sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A complicada e deliciosa região da Borgonha

Nunca consegui entender muito bem a classificação oficial dos vinhos da Borgonha. Fui “obrigado” a viajar até lá para compreender melhor essa complicação toda (ah, quantos sacrifícios sou forçado a fazer para satisfazer a curiosidade de meus milhares de leitores …)

A Borgonha não é uma região especialmente bonita para ser visitada como turista – exceção feita à bela cidade de Beaune e à belíssima e riquíssima cidade de Dijon. A rota dos vinhedos propriamente dita não tem nada de especialmente bonita.

Já os vinhos … ah, os vinhos da Borgonha !! Só o fato de a gente ir rodando de carro pela estradinha e passando pelos mitológicos vinhedos e cidadezinhas (Montrachet, Nuits-Saint-Georges, Gevrey-Chambertin, Chassagne-Montrachet, Aloxe-Corton, Vosge-Romanée, Meursault …) já vale a viagem, para o pessoal que curte vinhos como Tereza e eu.

Mas, sim, a classificação !

Bem, a Borgonha é retalhada em alguns milhares de pequeninos vinhedos, que formam aquilo que os autores mais antigos (como o Saul Gavão) chamavam de mosaico borguinhão.

Os vinhos produzidos nesses vinhedos são classificados em quatro categorias :

  •        Os mais comuns são produzidos com as uvas plantadas nos vinhedos da planície – são os chamados genéricos, que trazem no rótulo apenas Bourgogne ou, no máximo, Bourgogne Pinot Noir. São bons vinhos, mas vinhos comuns – são os mais fáceis de serem encontrados por aqui, no Brasil, e não são muito caros.

  •        A seguir, vêm os vinhos mais típicos, ainda dos vinhedos da planície. Eles são chamados de village, e trazem no rótulo o nome da cidade onde estão localizados : Gevrey-Chambertin, Aloxe-Corton, Nuits-Saint-George, GivryPuligny-Montrachet, e assim por diante. Às vezes, os seus rótulos também trazem o nome de um vinhedo específico, abaixo do nome da village. Já são bons vinhos, e já são também vinhos um pouco mais caros.

  •        A terceira classificação abrange os vinhos produzidos a partir dos vinhedos que estão no início da encosta das colinas. Eles são chamados de 1er Cru, que é uma classificação superior, atribuída a um vinhedo específico. Na village de Gevrey-Chambertin, por exemplo, há 24 vinhedos que mereceram esta classificação. São vinhos, em geral, excelentes, e beeeeeem caros, ao redor de 50/60 euros. Mesmo por lá, na própria região, definitivamente não são vinhos pra todo dia …

  •        A quarta classificação – o top dos tops – inclui os vinhos provenientes dos vinhedos que estão mais no alto, no meio da encosta. Por receberem melhor insolação, e por conta do terreno, alguns desses vinhedos recebem a classificação máxima : são os Grand Crus. São os vinhos mitológicos, maravilhosos – e caríssimos ! Custam, em geral, acima de 100 euros, e podem chegar a 300, 400 euros facilmente. Imaginem o preço com que chegam ao Brasil ! Na village de Gevrey-Chambertin, apenas 14 vinhedos são considerados Grand Crus. Em toda a Borgonha, apenas cerca de 40 vinhedos merecem esta classificação.

Essa classificação se reproduz, mais ou menos, em cada uma das cerca de 20 cidadezinhas, ou villages que se estendem a partir de Dijon, em direção ao sul.  

Bom, isso foi o que eu consegui compreender. Não vou botar minha mão no fogo para garantir que esteja tudo certinho – correções de gente mais bem informada do que eu serão muitíssimo bem-vindas !


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ostradamus !!!

No final do ano passado, a BIP – a Busca Incansável do Prazer – nos levou até Florianópolis, para visitar nossos queridos amigos Ester e Alex. Estivemos por 4 dias conhecendo o sul da ilha, onde nunca havíamos estado antes. É uma região muito bonita, marcada fortemente pela memória dos açorianos – os portugueses do arquipélagos dos Açores que, no século XVIII, imigraram em massa para o Brasil e estabeleceram-se em Santa Catarina.

