segunda-feira, 22 de maio de 2017

A histórica uva syrah

Aqui, um três-por-quatro de nossa amiguinha
Histórica ? Por que histórica ?

Bem, a uva syrah é uma das mais antigas variedades de uvas conhecidas no mundo. Sua origem se perde nos meandros mitológicos : ela teria sido trazida da Pérsia ou do Oriente Médio pelos Cruzados, ou teria vindo das ilhas do mar Egeu, pelas mãos dos gregos, ou, ainda, teria sido trazida do Egito para a ilha italiana da Sicília.

O que se sabe de fato sobre a origem da syrah é que ela surgiu no sul da França, no vale do rio Rhône (ou Ródano, em português), provavelmente por volta do século XII.

No Rhône, a syrah produz vinhos densos e escuros, potentes e plenos de sabor e de aromas. No olfato, sua marca inconfundível é o aroma que lembra pimenta-do-reino e especiarias.

Na região ao norte do vale do Rhône, são produzidos os vinhos de syrah mais celebrados pelos apreciadores : os ótimos e caros Hermitage e Côte Rôtie.

Já nos anos 80 do século XX, a syrah se espalhou pelo planeta. Hoje, ela é a sexta uva mais produzida no mundo – e a gente pode encontrar belos vinhos feitos com syrah na Austrália e na África do Sul, no Chile e na Argentina, nos Estados Unidos - e mesmo em outros países da Europa, como Portugal e Itália.

No chamado “Novo Mundo” (categoria que abarca as Américas, a África e a Oceania), ela é normalmente chamada de shiraz – mas não se iluda : é a mesma uva mitológica que nos encanta há 800 anos.

Os vinhos australianos e sul-americano de syrah (shiraz) também apresentam especiarias no olfato, mas adicionam frutas maduras como ameixas ou amoras.

Em geral, são vinhos de sabores marcantes, com boa acidez, e com taninos macios -  claro que isso sempre depende do produtor, do enólogo ou do terroir específico de cada região.

Pessoalmente, eu creio que os vinhos de syrah harmonizam bem com pratos de sabores também marcantes e bem temperados : assados com molhos espessos, cordeiro, queijos amarelos fortes e assim por diante.

Você vai encontrar belos exemplares de syrah do Chile e da Argentina aí no supermercado ao lado da sua casa, garanto. Pode ser que encontre também alguns italianos e portugueses, a preços convidativos. Experimente – acho que você vai gostar !

Alguns exemplos aleatórios de bons syrah, bebidos por mim mesmo, com preços ao redor de 100 a 120 reais :

  • Argentinos : Escorihuela Familia Gascón Syrah, DV Catena Syrah Syrah, Septima Varietal Syrah.

  • Chilenos : Matetic Corralillo Syrah, Montes Alpha Syrah, Aquitania Reserva Syrah.

  • Australiano : Heartland Shiraz,


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Bebendo vinho como Astérix

Em ânforas ! Sim, há inúmeras evidências arqueológicas de que os antigos romanos produziam e armazenavam seus vinhos em ânforas de cerâmica. Mais tarde, como se sabe, as ânforas eram furtadas por Astérix e Obelix e devidamente esvaziadas durante os jantares pantagruélicos na pequena aldeia gaulesa …

Mas em outras pequenas aldeias pelo mundo – mais precisamente, na bela região do Alentejo, em Portugal, a tradição de produzir vinhos em ânforas de cerâmica foi, de alguma forma, preservada. É comum, ao que parece, que famílias produzam seus vinhos domésticos usando velhas ânforas de cerâmica presentes na família há gerações. Vejam a história neste site, bem interessante – é só clicar aqui. Se quiserem ver uma animação sobre como o vinho de talha é produzido, cliquem aqui.

Está lá no Alentejo a vinícola Herdade do Esporão, uma das maiores e mais importantes do país. Eles produzem grandes vinhos, como o Esporão Reserva, o Quinta dos Murças, e vários outros rótulos. Alguns anos atrás, o pessoal da Herdade do Esporão decidiu fazer uma aposta no mínimo curiosa : trazer para dentro de sua grande vinícola, de porte industrial, a velha e doméstica tradição alentejana do vinho em ânforas.

As ânforas da Herdade do Esporão

Nos últimos anos, eles têm produzido cerca de 3.000 garrafas por ano desse curioso vinho, chamado por eles de Vinho de Talha. Foram construídas grandes ânforas de cerâmica, com o mesmo material e com as mesmas técnicas das ancestrais ânforas caseiras, e a fermentação das uvas ocorre dentro delas.

O vinho feito nessas ânforas – ou talhas - tem uma série de características próprias, que fazem dele praticamente um vinho orgânico : são utilizadas apenas leveduras indígenas (naturais), e não aquelas produzidas em laboratórios, e são utilizados, segundo a vinícola,  pouquíssimos produtos químicos.

O resultado desse processo vem sendo engarrafado em dois rótulos distintos : o Vinho de Talha Vinhas Velhas e o Vinho de Talha Moreto.


O Vinhas Velhas é produzido com as uvas tradicionais do Alentejo (aragonez, castelão, moreto e trincadeira), mas plantadas em antigos vinhedos que tem suas origens meio obscurecidas pelo tempo.


O Moreto é produzido apenas com a uva moreto, mais uma das uvas autóctones da região.

Meus queridos amigos Antonio, Denise e Edu estiveram, mês passado, visitando a vinícola, e trouxeram de lá algumas garrafinhas desse curioso vinho.

E que tal o vinho ?

Bem, a verdade é que o vinho está mais para curioso do que para ótimo …

Na taça, o vinho lembra, surpreendentemente, um Borgonha – tonalidades violetas bem vivas e uma transparência quase total, bem diferente do que a gente está acostumado em matéria de vinhos alentejanos.

O olfato, bem discreto, guarda traços de frutas e flores.

Na boca – miseravelmente ! – parece um vinho um tanto aguado, com pouca acidez, sabores discretíssimos, e permanência quase nenhuma. De forma geral, não agradou a nenhum de nós, no grupo que fez a degustação. E não é nada barato – cada garrafa custou cerca de 22 euros lá na vinícola …

Eu diria que essa, provavelmente,  é a razão pela qual os nossos bravos gauleses gostavam mais da poção mágica do druida Panoramix do que dos vinhos roubados dos romanos …







Enfim – ficam aqui as informações como curiosidade, neste sempre rico e criativo universo dos vinhos.