereza insiste para que eu escreva "ainda nunca fui a Bordeaux", o que é ótimo !), mas fiz algumas pesquisas sobre o tema e decidi escrever este post.
E porque é que "é preciso" escrevê-lo ? Por dois motivos.
O primeiro é que Bordeaux é simplesmente a mais conhecida e mais importante região vinícola do mundo, sem dúvida nenhuma.
O segundo é que dois casais de amigos meus, leitores habituais deste blog, vão visitar a região dentro de pouco tempo - a Michelle e o Ricardo, primeiro, e a Adriana e o Sebastian, mais tarde. Quem sabe este post pode ajudá-los na duríssima tarefa de decidir o que visitar por lá ?
A região de Bordeaux fica no sudoeste da França, e é cortada por dois rios famosos, o Garonne e o Dordogne, que se juntam no estuário da Gironde e desaguam no Atlântico. Os rios dividem Bordeaux em três regiões bem marcadas. A "margem esquerda" (a oeste do rio Garonne), a "margem direita" (a leste do rio Dordogne) e o triângulo entre os dois rios, chamada de Entre-Deux-Mers (que quer dizer "entre dois mares", embora não haja mar por lá e sim rios).
Tudo indica que o vinho começou a ser produzido por lá na época dos romanos, mas só há registros históricos a partir do século XII, quando Bordeaux esteve sob domínio inglês. Hoje, a região está dividida em 57 AOCs (Appellation d'Origine Contrôlée), e conta com mais de 10.000 produtores ... É, não vai dar pra conhecer todos eles, numa viagem, eu acho ...
O forte da região, como é óbvio, são os vinhos tintos, produzidos basicamente com 5 uvas : cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc, petit verdot e malbec (que eles às vezes chamam de cot). Também são produzidos alguns brancos secos, com uvas sémillon e sauvignon blanc. Ah, sim : produz-se por aqui ainda o mais espetacular vinho branco doce do mundo, o Sauternes.
A margem esquerda é o terroir por excelência da cabernet sauvignon, e ficam deste lado do Garonne algumas AOCs magníficas : Médoc, Haut-Médoc, St. Estèphe, Pauillac, Margaux, Pessac-Lèognan, Sauternes.
Grandes produtores por aqui são, apenas como exemplo, o Château Cos d'Estournel (St. Estèphe), os incomparáveis Château Lafite-Rothschild e Château Latour (Pauillac), o Château Margaux (Margaux) e o mitológico Château d'Yquem, que produz o Sauternes mais famoso (e mais caro !) do mundo.
A margem direita é o "império da merlot", com as AOCs St-Émilion, Pomerol, Lalande-de-Pomerol, entre outras. Grandes nomes desta região : Château Cheval Blanc (lembram do filme Sideways ? É aquele vinho que o Paul Giamatti bebe na lanchonete ...), Château Figeac, Château Lafleur, Château Pétrus.
A região de Entre-Deux-Mers é um pouco menos "atraente", do ponto de vista da qualidade dos vinhos - mas é a região que produz o maior volume em Bordeaux. A região é mais conhecida pela produção dos brancos secos.
Enfim, meus amigos que estão de partida para lá - vocês vão se divertir ...
Michelle e Ricardo, vocês que vão primeiro para Bordeaux - que tal descreverem pra gente, aqui no blog, o que viram / beberam / sentiram / curtiram por lá ? Fica aqui a sugestão ...
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Chardonnay, chardonnay e chardonnay
Sábado tivemos um daqueles deliciosos jantares com nossos queridos amigos campineiros, a Cláudia e o Walther, nos quais a gente se dedica a provar novos vinhos ou a se deliciar de novo com "velhos amigos", vinhos que a gente já bebeu e fica com saudades ...
O jantar foi o famoso peixe com bananas da Tereza, que já entrou para o nosso cardápio definitivo - mas desta vez inovamos nas bebidas.
Isto é, inovamos em parte - decidimos que um bom vinho branco geladinho, de uvas chardonnay seria, sem dúvida, o melhor acompanhamento para o jantar, tanto por conta do casamento perfeito da untuosidade cremosa e ácida do chardonnay com o peixe e com as bananas, como por conta do calorão que tem assolado Sampa nas últimas semanas.
A inovação ficou por conta da experimentação com os vinhos - uma brincadeira que se mostrou deliciosa e extremamente didática.
Optamos por três tipos de chardonnay, que já sabíamos (pela literatura e por nossa própria experiência) bem diferentes entre si.