Tivemos por lá um ótimo almoço no Restaurante Ostradamus – sim, o nome é esse mesmo, num evidente trocadilho com o famoso profeta seiscentista francês e as ostras, que são o prato forte do restaurante e, por sinal, um dos grandes atrativos gastronômicos da ilha.

O Ostradamus fica em Ribeirão da Ilha, em sua parte sul. Comemos por lá ostras preparadas de diversas maneiras, todas deliciosas.

Para beber, escoltando nossas ostras fresquíssimas, elegemos – surpresa ! – vinho.

O sommelier da casa, muito gentil, atencioso e extremamente bem informado, nos levou para uma estimulante visita à bela adega subterrânea do restaurante.

Seguindo uma recomendação do próprio sommelier, demos início aos trabalhos com um espumante Viapiana 575 Brut, produzido em Flores da Cunha, Rio Grande do Sul, pela vinícola Viapiana.

Elaborado pelo tradicional método champenoise, com 80 % de Chardonnay e 20 % de Riesling Itálico, é um espumante fresco e de boa acidez. A passagem de 9 meses em barricas de carvalho francês adiciona-lhe um certo aroma de baunilha, e o vinho tem um final prolongado e agradável. O nome do vinho – o tal “575” – é o número de dias (cerca de 20 meses) em que ele passa em contato com a borra antes do final da vinificação.

Não chegou a nos maravilhar, mas não decepcionou, absolutamente.

Seguimos a refeição com outro vinho sugerido pelo sommelier : um Garzón Albariño 2015, produzido em Maldonado, Uruguai, com a tradicional uva espanhola. Aromas florais e cítricos, fresco e levemente mineral na boca, acompanhou bem a nova rodada de ostras.

Também não foi encantador, mas esteve longe de nos desapontar. Na verdade, Tereza e eu bebemos coisas bem superiores em uma recente visita ao “paysito” vizinho – falarei disso em um dos meus próximos posts.

Enfim, a destacar nesta nossa visita ao Restaurante Ostradamus : a boa comida, o local agradabilíssimo, e o excelente tratamento que recebemos por parte dos garçons, do maître e do sommelier. Ao final da refeição, depois de jogar fora muita conversa fiada sobre vinhos com a equipe, ainda fomos brindados com um belo fecho : umas tacinhas de vinho do Porto que nos foram oferecidas como cortesia …

No vou nem mencionar, por absolutamente desnecessário, a excelente companhia dos nossos queridíssimos amigos !


Este humilde blogueiro, Tereza, e nossos grandes amigos Ester e Alex -
parecemos todos bem chateados, não ?


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

De volta - e derrubando (meus) preconceitos !

