quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Ainda sobre o Chianti ...


Meu querido amigo Geraldo Mallozzi, apoiador deste blog desde as primeiras linhas, me pergunta, em email à parte, qual é o significado do selinho com um galo negro que a gente às vezes encontra nas garrafas de Chianti - ótima pergunta, que me dá a possibilidade de falar um pouquinho mais sobre este delicioso vinho da Toscana !

Os italianos criaram, em algumas regiões, as associações de produtores de vinhos que eles chamam de consorzio. Existem consorzi dos produtores de Chianti, de Brunello di Montalcino, de Soave, de Vino Nobile de Montepulciano, e assim por diante. O papel desses consorzi é zelar pela qualidade e pelas regras de produção desses vinhos - naturalmente, os italianos fazem isso com um olho no marketing, já que "garantir a qualidade" dos seus vinhos equivale sempre a garantir os preços altos ...

O interessante é que, em alguns casos, as regras de produção estipuladas pelos consorzi são mais rígidas e mais estritas do que aquelas definidas pelos órgãos governamentais. Ou seja - o vinho que traz o selo do consorzio tem uma garantia de qualidade um pouco superior àquela dos vinhos que não têm o tal selo. Claro que só faz parte do consorzio o produtor que deseja fazê-lo - em tese, ele vai ter mais dificuldades e mais regras para produzir o seu vinho, e em troca, pode cobrar mais caro por isso.

Os produtores do nosso Chianti Classico têm um desses consorzi : é o Consorzio del Vino Chianti Classio Gallo Nero. Como foi dito, os vinhos que ostentam esse selinho que está lá no alto dessa página, em tese, são vinhos que foram produzidos segundo regras bastante restritivas - há, portanto, uma expectativa de que a qualidade deles seja superior aos demais (e os preços também, é evidente ...)

E qual a razão de ter sido escolhido o tal do galinho negro como símbolo do consorzio ? Bem, como tudo na Itália, há uma lenda que explica essa escolha. Segundo a lenda, a região de produção do Chianti era disputada, na Idade Média, pelas poderosas cidades de Florença e de Siena. As disputas entre as duas cidades eram sangrentas - pois, lá um belo dia, elas resolveram decidir a questão. Cada uma das cidades elegeu um de seus mais afamados cavaleiros. Os dois deveriam partir, cada um de sua cidade, numa manhã bem cedinho - ao cantar do galo. O ponto em que os dois cavaleiros se encontrassem seria considerado oficialmente como a divisa ente os dois territórios.

O pessoal de Siena escolheu um galo para cantar logo cedo - um galo branco, forte e bonito, muito bem alimentado. A esperança é que um galo assim, tão portentoso, cantaria muito alto, sua voz logo seria ouvida pelo atento cavaleiro, que poderia sair mais cedo da cama e cavalgar por mais tempo.

O pessoal de Florença, muito malandro, foi na direção oposta - escolheu um galo preto e velho, fraquinho, e ainda por cima não lhe deram comida ... O coitadinho, faminto, cantou muito antes do outro, de pura fome - e o valoroso cavaleiro florentino saiu mais cedo e ganhou mais terreno na terra do Chianti ...

Bacana, né ? Verdade ou lenda - não vem ao caso, é claro. O fato é que o Gallo Nero virou o grande símbolo da terra do Chianti. Nos anos 90, quando o consorzio do Chianti foi formado, ninguém tinha dúvidas sobre qual seria o símbolo adotado.

Em tempo - a região do Chianti é uma das regiões mais lindas do mundo, com suas colinas e ciprestes, suas incontáveis vinícolas e suas adoráveis cidades medievais - Florença, Siena, Pienza, Radha, Gaiole, Castellina ...

Ah, que saudades !! Quase me vêm lágrimas à boca ...


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Chianti - o eterno vinho italiano

Depois de algumas semanas sem postar nada - andei extremamente ocupado com o trabalho, sinto muito ! - aqui estou de volta aos posts ... Não digo que estou de volta aos vinhos, pois destes não me afastei um só dia ...