O primeiro foi um Fetzer Chardonnay 2009, um californiano que, surpreendentemente, não passa por madeira, ou passa apenas rapidamente, de forma que não se notam os aromas característicos do carvalho. É um vinho de bela coloração amarelo brilhante, com aromas de maçã e abacaxi, um toque amanteigado (virá de uma fermentação malolática ou da própria uva ? Confesso que não descobri ...). Na boca, pareceu um tantinho adocicado, mas preservava um bom frescor e acidez. Em suma, qualidades razoáveis para um vinho desse preço (cerca de 25 reais). Curioso é que a vinícola Fetzer, californiana, foi recentemente comprada pela chileníssima Concha y Toro.
A seguir, mudamos de latitudes e provamos um argentino, o Finca La Linda Chardonnay 2010, um típico mendoncino (produzido pela Luigi Bosca) que nos pareceu superior ao primeiro. Muito menos doce e com maior acidez, com aromas marcados de maçãs e pêras, e um leve toque de mel.
Terminamos com nova mudança de continente, e fomos agora ao rei dos chardonnay : um Chablis Louis Latour 2010, fresco e vibrante. O aroma do Chablis é um clássico entre os enófilos, já que reúne as características da fruta com a mineralidade do solo da região, que fica ao norte da Borgonha. O solo (que já foi o fundo de um mar) é formado por microscópicos fragmentos de conchas, que conferem ao Chablis um aroma único.
Conclusão - o Chablis foi o melhor vinho da noite, disparado - mas a melhor combinação com a comida talvez tenha sido dada pelo argentino.
Conclusão 2 (e mais significativa para nós) - não se pode, absolutamente, atribuir todas as características de um vinho apenas à uva com a qual ele foi produzido ... Eram três chardonnay, mas eram três vinhos completamente diferentes entre si. Nada, absolutamente nada, nos levaria a pensar que se tratava da mesma uva nos três vinhos, se a gente tivesse feito uma degustação às cegas ... Iríamos cair do cavalo ...
Fica, pois reafirmado o princípio dos três Gs que "compõem" o vinho - grape (a uva), ground (o terreno) e guy (a influência e a tecnologia adicionadas pelo homem).
O jantar foi o famoso peixe com bananas da Tereza, que já entrou para o nosso cardápio definitivo - mas desta vez inovamos nas bebidas.
Isto é, inovamos em parte - decidimos que um bom vinho branco geladinho, de uvas chardonnay seria, sem dúvida, o melhor acompanhamento para o jantar, tanto por conta do casamento perfeito da untuosidade cremosa e ácida do chardonnay com o peixe e com as bananas, como por conta do calorão que tem assolado Sampa nas últimas semanas.
A inovação ficou por conta da experimentação com os vinhos - uma brincadeira que se mostrou deliciosa e extremamente didática.
Optamos por três tipos de chardonnay, que já sabíamos (pela literatura e por nossa própria experiência) bem diferentes entre si.
O primeiro foi um Fetzer Chardonnay 2009, um californiano que, surpreendentemente, não passa por madeira, ou passa apenas rapidamente, de forma que não se notam os aromas característicos do carvalho. É um vinho de bela coloração amarelo brilhante, com aromas de maçã e abacaxi, um toque amanteigado (virá de uma fermentação malolática ou da própria uva ? Confesso que não descobri ...). Na boca, pareceu um tantinho adocicado, mas preservava um bom frescor e acidez. Em suma, qualidades razoáveis para um vinho desse preço (cerca de 25 reais). Curioso é que a vinícola Fetzer, californiana, foi recentemente comprada pela chileníssima Concha y Toro.
A seguir, mudamos de latitudes e provamos um argentino, o Finca La Linda Chardonnay 2010, um típico mendoncino (produzido pela Luigi Bosca) que nos pareceu superior ao primeiro. Muito menos doce e com maior acidez, com aromas marcados de maçãs e pêras, e um leve toque de mel.
Terminamos com nova mudança de continente, e fomos agora ao rei dos chardonnay : um Chablis Louis Latour 2010, fresco e vibrante. O aroma do Chablis é um clássico entre os enófilos, já que reúne as características da fruta com a mineralidade do solo da região, que fica ao norte da Borgonha. O solo (que já foi o fundo de um mar) é formado por microscópicos fragmentos de conchas, que conferem ao Chablis um aroma único.