E aqui estou eu, de volta, após alguns anos de pura preguiça ! Incentivado – ou, mais precisamente, “comandado” – por minha mulher, Tereza, estou reativando meu velho blog, que já me deu vários prazeres e algumas pequenas contrariedades …
E volto bastante mudado – felizmente, acho que estou conseguindo vencer, um a um, meus velhos preconceitos. Um destes preconceitos – conhecido por quem costumava ler este blog – sempre foi muito ativo e presente contra os vinhos tintos brasileiros. Sempre achei que a gente produz, no Brasil, excelentes espumantes, alguns brancos muito bons – e tintos sofríveis !
Pois saibam vocês que o que me motivou a retomar este blog foi exatamente a qualidade de alguns vinhos tintos brasileiros que andei provando por aí afora.
Tereza e eu continuamos viajando intensamente, dando andamento a nossa velha “missão”, a BIP – a Busca Incansável do Prazer. Neste final de ano, a BIP nos levou a Tijucas do Sul, no Paraná, a cerca de 40 km de Curitiba. Lá estivemos em um simpático hotel chamado, ainda mais simpaticamente, La Dolce Vita.
Lá pertinho, tivemos a chance – um tanto desconfiados – de visitar a Vinícola Araucária, na cidade de São José dos Pinhais. Pois é, estão produzindo vinhos tintos e brancos no Paraná, bem acima do famoso paralelo 30º, longe, portanto, das manjadas regiões vinícolas do extremo Sul do país.
Com uvas francesas e italianas plantadas em apenas 3 hectares (de solo argiloso e cheio de pedras), a Vinícola é bem nova : iniciou sua produção em 2008. Fomos guiados, na nossa visita, pelo sommelier Fábio, simpático, entusiasmado e profundamente interessado no seu trabalho. Ele nos conduziu em um passeio pelos vinhedos, onde pudemos ver – ainda nascentes – os belos cachos de chardonnay, de pinot noir, de viognier
E provamos os vinhos, obviamente !
O espumante Poty, produzido pelo método champenoise, nas versões Brut, Demi-Sec e Nature não chegou a nos empolgar muito.
Partimos então para os tintos, que consideramos sempre como o grande desafio – e nossa surpresa foi grande e muito, muito positiva.
Provamos o vinho de entrada da Vinícola – o Gralha Azul Cabernet Franc 2014, que nos agradou muito – até pela ousadia de produzir um varietal meio “raro” por estas bandas. Com breve passagem por madeira, o vinho se mostrou complexo, com aromas de frutas vermelhas e negras amadurecidas, e nuances de couro e especiarias. Na boca, um vinho equilibrado, com taninos macios.
Depois, entornamos um belo Angustifólia Cabernet Sauvignon 2010, com estágio de 18 meses em barricas novas de carvalho francês. Este vinho, bem mais estruturado que o primeiro, mostrava aromas complexos, uma boa acidez, e um final prolongado e marcante – e terminamos nossa experiência com o mesmo vinho, da safra de 2009, considerada especialíssima pelo nosso guia Fábio.Belo vinho, com as boas características do primeiro ainda mais acentuadas.



Enfim, uma grata e surpreendente experiência, capaz de derrubar até mesmo meus mais empedernidos preconceitos …
A Vinícola Araucária ainda produz vinhos de merlot e chardonnay – não provamos por lá, mas trouxemos algumas garrafinhas pra casa … Ah ! – e eles têm também um belo restaurante, o Gralha Azul, onde fizemos uma ótima refeição – evidentemente, harmonizada com os vinhos da casa …
Parabéns ao pessoal da Araucária !

Vista do restaurante, a partir do vinhedo 

Sala de degustação da Vinícola


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Ainda sobre o Chianti ...


Meu querido amigo Geraldo Mallozzi, apoiador deste blog desde as primeiras linhas, me pergunta, em email à parte, qual é o significado do selinho com um galo negro que a gente às vezes encontra nas garrafas de Chianti - ótima pergunta, que me dá a possibilidade de falar um pouquinho mais sobre este delicioso vinho da Toscana !

Os italianos criaram, em algumas regiões, as associações de produtores de vinhos que eles chamam de consorzio. Existem consorzi dos produtores de Chianti, de Brunello di Montalcino, de Soave, de Vino Nobile de Montepulciano, e assim por diante. O papel desses consorzi é zelar pela qualidade e pelas regras de produção desses vinhos - naturalmente, os italianos fazem isso com um olho no marketing, já que "garantir a qualidade" dos seus vinhos equivale sempre a garantir os preços altos ...

O interessante é que, em alguns casos, as regras de produção estipuladas pelos consorzi são mais rígidas e mais estritas do que aquelas definidas pelos órgãos governamentais. Ou seja - o vinho que traz o selo do consorzio tem uma garantia de qualidade um pouco superior àquela dos vinhos que não têm o tal selo. Claro que só faz parte do consorzio o produtor que deseja fazê-lo - em tese, ele vai ter mais dificuldades e mais regras para produzir o seu vinho, e em troca, pode cobrar mais caro por isso.