Em homenagem a minha amiga Evelyn, autora do blog Taças e Rolhas, que acaba de voltar de uma bela viagem pela Itália, decidi escrever um pouco sobre o Chianti - esse é, para mim, o verdadeiro símbolo enológico da Itália.

Claro, claro, a Itália produz dezenas de outros vinhos icônicos, que poderiam perfeitamente representar o país : dos Barolo e Barbaresco ao norte, até os Primitivo e Nero d'Avola ao sul, sem mencionar os maravilhosos Brunello di Montalcino da Toscana ...

Mas o Chianti é o Chianti ... Produzido na Toscana, no centro da Bota, na região que fica próxima à encantadora cidade de Florença, com predomínio absoluto da uva sangiovese, o Chianti, no meu imaginário particular, representa o vinho italiano por excelência.

E há vários tipos :


  • o Chianti Classico DOCG - o melhor de todos - deve ser produzido com ao menos 75 % de uva sangiovese, complementada com pequenas quantidades de canaiolo e das brancas trebbiano e malvasia. Sua região demarcada é um pequeno círculo ao redor de Florença, que abrange as pequenas - e maravilhosas ! - cidades de Radda, Gaiole, Castellina, Greve, San Casciano ... 
  • o Chianti, produzido com as mesmas uvas, mas fora da zona Classica, e que responde sozinho por mais de dois terços da produção total.
  • e alguns outros, menos conhecidos, mas que não devem de forma alguma ser ignorados : o Colli Aretini, o Colli Senesi, o Colli Fiorentini, o Rùfina, o Montalbano ... São todos produzidos com o mesmo corte de uvas - o que os diferencia é a região produtora.


Um passeio maravilhoso é permanecer alguns dias na região da Toscana, flanando entre uma e outra dessas cidadezinhas (as distâncias entre elas são de 15, 20 km no máximo), cercados pelas colinas e pelos ciprestes - e provando cada um desses rótulos, descobrindo (ou não descobrindo ...) as diferenças entre eles, as nuances de aromas e de sabores, as harmonizações com a comida deliciosa da região.

No capítulo da harmonização :  nada me tira da cabeça que o casamento entre vinhos da uva sangiovese e molho de tomate é simplesmente a mais perfeita das harmonizações que se pode fazer entre vinho e comida.

Para nós, paulistanos, o Chianti tem uma imagem particular : os fiascos, aquelas garrafinhas envoltas em palha que a gente encontrava (ainda encontra ?) pendurada dos tetos das inúmeras cantinas do bairro do Bexiga - os mais velhos vão lembrar com certeza dessas garrafas, em restaurantes como o Roperto, o Gigetto, o Giovanni Bruno, o Orvietto, o Montecchiaro. Não eram grandes Chianti - longe disso ! - mas estou certo que nossa memória afetiva preserva ainda hoje essa imagem.

Há na Toscana grandes produtores de Chianti : Castello di Brolio Ricasoli, Fonterutoli, Isole & Olena, Fontodi ...

Escolha um rótulo na loja mais próxima, faça um spaghetti com molho de tomates (pode botar uma linguicinha, se for do seu agrado) e depois me conte se não é isso o que os deuses comem e bebem, lá no Olimpo !

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ainda o tema dos preconceitos - uvas e países

Tempos atrás, escrevi por aqui que os preconceitos, em matéria de vinhos, são sempre perigosos - isso para não mencionar o mundo real, fora do terreno dos vinhos (certo, Marcos Feliciano ?!?) ...

Muito bem, vamos nos restringir aos preconceitos do mundo dos vinhos, para que a conversa não vá longe demais ...

Estou me referindo, é claro, aos meus próprios preconceitos. Querem ver dois exemplos ? Eu costumo ser muito crítico com relação aos vinhos tintos brasileiros (embora tenha sempre elogiado nossos brancos e - principalmente - nossos espumantes), e costumo não curtir muito os vinhos da uva tannat.