Conclusão - o Chablis foi o melhor vinho da noite, disparado - mas a melhor combinação com a comida talvez tenha sido dada pelo argentino.
Conclusão 2 (e mais significativa para nós) - não se pode, absolutamente, atribuir todas as características de um vinho apenas à uva com a qual ele foi produzido ... Eram três chardonnay, mas eram três vinhos completamente diferentes entre si. Nada, absolutamente nada, nos levaria a pensar que se tratava da mesma uva nos três vinhos, se a gente tivesse feito uma degustação às cegas ... Iríamos cair do cavalo ...
Fica, pois reafirmado o princípio dos três Gs que "compõem" o vinho - grape (a uva), ground (o terreno) e guy (a influência e a tecnologia adicionadas pelo homem).
sábado, 11 de fevereiro de 2012
O enófilo é antes de tudo um chato-de-galochas ...
Recebo um e-mail de um velho amigo (como provocação, eu suponho ...), com um texto onde o autor afirma que essa conversa toda de sommelier e de enófilo é pura frescura. Uma frase do texto diz que "a crítica de vinhos, com seu vocabulário pomposo e sofisticado sistema de notas de zero a cem, não é, em termos objetivos, muito mais do que uma fraude".
O autor afirma que, a partir de agora, vai classificar os vinhos que bebe apenas como Bom, Muito Bom e Fora de Série, considerando todo o resto palavrório vazio, puro marketing.
Será, mesmo ?
O sujeito que gosta de futebol certamente já comparou, na sua cabeça, Neymar com Messi. Bem, ele pode simplesmente classificar os jogadores de futebol como Ruins, Bons e Muito Bons. Neymar e Messi certamente serão classificados como Muito Bons - e fim de papo. Mas quem realmente gosta de futebol jamais vai abrir mão de comparar estilos, destacar a magia das firulas do Neymar, a eficiência mortal das arrancadas do Messi, a capacidade de um e de outro de chutar com os dois pés, ou de cabecear, ou de fazer lançamentos ... Será isso tudo "frescura" ?
O sujeito que gosta de cinema pode achar que Cidadão Kane é superior a Avatar, ou vice-versa. Claro : ele pode classificar os filmes como Chatos, Agradáveis e Excepcionais - e a conversa morre. Mas quem realmente gosta do tema não vai abrir mão de comparar a técnica de filmagem de um e de outro filme, o trabalho dos atores, o roteiro, a fotografia, a tecnologia empregada, a trilha sonora. Frescura ?
O sujeito que gosta de literatura , ao comparar um romance de Agatha Christie com um de Dostoeivsky, pode chegar à conclusão de que ambos são Bons, numa escala que inclui ainda Ruins e Maravilhosos. Mas há os que gostam do assunto de forma mais aprofundada - a esses, lhes encanta a chance de comparar o estilo dos dois escritores, checar a profundidade dos sentimentos expressos ou não expressos em um e em outro livro, a riqueza psicológica dos personagens, a criatividade (ou a repetição) nas fórmulas usadas nos diversos livros de cada autor, e assim por diante.
Música - você prefere Tom Jobim ou Michel Teló ? Será que basta classificar as músicas como Boas, Razoáveis, Insuportáveis , sendo todo o resto palavrório inútil ?
Numa palavra : é óbvio que existe um enorme contingente de público (seja para os vinhos, os livros, o cinema, o futebol, a música ou virtualmente para qualquer outro assunto) que se satisfaz com uma classificação simples e definitiva. Bom para eles.
Mas é claro que também existe um outro grande grupo de pessoas que gosta de fazer uma análise mais aprofundada do tema (seja ele qual for). Para essas pessoas, é importante (e divertido claro !) entender a razão mais profunda de porque é que este troço me agrada e este outro troço me aborrece, ou me agrada menos que o primeiro.
É evidente que este blog é escrito por um sujeito que se enquadra no segundo grupo de pessoas, e é escrito para pessoas desse mesmo grupo.
Nada contra quem não ama o tema o suficiente para querer aprofundar-se - mas, por favor, não venham me dizer que todo mundo do segundo grupo é sempre um chato, um farsante, que abusa de um jargão incompreensível.
Isso é nivelar por baixo qualquer discussão sobre qualquer tema, não acham ?
O autor afirma que, a partir de agora, vai classificar os vinhos que bebe apenas como Bom, Muito Bom e Fora de Série, considerando todo o resto palavrório vazio, puro marketing.