Os produtores do nosso Chianti Classico têm um desses consorzi : é o Consorzio del Vino Chianti Classio Gallo Nero. Como foi dito, os vinhos que ostentam esse selinho que está lá no alto dessa página, em tese, são vinhos que foram produzidos segundo regras bastante restritivas - há, portanto, uma expectativa de que a qualidade deles seja superior aos demais (e os preços também, é evidente ...)

E qual a razão de ter sido escolhido o tal do galinho negro como símbolo do consorzio ? Bem, como tudo na Itália, há uma lenda que explica essa escolha. Segundo a lenda, a região de produção do Chianti era disputada, na Idade Média, pelas poderosas cidades de Florença e de Siena. As disputas entre as duas cidades eram sangrentas - pois, lá um belo dia, elas resolveram decidir a questão. Cada uma das cidades elegeu um de seus mais afamados cavaleiros. Os dois deveriam partir, cada um de sua cidade, numa manhã bem cedinho - ao cantar do galo. O ponto em que os dois cavaleiros se encontrassem seria considerado oficialmente como a divisa ente os dois territórios.

O pessoal de Siena escolheu um galo para cantar logo cedo - um galo branco, forte e bonito, muito bem alimentado. A esperança é que um galo assim, tão portentoso, cantaria muito alto, sua voz logo seria ouvida pelo atento cavaleiro, que poderia sair mais cedo da cama e cavalgar por mais tempo.

O pessoal de Florença, muito malandro, foi na direção oposta - escolheu um galo preto e velho, fraquinho, e ainda por cima não lhe deram comida ... O coitadinho, faminto, cantou muito antes do outro, de pura fome - e o valoroso cavaleiro florentino saiu mais cedo e ganhou mais terreno na terra do Chianti ...

Bacana, né ? Verdade ou lenda - não vem ao caso, é claro. O fato é que o Gallo Nero virou o grande símbolo da terra do Chianti. Nos anos 90, quando o consorzio do Chianti foi formado, ninguém tinha dúvidas sobre qual seria o símbolo adotado.

Em tempo - a região do Chianti é uma das regiões mais lindas do mundo, com suas colinas e ciprestes, suas incontáveis vinícolas e suas adoráveis cidades medievais - Florença, Siena, Pienza, Radha, Gaiole, Castellina ...

Ah, que saudades !! Quase me vêm lágrimas à boca ...


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Chianti - o eterno vinho italiano

Depois de algumas semanas sem postar nada - andei extremamente ocupado com o trabalho, sinto muito ! - aqui estou de volta aos posts ... Não digo que estou de volta aos vinhos, pois destes não me afastei um só dia ...

Em homenagem a minha amiga Evelyn, autora do blog Taças e Rolhas, que acaba de voltar de uma bela viagem pela Itália, decidi escrever um pouco sobre o Chianti - esse é, para mim, o verdadeiro símbolo enológico da Itália.

Claro, claro, a Itália produz dezenas de outros vinhos icônicos, que poderiam perfeitamente representar o país : dos Barolo e Barbaresco ao norte, até os Primitivo e Nero d'Avola ao sul, sem mencionar os maravilhosos Brunello di Montalcino da Toscana ...

Mas o Chianti é o Chianti ... Produzido na Toscana, no centro da Bota, na região que fica próxima à encantadora cidade de Florença, com predomínio absoluto da uva sangiovese, o Chianti, no meu imaginário particular, representa o vinho italiano por excelência.

E há vários tipos :


  • o Chianti Classico DOCG - o melhor de todos - deve ser produzido com ao menos 75 % de uva sangiovese, complementada com pequenas quantidades de canaiolo e das brancas trebbiano e malvasia. Sua região demarcada é um pequeno círculo ao redor de Florença, que abrange as pequenas - e maravilhosas ! - cidades de Radda, Gaiole, Castellina, Greve, San Casciano ... 
  • o Chianti, produzido com as mesmas uvas, mas fora da zona Classica, e que responde sozinho por mais de dois terços da produção total.
  • e alguns outros, menos conhecidos, mas que não devem de forma alguma ser ignorados : o Colli Aretini, o Colli Senesi, o Colli Fiorentini, o Rùfina, o Montalbano ... São todos produzidos com o mesmo corte de uvas - o que os diferencia é a região produtora.