Muito bem. Sábado estivemos em Campinas, em mais um jantar delicioso na casa dos nossos queridos amigos Cláudia e Walther.

O Walther havia nos preparado uma surpresa - ou um desafio. Nos deu a provar um vinho às cegas, sem permitir que a gente visse o rótulo do que estávamos bebendo. É mais do que sabido que esse tipo de degustação às cegas é um ótimo remédio contra preconceitos de todo tipo, neste mundo dos vinhos.

O tal vinho tinha uma coloração profunda, densa, escura. Quase não tinha halo aquoso - o halo era cor de rubi, o que parecia indicar um vinho ainda jovem. A lágrima, na parede da taça, parecia indicar um vinho de teor alcoólico elevado.

Aroma intenso, onde se destacava com muita força a madeira, sobrepondo-se e praticamente mascarando a fruta. Ao fundo, um certo aroma de fumo ou couro - certamente, também emprestado pelo carvalho.

Na boca, um vinho redondo e macio, com a fruta agora mais presente, e taninos muito vivos. Um pouco ásperos, mas foram amaciando sensivelmente à medida em que o tempo passava sobre a garrafa aberta. Talvez, uma certa lembrança de café - e uma boa permanência, acima da média.

Achei que estava bebendo um cabernet sauvignon chileno, muito amadeirado, com bastante álcool e jovem. Errei quase tudo ...

Na verdade era um X Decima Gemina Gran Reserva Tannat 2005, produzido em Caxias do Sul, pela mais do que veterana casa Piagentini. Esta vinícola, tradicionalíssima e muito conhecida por seus populares vinhos de garrafão, possui esta linha Premium, que costuma ser muito elogiada pela crítica - e que eu ainda não tinha tido a chance de provar.



Acertei no teor alcoólico elevado (13,9 %), e acertei na madeira (24 meses). Errei feio a uva, a procedência e a idade do vinho ... Essas degustações às cegas acabam com meu ego !

Interessante é notar que, apesar de ser um 2005, o vinho claramente ainda apresentava um potencial de guarda bastante alto, com sua coloração profunda e seu halo aquoso quase inexistente.

Taí, gostei bastante ! Tinto brasileiro, de tannat, e eu gostei bastante - preconceito não tem vez, mesmo, né ?

O nome do vinho, Decima Gemina, remete a uma legião romana - a "décima legião gêmea" - que Julio César usou na conquista da Gália, lá por volta das primeiras décadas do século I.

Fica aqui a recomendação, aos preconceituosos como eu - esqueçam os preconceitos !!


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Mais uma tentativa de harmonizar vinho com moqueca

E vamos nós, Tereza e eu, mais uma vez, dar vazão a esse nosso irresistível instinto científico : qual o vinho que harmoniza bem com moqueca de peixe à baiana ?

A moqueca, todo mundo conhece - bom peixe fresco, cebolas, tomates, pimentões, azeite de dendê, leite de coco, coentro ... Dá água na boca, só de escrever sobre isso : a gente quase chega a sentir os aromas !

Há quem diga - e não sem razão - que uma cervejinha gelada talvez seja a melhor combinação para escoltar uma moqueca. Mas - ai de nós ! - a gente vive querendo beber vinho ... O negócio é ir tentando ...

Na verdade, já fizemos boas harmonizações com vinhos brancos da uva chardonnay (é o que a boa literatura sobre vinhos recomenda). Também já tentamos umas coisas que não deram muito certo - torrontés, riesling, gewürztraminer.

Mas a ciência não pode parar ! Vamos nós, como se fossemos Pierre e Marie Curie redivivos, prosseguir em nossos experimentos em prol dos conhecimentos !