Será, mesmo ?
O sujeito que gosta de futebol certamente já comparou, na sua cabeça, Neymar com Messi. Bem, ele pode simplesmente classificar os jogadores de futebol como Ruins, Bons e Muito Bons. Neymar e Messi certamente serão classificados como Muito Bons - e fim de papo. Mas quem realmente gosta de futebol jamais vai abrir mão de comparar estilos, destacar a magia das firulas do Neymar, a eficiência mortal das arrancadas do Messi, a capacidade de um e de outro de chutar com os dois pés, ou de cabecear, ou de fazer lançamentos ... Será isso tudo "frescura" ?
O sujeito que gosta de cinema pode achar que Cidadão Kane é superior a Avatar, ou vice-versa. Claro : ele pode classificar os filmes como Chatos, Agradáveis e Excepcionais - e a conversa morre. Mas quem realmente gosta do tema não vai abrir mão de comparar a técnica de filmagem de um e de outro filme, o trabalho dos atores, o roteiro, a fotografia, a tecnologia empregada, a trilha sonora. Frescura ?
O sujeito que gosta de literatura , ao comparar um romance de Agatha Christie com um de Dostoeivsky, pode chegar à conclusão de que ambos são Bons, numa escala que inclui ainda Ruins e Maravilhosos. Mas há os que gostam do assunto de forma mais aprofundada - a esses, lhes encanta a chance de comparar o estilo dos dois escritores, checar a profundidade dos sentimentos expressos ou não expressos em um e em outro livro, a riqueza psicológica dos personagens, a criatividade (ou a repetição) nas fórmulas usadas nos diversos livros de cada autor, e assim por diante.
Música - você prefere Tom Jobim ou Michel Teló ? Será que basta classificar as músicas como Boas, Razoáveis, Insuportáveis , sendo todo o resto palavrório inútil ?
Numa palavra : é óbvio que existe um enorme contingente de público (seja para os vinhos, os livros, o cinema, o futebol, a música ou virtualmente para qualquer outro assunto) que se satisfaz com uma classificação simples e definitiva. Bom para eles.
Mas é claro que também existe um outro grande grupo de pessoas que gosta de fazer uma análise mais aprofundada do tema (seja ele qual for). Para essas pessoas, é importante (e divertido claro !) entender a razão mais profunda de porque é que este troço me agrada e este outro troço me aborrece, ou me agrada menos que o primeiro.
É evidente que este blog é escrito por um sujeito que se enquadra no segundo grupo de pessoas, e é escrito para pessoas desse mesmo grupo.
Nada contra quem não ama o tema o suficiente para querer aprofundar-se - mas, por favor, não venham me dizer que todo mundo do segundo grupo é sempre um chato, um farsante, que abusa de um jargão incompreensível.
Isso é nivelar por baixo qualquer discussão sobre qualquer tema, não acham ?
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Peixe com banana-da-terra e vinho branco
Sexta-feira foi dia de novas experiências de harmonização aqui em casa.
O prato do jantar foi um espetacular badejo com banana-da-terra - coloco aqui uma fotinho, só pra dar água na boca do desavisado leitor :
Pois é, a Tereza estava em um dia inspirado !
O calor da noite de verão paulistana pedia uma bebida refrescante, gelada. Chegamos a considerar a hipótese de uma boa cervejinha, mas o velho desejo de beber vinho falou mais forte ...
Peixe, banana-da-terra, molho branco, noite de calor - claro, a pedida tinha que ser um vinho branco.
Optamos por um velho conhecido, um amigo leal que nunca nos desapontou : um Altos del Plata Chardonnay 2010, da belíssima vinícola Terrazas de Los Andes, que tivemos a oportunidade de visitar na nossa mais recente viagem a Mendoza (se quiser ler o que eu escrevi sobre essa visita clique aqui.)
E por que foi que escolhemos um chardonnay ? Bem, nossa intuição é de que a untuosidade natural do chardonnay argentino combinaria com o molho branco do badejo, e de que os aromas de fruta característicos dessa uva poderiam harmonizar com a banana-da-terra - pois foi exatamente isso o que aconteceu.
O vinho tem coloração amarelo bem clarinha, com leves reflexos verdeais. O arome é bem intenso e frutado, lembrando frutas tropicais (abacaxi, pêssego). A passagem por madeira deixa um toque característico, mas leve, não muito marcante. E o sabor é prolongado, com aquela mineralidade própria da chardonnay, que combina bem com o sabor do peixe.