Um passeio maravilhoso é permanecer alguns dias na região da Toscana, flanando entre uma e outra dessas cidadezinhas (as distâncias entre elas são de 15, 20 km no máximo), cercados pelas colinas e pelos ciprestes - e provando cada um desses rótulos, descobrindo (ou não descobrindo ...) as diferenças entre eles, as nuances de aromas e de sabores, as harmonizações com a comida deliciosa da região.

No capítulo da harmonização :  nada me tira da cabeça que o casamento entre vinhos da uva sangiovese e molho de tomate é simplesmente a mais perfeita das harmonizações que se pode fazer entre vinho e comida.

Para nós, paulistanos, o Chianti tem uma imagem particular : os fiascos, aquelas garrafinhas envoltas em palha que a gente encontrava (ainda encontra ?) pendurada dos tetos das inúmeras cantinas do bairro do Bexiga - os mais velhos vão lembrar com certeza dessas garrafas, em restaurantes como o Roperto, o Gigetto, o Giovanni Bruno, o Orvietto, o Montecchiaro. Não eram grandes Chianti - longe disso ! - mas estou certo que nossa memória afetiva preserva ainda hoje essa imagem.

Há na Toscana grandes produtores de Chianti : Castello di Brolio Ricasoli, Fonterutoli, Isole & Olena, Fontodi ...

Escolha um rótulo na loja mais próxima, faça um spaghetti com molho de tomates (pode botar uma linguicinha, se for do seu agrado) e depois me conte se não é isso o que os deuses comem e bebem, lá no Olimpo !

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ainda o tema dos preconceitos - uvas e países

Tempos atrás, escrevi por aqui que os preconceitos, em matéria de vinhos, são sempre perigosos - isso para não mencionar o mundo real, fora do terreno dos vinhos (certo, Marcos Feliciano ?!?) ...

Muito bem, vamos nos restringir aos preconceitos do mundo dos vinhos, para que a conversa não vá longe demais ...

Estou me referindo, é claro, aos meus próprios preconceitos. Querem ver dois exemplos ? Eu costumo ser muito crítico com relação aos vinhos tintos brasileiros (embora tenha sempre elogiado nossos brancos e - principalmente - nossos espumantes), e costumo não curtir muito os vinhos da uva tannat.

Muito bem. Sábado estivemos em Campinas, em mais um jantar delicioso na casa dos nossos queridos amigos Cláudia e Walther.

O Walther havia nos preparado uma surpresa - ou um desafio. Nos deu a provar um vinho às cegas, sem permitir que a gente visse o rótulo do que estávamos bebendo. É mais do que sabido que esse tipo de degustação às cegas é um ótimo remédio contra preconceitos de todo tipo, neste mundo dos vinhos.

O tal vinho tinha uma coloração profunda, densa, escura. Quase não tinha halo aquoso - o halo era cor de rubi, o que parecia indicar um vinho ainda jovem. A lágrima, na parede da taça, parecia indicar um vinho de teor alcoólico elevado.

Aroma intenso, onde se destacava com muita força a madeira, sobrepondo-se e praticamente mascarando a fruta. Ao fundo, um certo aroma de fumo ou couro - certamente, também emprestado pelo carvalho.

Na boca, um vinho redondo e macio, com a fruta agora mais presente, e taninos muito vivos. Um pouco ásperos, mas foram amaciando sensivelmente à medida em que o tempo passava sobre a garrafa aberta. Talvez, uma certa lembrança de café - e uma boa permanência, acima da média.

Achei que estava bebendo um cabernet sauvignon chileno, muito amadeirado, com bastante álcool e jovem. Errei quase tudo ...