Optamos, desta vez, por um vinho bem diferente : um riesling, sim, mas um riesling australiano. Foi o The Dry Dam Riesling d'Arenberg 2011. O d'Arenberg é um produtor australiano de mais de cem anos, que tem duas marcas registradas : os nomes engraçadinhos de seus vinhos, e as tentativas (bem-sucedidas, ao meu ver) de produzir na Austrália, no Vale do McLaren, vinhos típicos da França. Já comentei aqui no blog um dos meus preferidos de lá, o The Stump Jump. Se você ficou curioso, leia aqui.

The Dry Dam tem esse nome pelo fato de, segundo o produtor, as primeiras vinhas terem sido plantadas ao lado de um açude que jamais se encheu de água - ou seja, um dry dam.

O vinho tem um aroma floral marcante, com notas cítricas. De coloração muito clara, com leves reflexos amarelados, na boca ele se apresentou intenso e marcante - um vinho original, pra dizer o mínimo. Assim que a garrafa foi aberta, os sabores e aromas minerais sobressaíam. Depois de algum tempo, esses aromas mais duros amaciaram, e predominância eram os florais. Interessante como, ao longo da noite, ele foi se modificando : no final do jantar, ele estava quase doce, parecendo um vinho de sobremesa ... Muito curioso !

E harmonizou com a moqueca ? Bem, a gente chegou a conclusão de que estava apenas razoável ... O melhor momento foi mesmo quando os aromas florais se sobrepunham, mas deixando perceber, lá no fundo, aquela coisa mineral - um troço a que alguns autores se referem como "pedra-de-isqueiro". A combinação e o bom equilíbrio entre esses dois extremos ajudou a harmonização com a moqueca - que, a propósito, estava deliciosa !

Enfim, parece que a harmonização perfeita da moqueca é mesmo com os velhos e bons chardonnay ... ou você prefere a sua com uma cervejinha ?

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Nova visita ao La Madrileña, em Pinheiros

Depois de um longo e tenebroso inverno em que estive distante deste nosso blog, volto a publicar aqui as coisas que ando bebendo e pensando por este mundo dos vinhos. Retomo a ideia inicial de ter ao menos dois posts por semana - vamos ver se consigo !

Semana passada, uma revisita pra lá de prazerosa : voltamos ao La Madrileña, simpaticíssimo restaurante ou bar de tapas sobre o qual já andei escrevendo aqui no blog, tempos atrás. Se quiser lembrar o que foi que escrevi, leia esse post clicando aqui.

No La Madrileña, que fica em Pinheiros, a gente é recebido pelos sempre gentis e simpáticos donos : o Edson e o Emerson. É sempre difícil lembrar qual deles é o Edson e qual o Emerson - mas acho que eles não fazem muita questão disso, não ...

O local, que é pequeno e aconchegante, sofreu recentemente uma reforma e abriga agora, no andar de cima, um número um pouco maior de mesas. Outra enorme mudança : o bar agora importa diretamente de produtores espanhóis boa parte dos vinhos que serve por lá. É uma oportunidade de provar vinhos da Espanha um pouquinho diferentes dos habituais do mercado - e vamos e venhamos, uma das delícias desse mundo do vinho é exatamente a possibilidade de estar sempre provando coisas novas, certo ?

As tapas continuam excelentes : uma tortilla deliciosa, crocante por fora e úmida por dentro; o salmorejo, uma espécie de gazpacho um pouco mais espesso, otimamente temperado; e um ótimo sarten de pobre - como descrever este prato ? Batatas e cebolas cozidas, misturadas a carne moída muito bem temperada, e com um ovo frito por cima - dá pra ter uma ideia, né ? Há também um sarten de rico que não chegamos a provar, com camarões substituindo a carne moída.