Em suma, mais um daqueles jantares que ao final a gente está se sentindo feliz e relaxado, de bem com a vida e com os seres humanos em geral ...
O prato do jantar foi um espetacular badejo com banana-da-terra - coloco aqui uma fotinho, só pra dar água na boca do desavisado leitor :
Pois é, a Tereza estava em um dia inspirado !
O calor da noite de verão paulistana pedia uma bebida refrescante, gelada. Chegamos a considerar a hipótese de uma boa cervejinha, mas o velho desejo de beber vinho falou mais forte ...
Peixe, banana-da-terra, molho branco, noite de calor - claro, a pedida tinha que ser um vinho branco.
Optamos por um velho conhecido, um amigo leal que nunca nos desapontou : um Altos del Plata Chardonnay 2010, da belíssima vinícola Terrazas de Los Andes, que tivemos a oportunidade de visitar na nossa mais recente viagem a Mendoza (se quiser ler o que eu escrevi sobre essa visita clique aqui.)
E por que foi que escolhemos um chardonnay ? Bem, nossa intuição é de que a untuosidade natural do chardonnay argentino combinaria com o molho branco do badejo, e de que os aromas de fruta característicos dessa uva poderiam harmonizar com a banana-da-terra - pois foi exatamente isso o que aconteceu.
O vinho tem coloração amarelo bem clarinha, com leves reflexos verdeais. O arome é bem intenso e frutado, lembrando frutas tropicais (abacaxi, pêssego). A passagem por madeira deixa um toque característico, mas leve, não muito marcante. E o sabor é prolongado, com aquela mineralidade própria da chardonnay, que combina bem com o sabor do peixe.
Em suma, mais um daqueles jantares que ao final a gente está se sentindo feliz e relaxado, de bem com a vida e com os seres humanos em geral ...
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Viva o Instituto Inhotim, em Brumadinho !
| Instituto Inhotim - Galeria Adriana Varejão, que parece suspensa no ar |
Então vamos lá. As tristes notícias sobre as enchentes em Minas Gerais, neste começo de ano, trouxeram às manchetes o nome da cidade de Brumadinho, ali perto de Belo Horizonte. Pelo que li nos jornais, Brumadinho chegou a ficar alguns dias totalmente isolada, já que as chuvas inundaram ou destruíram as estradas ao redor.
E eu me lembrei de que estive em Brumadinho no final do ano passado .. Em outubro de 2011, visitamos a cidade - minúscula, sem graça, na periferia de BH. Chega-se a ela por um caminho horrível, esburacado e cheio de curvas.
E o que há lá pra ver, afinal ? O que é que nós fomos fazer em local tão pouco atraente ?!?
Meus amigos, em Brumadinho fica aquele que é simplesmente o mais espetacular museu de arte contemporânea que eu já tive oportunidade de visitar (e olhe que não foram poucos os que já conheci por esse mundão afora ...)
| De Lama Lâmina, do artista americano Matthew Barney |
Estou falando do Instituto Inhotim. Trata-se de um parque de mais de 90 hectares, com um paisagismo maravilhoso, um verdadeiro jardim botânico que, só de palmeiras, tem mais de 1.400 espécies. São parques e alamedas sem fim, ladeadas por uma vegetação riquíssima e muito bem cuidada. Ao longo de todos os caminhos, há carrinhos elétricos pilotados por funcionários que prontamente se oferecem para levar os turistas para onde eles desejarem, dentro do parque.
Espalhados pelo parque lindíssimo, há cerca de 500 obras de arte contemporâneas, de mais de 100 artistas. São nomes como Hélio Oiticica, Adriana Varejão, Doug Aitken, Matthew Barney, Tunga, Chris Burden. Se você colocar um desses nomes aí no seu Google vai encontrar coisas bem legais feitas por eles, espalhadas pelo mundo.
| Beam Drop, do artista americano Chris Burden |
Pois lá no Inhotim as obras estão maravilhosamente rodeadas pelo parque, e o impacto que elas causam na gente é difícil de ser explicado em palavras. Só indo lá pra ver. Pra ficar num lugar-comum bem manjado, vou dizer apenas isto : é de tirar o fôlego.
Ao lado de cada obra de arte, há sempre um ou mais estagiários, bem-informados e solícitos, prontos a darem explicações sobre a obra, o artista, o parque.