Na verdade era um X Decima Gemina Gran Reserva Tannat 2005, produzido em Caxias do Sul, pela mais do que veterana casa Piagentini. Esta vinícola, tradicionalíssima e muito conhecida por seus populares vinhos de garrafão, possui esta linha Premium, que costuma ser muito elogiada pela crítica - e que eu ainda não tinha tido a chance de provar.



Acertei no teor alcoólico elevado (13,9 %), e acertei na madeira (24 meses). Errei feio a uva, a procedência e a idade do vinho ... Essas degustações às cegas acabam com meu ego !

Interessante é notar que, apesar de ser um 2005, o vinho claramente ainda apresentava um potencial de guarda bastante alto, com sua coloração profunda e seu halo aquoso quase inexistente.

Taí, gostei bastante ! Tinto brasileiro, de tannat, e eu gostei bastante - preconceito não tem vez, mesmo, né ?

O nome do vinho, Decima Gemina, remete a uma legião romana - a "décima legião gêmea" - que Julio César usou na conquista da Gália, lá por volta das primeiras décadas do século I.

Fica aqui a recomendação, aos preconceituosos como eu - esqueçam os preconceitos !!


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Mais uma tentativa de harmonizar vinho com moqueca

E vamos nós, Tereza e eu, mais uma vez, dar vazão a esse nosso irresistível instinto científico : qual o vinho que harmoniza bem com moqueca de peixe à baiana ?

A moqueca, todo mundo conhece - bom peixe fresco, cebolas, tomates, pimentões, azeite de dendê, leite de coco, coentro ... Dá água na boca, só de escrever sobre isso : a gente quase chega a sentir os aromas !

Há quem diga - e não sem razão - que uma cervejinha gelada talvez seja a melhor combinação para escoltar uma moqueca. Mas - ai de nós ! - a gente vive querendo beber vinho ... O negócio é ir tentando ...

Na verdade, já fizemos boas harmonizações com vinhos brancos da uva chardonnay (é o que a boa literatura sobre vinhos recomenda). Também já tentamos umas coisas que não deram muito certo - torrontés, riesling, gewürztraminer.

Mas a ciência não pode parar ! Vamos nós, como se fossemos Pierre e Marie Curie redivivos, prosseguir em nossos experimentos em prol dos conhecimentos !

Optamos, desta vez, por um vinho bem diferente : um riesling, sim, mas um riesling australiano. Foi o The Dry Dam Riesling d'Arenberg 2011. O d'Arenberg é um produtor australiano de mais de cem anos, que tem duas marcas registradas : os nomes engraçadinhos de seus vinhos, e as tentativas (bem-sucedidas, ao meu ver) de produzir na Austrália, no Vale do McLaren, vinhos típicos da França. Já comentei aqui no blog um dos meus preferidos de lá, o The Stump Jump. Se você ficou curioso, leia aqui.

The Dry Dam tem esse nome pelo fato de, segundo o produtor, as primeiras vinhas terem sido plantadas ao lado de um açude que jamais se encheu de água - ou seja, um dry dam.

O vinho tem um aroma floral marcante, com notas cítricas. De coloração muito clara, com leves reflexos amarelados, na boca ele se apresentou intenso e marcante - um vinho original, pra dizer o mínimo. Assim que a garrafa foi aberta, os sabores e aromas minerais sobressaíam. Depois de algum tempo, esses aromas mais duros amaciaram, e predominância eram os florais. Interessante como, ao longo da noite, ele foi se modificando : no final do jantar, ele estava quase doce, parecendo um vinho de sobremesa ... Muito curioso !

E harmonizou com a moqueca ? Bem, a gente chegou a conclusão de que estava apenas razoável ... O melhor momento foi mesmo quando os aromas florais se sobrepunham, mas deixando perceber, lá no fundo, aquela coisa mineral - um troço a que alguns autores se referem como "pedra-de-isqueiro". A combinação e o bom equilíbrio entre esses dois extremos ajudou a harmonização com a moqueca - que, a propósito, estava deliciosa !

Enfim, parece que a harmonização perfeita da moqueca é mesmo com os velhos e bons chardonnay ... ou você prefere a sua com uma cervejinha ?