Evidentemente, bebemos vinhos espanhóis. Demos início aos trabalhos com um Rioja diferentão : o Artuke Maceración Carbónica 2010, com a tradicional cepa riojana tempranillo cortada com a cepa graciano - segundo o Edson, a graciano acrescenta gracia à tempranillo, tornando o vinho mais leve e mais frutado. O detalhe é a tal da maceração carbônica, não muito comum na Rioja. É aquele processo em que a fermentação tem início em uma cuba fechada, e o próprio gás carbônico que vai sendo liberado pelas reações químicas da fermentação pressiona e vai esmagando os bagos da fruta.

É um processo muito usado pelos famosos Beaujolais Nouveaux, e o vinho obtido costuma ser muito frutado, praticamente sem taninos, com coloração leve, para sere degustado jovem.

O Artuke não nos seduziu muito, mas correspondia muito bem a essa descrição clássica dos produtos da maceração carbônica.

Depois, começamos a conversar mais sério - e entornamos um Artuke Crianza 2009, com o mesmo corte de tempranillo e graciano, mas com passagem por madeira. Um Rioja mais tradicional, com taninos sensíveis e boa acidez. No nariz, a presença marcante da fruta (contribuição da graciano, talvez?) mas também traços vindos da madeira : couro, baunilha, chocolate.


Fechamos a noite com outro vinho que nunca havíamos provado : o Rey Santo Dulce 2010, de Rueda, um vinho de sobremesa produzido com a tradicional cepa branca verdejo colhida tardiamente. Um vinho doce, mas com marcante acidez e um toque de mineralidade que o faz bem diferente dos cosecha tardia com os quais a gente está acostumado aqui na América do Sul.


Ou seja : local agradável, serviço gentil e amistoso, comida deliciosa, vinhos inesperados - e preços camaradas.

Bacana, não acha ?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Portugal também produz bons vinhos brancos


Sim, sim, voltei da minha viagem a Portugal convencido de que isso é verdade - embora sejam bem menos conhecidos e famosos do que os tintos (que realmente são superiores), os vinhos brancos de Portugal não são nada desprezíveis - ao contrário ... E nem sequer estou me referindo aos famosos vinhos verdes do norte do país.

Especialmente na maravilhosa região do Douro, os lusitanos andam produzindo algumas coisas bastante interessantes nessa área. As uvas, como sempre, têm aqueles nomes peculiares : arinto, gouveia, viosinho, rabigato, donzelinho ...

Pois bem : ontem à noite, Tereza atacou de novo no fogão, e saiu-se com um ótimo risotto, feito com ervilhas, peras secas, palmito, queijo gorgonzola e, já no prato, um leve toque de aceto balsâmico.

Para beber, abrimos precisamente um branco português lá do Douro : o eleito foi um Vinha Grande Branco Ferreirinha 2010. A Casa Ferreirinha, como é sabido, deve esse nome à célebre Dona Antonia Ferreira, a Ferreirinha, que foi a improvável magnata dos vinhos do Douro no século XVIII - mas a vinícola hoje pertence à Sogrape, a maior produtora do país.


O vinho estava ótimo - no nariz, aromas florais e de frutas, mas quase sem toque cítrico : lembrava mais peras ou - principalmente -  melões, e uma leve nuance mineral. Na boca, ótima acidez, equilibrado e razoavelmente encorpado, com um final bem longo.

Harmonizou muitíssimo bem com o risotto -  o toque adocicado das peras secas combinava com os aromas / sabores de melão do vinho, e a acidez contrabalançava a presença do gorgonzola. Por fim, acho que uma certa untuosidade combinava bem com o creme de ervilhas que fazia a base do risotto.

Fica aí a sugestão - se você gosta de brancos, deixe um pouquinho de lado a mesmice dos chardonnay e sauvignon blanc e prove um português, pra variar - depois me conte o que achou !

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um parque de diversões para quem gosta de vinho


A definição aí do título foi dada pela Tereza, e me pareceu perfeita !

Para comemorar meu aniversário, visitamos um novo bar em São Paulo, chamado Bardega - o slogan deles explica o nome esquisito : é uma adega que virou bar ...

