segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Maldita filoxera !

Você sabia que os vinhos europeus quase deixaram de existir, na metade do século XIX ?

Pois é, por muito pouco, muito pouco mesmo, a gente hoje em dia não poderia conhecer essas coisas deliciosas da Toscana, da Borgonha, da Rioja, de Tokaj ... Só poderíamos conhecê-los através dos livros de História !

O que aconteceu é que praticamente todos os vinhedos europeus - França, Espanha, Portugal, Itália - foram atacados, a partir de 1860, pela tal da filoxera - um insetinho minúsculo que simplesmente seca as raízes da videira, matando a planta rapidamente. Não se sabe com muita certeza, mas parece que o tal insetinho migrou da América do Norte para a Europa, nas raízes das uvas americanas não-viníferas que eram importadas pelos europeus.

O pandemônio foi tremendo. Em cerca de 15 anos, mais de 40 % dos vinhedos franceses estavam destruídos. A praga já se espalhara pelo restante da Europa, e não se conhecia nenhuma forma de deter os seus avanços. Parece mentira - mas realmente correu-se um risco enorme de que os vinhedos simplesmente desaparecessem para sempre ...

Finalmente, um grupo de biólogos franceses conseguiu descobrir que o tal insetinho era o responsável - mas faltava ainda saber como detê-lo. Os produtos químicos e os pesticidas comuns não matavam a bandidinha ...

Curiosamente, a solução veio do mesmo lugar de onde havia vindo o problema - as uvas não-viníferas americanas, que pareciam - e eram ! - imunes à praga.

Os produtores começaram a enxertar suas vinhas tradicionais nas raízes das uvas americanas - e bingo ! A filoxera já não atacava os vinhedos.

Até hoje, em grande parte dos vinhedos do mundo todo as nossas adoradas uvinhas viníferas (cabernet, malbec, sangiovese, merlot, chardonnay, etc.) são plantadas desse jeito, enxertadas em raízes de uvas não-viníferas. O processo não afeta a uva - a raiz funciona apenas como o "canal" por onde a planta vai se alimentar dos seus nutrientes presentes no solo.

Apenas em alguns poucos lugares (vinhedos do Chile e da Nova Zelândia, por exemplo) a filoxera nunca atacou. Nesses lugares, ainda hoje se utiliza o sistema que é chamado de "pé franco" - ou seja, as vinhas são plantadas em suas próprias raízes, sem precisar de enxertos.

Pessoalmente, acho que o mundo seria bem mais sem graça se a filoxera tivesse vencido e a gente hoje só pudesse tentar adivinhar o sabor de um Chianti, de um Sauternes, de um Chablis ...

2 comentários:

Alexandre Carneiro disse...

Olá Nivaldo. Parabéns pelo seu blog. Esse tema da filoxera já me chamara a atenção anteriormente. Ao ler o teu texto, não posso me furtar de indicar um livro que trata do assunto. É o "Hijo de la Filoxera", escrito pelo espanhol Gonzalo Gomez de Alcantara. O livro nos remete ao século XIX, quando a importação de cepas norte americanas espalhou pela Europa a praga da Filoxera. Mostra a luta dos franceses contra a praga e como se desenvolveu a produção de vinho de Rioja-Espanha.
Para quem gosta do tema fica a dica. Ainda sem tradução para o português, a leitura é extremamente envolvente e o assunto muito bem abordado. Pelo blog pode se ter uma idéia do que estou dizendo: http://elhijodelafiloxera.blogspot.com
Abraço, Alexandre.

Nivaldo Sanches disse...

Olá, Alexandre, obrigado pelos comentários !

Belíssima dica, não conheço o livro, mas vou certamente procurá-lo. Muito obrigado !

Araços, e "apareça" mais vezes !