O museu foi criado por um empreendedor particular, o Bernardo Paz, um empresário de família riquíssima que gostava de colecionar obras de arte e, lá um belo dia, decidiu abrir sua magnífica coleção para a visitação pública.
Com toda a certeza, trata-se do mais espetacular museu do país, e seguramente, um dos mais espetaculares do mundo - e a gente mal fica sabendo que uma maravilha dessas está aqui no Brasil, disponível para todo mundo, por 20 reais o ingresso ...
Espero que as benditas enchentes do verão não tenham afetado nada por lá !
| O Sonic Pavillion, de Doug Aitken - microfones a centenas de metros de profundidade revelam o "som da terra" |
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Na terra dos Faraós
Ah, meus amigos, não há nada melhor do que um bom jantar, numa noite de quinta-feira, em casa, acompanhado de um bom vinho egípcio ...
Vinho egípcio, eu disse ? Ora ! Mas, existe vinho egípcio ?!?
Pois é, existe, sim .. Eu também não conhecia. Meu caro amigo Gerson, que fez uma viagem maravilhosa pela África, de sul a norte, por quase dois meses, me trouxe de presente uma garrafa de ... vinho egípcio !
Confesso que eu jamais tinha ouvido falar de vinho egípcio. Este que bebi é um Château des Rêves Cabernet Sauvignon 2008. Segundo o contrarrótulo do produtor, o vinho leva também uma pequena proporção de uvas carignan e syrah.
Em tempo : gostaram do nome do vinho ? Château des Rêves - o Castelo dos Sonhos ! Bem, pelo menos pretensão não falta a esses egípcios ...
E que tal o vinho ? Muito fraco, infelizmente, muito fraco ... O visual é até bonito, com uma forte coloração rubi com reflexos violeta no líquido límpido e brilhante. Aroma, quase imperceptível : depois de uns 20 minutos de aberto, o vinho simplesmente não tinha aroma nenhum.
Na boca, a total falta de acidez caracterizava aquilo que alguns enófilos gostam de chamar de vinho chato, sem vida e sem graça. Permanência, zero ...
Em suma : fique com um bom argentino, chileno, ou mesmo um brasileiro. Mesmo eu, que não sou grande fã dos tintos brasileiros, lembro que semanas atrás tomei um Dal Pizzol Gamay Beaujolais 2007 muito superior a este.
Deixemos ao Egito sua história maravilhosa, seus monumentos de cair o queixo, seus museus fabulosos. Vinho ? Esqueça ...
Mas agradeço muitíssimo ao Gerson pela experiência que me proporcionou - onde mais eu poderia encontrar um vinho do Egito ?
Vinho egípcio, eu disse ? Ora ! Mas, existe vinho egípcio ?!?
Pois é, existe, sim .. Eu também não conhecia. Meu caro amigo Gerson, que fez uma viagem maravilhosa pela África, de sul a norte, por quase dois meses, me trouxe de presente uma garrafa de ... vinho egípcio !
Confesso que eu jamais tinha ouvido falar de vinho egípcio. Este que bebi é um Château des Rêves Cabernet Sauvignon 2008. Segundo o contrarrótulo do produtor, o vinho leva também uma pequena proporção de uvas carignan e syrah.
Em tempo : gostaram do nome do vinho ? Château des Rêves - o Castelo dos Sonhos ! Bem, pelo menos pretensão não falta a esses egípcios ...
E que tal o vinho ? Muito fraco, infelizmente, muito fraco ... O visual é até bonito, com uma forte coloração rubi com reflexos violeta no líquido límpido e brilhante. Aroma, quase imperceptível : depois de uns 20 minutos de aberto, o vinho simplesmente não tinha aroma nenhum.
Na boca, a total falta de acidez caracterizava aquilo que alguns enófilos gostam de chamar de vinho chato, sem vida e sem graça. Permanência, zero ...
Em suma : fique com um bom argentino, chileno, ou mesmo um brasileiro. Mesmo eu, que não sou grande fã dos tintos brasileiros, lembro que semanas atrás tomei um Dal Pizzol Gamay Beaujolais 2007 muito superior a este.
Deixemos ao Egito sua história maravilhosa, seus monumentos de cair o queixo, seus museus fabulosos. Vinho ? Esqueça ...
Mas agradeço muitíssimo ao Gerson pela experiência que me proporcionou - onde mais eu poderia encontrar um vinho do Egito ?
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| A garrafa até que é bonitinha, convenhamos ! |
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