A razão para o nome e para o slogan : o bar dispõe de doze máquinas Enomatic - aquelas maquininhas engenhosas que preservam até 8 garrafas de vinho abertas, e que servem de forma automatizada doses de 30, 60 ou de 120 ml do vinho selecionado. Você insere na máquina um cartãozinho com chip, seleciona o vinho e o tamanho da dose, e o preço é lançado no cartão. No final da noite, paga-se tudo de uma vez.

Além das maquininhas, o Bardega tem também uma boa e bem abastecida adega, mas a brincadeira legal é mesmo servir-se diretamente nas Enomatic. E isso, por duas razões : a primeira é que você pode, numa só noite, provar diversos vinhos, comparar sabores e aromas, avaliar as vantagens e desvantagens deste vinho sobre aquele outro, e assim por diante. A segunda vantagem, evidentemente, é que você pode se dar ao luxo de provar (ao menos provar ...) alguns daqueles vinhos icônicos, que permeiam as fantasias de todos os apreciadores, e que costumam ficar muito longe das possibilidades dos bolsos de gente como nós, pobres mortais comuns, que não somos capazes de desembolsar cifras de 4 dígitos numa garrafinha de vinho ...

Daí a boa sacada da Tereza : o Bardega é precisamente isso - um parque de diversões para gente que gosta de vinhos.

Não seria possível, em outro lugar, provar, numa mesma noite, coisas como :

  • Château Teissier Saint-Emillion Grand Cru 2007, de Bordeaux
  • Crozes Hermitage Allain Graillot 2008, das Côtes du Rhône
  • Château Cesseras Minervois - La Livinière 2006, do Languedoc-Roussillon
  • Château de La Gardine Châteneuf-du-Pape 2008, também Côtes du Rhône
  • Amarone della Valpolicella Speri 2007, do Veneto
  • Brunello di Montalcino Plan delle Vigne 2007, do Antinori, na Toscana
Tudo em pequenas doses (em geral, elegíamos as doses de 60 ml, selecionávamos uma para cada um de nós dois, e ficávamos - é claro ! - bicando na taça do outro).

Para fechar este pantagruélico festival, elegemos a chave de ouro : o Château d'Yquem Lur Saluces 1997, o mitológico vinho produzido em Sauternes, na região de Bordeaux, com as famosas uvas botrytizadas - isto é, uvas atacadas por um fungo, Botrytis Cinerea, que perfura a casca da uva, a faz perder água e, portanto, concentra o seu teor de açúcar.


O preço desse vinho é quase tão mitológico quanto sua qualidade - pagamos 140 reais por uma dose de 60 ml, que repartimos avaramente entre nós dois. 

Dois amigos, também blogueiros, tinham cantado essa bola para nós e falado maravilhas do vinho - a Evelyn Fligeri, do blog Taças e Rolhas, e o Mario Trano, do blog MondoVinho. Recomendo fortemente a leitura dos dois posts, já que eu não tenho nem de longe a mesma competência que eles para descrever as sensações de provar o Château d'Yquem.

Limito-me a dizer que ficamos fascinados - trata-se, definitivamente, de um vinho especialíssimo. A cor é encantadora, dourada, com reflexos laterais de ouro velho. O aroma é de uma complexidade inacreditável : a cada giradinha da taça, você descobre uma nova camada, uma nota diferente, uma coisinha qualquer que não havia percebido antes : mel, flores, amêndoas, canela, manteiga ... Na boca, a mesma complexidade e variedade, acrescidas de uma permanência que eu - confesso ! - jamais havia visto em nenhum outro vinho. Ficávamos minutos a fio sentindo na boca os sabores de cada gole, embevecidos.

Vale o preço de cerca de 1.500 reais a garrafa ? Bem, isso, claro, depende do seu bolso - mas que o vinho é muito superior, lá isso é.

Parafraseando Gonçalves Dias : Meninos, eu bebi !

Momento histórico : Tereza dá um gole na Mitologia