quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Comida rápida e de boa qualidade - e bons vinhos a bom preço !

Já escrevi por aqui que há alguns restaurantes em São Paulo que começaram a cair na real - se é que alguém ainda usa esta expressão - e estão colocando em suas cartas bons vinhos a preços que não representam um assalto ao bolso do consumidor.

Um desses elogiáveis casos é o Ráscal, que tem filiais em diversos shoppings da cidade - confiram no site deles, clicando aqui.

O Ráscal oferece uma comida rápida de boa qualidade - um ótimo bufê de frios e saladas, pizzas excelentes e boas massas.

Pois, de uns tempos para cá, o Ráscal deu uma enorme reformulada na sua oferta de vinhos, montou cartas bastante abrangentes, construiu adegas climatizadas e contratou e treinou sommeliers para atender o público. Hoje, é possível comer bem, beber um bom vinho e gastar pouco, além de ser atendido com competência.

Um atrativo à parte - a carta de vinhos do Ráscal tem uma boa oferta de vinhos em taça e tem também - atenção, Tatiana ! - uma boa oferta de vinhos em meias-garrafas.


Estive lá ontem, no almoço (na filial do Shopping Market Place) e tomei uma meia-garrafinha de um excelente italiano da Toscana, um vinho chamado Centine. Produzido por um bom produtor (Castello di Banfi), ele é um IGT - Indicazione Geografica Tipica, ou seja, um vinho regional, que não tem o charme nem o preço dos DOCs, mas costuma ser um vinho bastante honesto. Combinou deliciosamente com minha pizza, e com o pão de calabresa e o queijinho parmesão que comi de entrada.



De quebra, ainda fui muitíssimo bem atendido pelo sommelier Rodrigo, simpático e competente.

Fica aí a dica !

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma harmonização diferente, na Polônia

Já falei algumas vezes, aqui no nosso blog, que o prazer de beber um determinado vinho está muitas vezes associado ao ambiente - um vinho comum, bebido em um lugar ou em uma ocasião especial tende a ser registrado na memória como especial.
Também a harmonização é fundamental - a presença das comidas certas com o vinho certo causa às vezes um efeito de multiplicação da qualidade do vinho, ainda que o vinho em si não seja nada de maravilhoso.
Pois bem, vivemos um exemplo disso agora mesmo, na nossa bela viagem ao Leste Europeu.
Estávamos na Polônia, na bela cidade de Cracóvia, que, embora não seja a capital de fato do país (a capital é Varsóvia), é uma espécie de capital do coração dos poloneses. Ela foi a capital, no passado, por quase seis séculos, e estão lá alguns dos monumentos mais importantes do país, como o Wawel (o castelo-fortaleza que domina a cidade) e a belíssima Igreja de Santa Maria, onde estão enterrados quase todos os reis do antigo reino da Polônia.
Nossa viagem à Polônia foi totalmente monitorada pelo Edmund, meu grande amigo, polonês radicado em Florianópolis, leitor do nosso blog.
Devidamente instruídos pelo Edmund, decidimos jantar em um restaurante de comida judaica, o Ariel, antigo restaurante que fica no coração do Kazimierz, o antigo bairro judeu de Cracóvia.
O jantar foi fantástico !
Começando pelas entradas :
Tereza comeu uma sopa berdyczowska, deliciosa, com pedacinhos de carne temperada com mel e canela. Eu me entreguei sofregamente a um prato do famoso barszcz (difícil pronunciar, não ?!?), uma sopa de beterrabas com pequenos raviólis de carne.
Como prato principal, a Tereza comeu um filé de peru com chanterelles (deliciosos cogumelos poloneses, delicados e perfumados, que nos encantaram) e eu comi pierogi, um tipo de ravióli recheado com repolho e com cogumelos, maravilhoso !
Para beber, já que estávamos em um restaurante judaico, aceitamos a indicação do simpático garçon e pedimos um vinho tinto de Israel (?!?), um vinho kosher - isto é, produzido de acordo com as milenares regras religiosas judaicas. Era um vinho chamado Yarden Mount Hermon, feito de cabernet sauvignon, merlot e cabernet franc, produzido na região das Colinas de Golã.
Para ser sincero, é um vinho que eu não pediria, se eu estivesse em um restaurante aqui no Brasil. Mas estando lá, em um restaurante judaico (que, aliás, não tinha muitas opções de vinhos ...) e sendo indicado pelo garçom local - decidi pedir.
Pois aconteceu exatamente aquilo que eu dizia nos parágrafos inciais deste tópico - embora não se tratasse de nenhum vinho memorável, a harmonização com os pratos deliciosos foi excelente. O vinho realçou o sabor da comida, e, por se tratar de um vinho intenso e encorpado, combinou muito bem com os sabores marcantes dos meus pierogis, das sopas e dos chanterelles.
Finalizei o ótimo jantar com um cálice de sliwowica, uma deliciosa aguardente destilada de ameixas, que tem inacreditáveis 70 graus de álcool ...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Degustação : cores, aromas, sabores - Parte 3

Vou continuar a falar sobre o processo de degustação do vinho - esse conjunto de hábitos e técnicas que muita gente ainda vê como pura frescura dos entendidos ...

Já disse antes que não se trata de frescura, mas simplesmente de extrair o maior prazer possível do ato de beber o vinho - não é como beber Coca-Cola, que são todas iguais em qualquer lugar do mundo ! Os vinhos têm cores, aromas e sabores muito ricos - desfrutar dessas qualidades faz parte do prazer de beber o vinho, eu acho.

Muito bem, sobre os aromas, já dissemos que eles podem ser de várias categorias : florais, de frutas, de vegetais, de especiarias.

Ficou no ar a pergunta - será que esses aromas existem mesmo, de verdade ? Ou eles estão presentes mais na imaginação fértil desses famosos entedidos - os enochatos, que fazem pose para beber qualquer tacinha ?

Bem, a resposta é - mais ou menos ...

Na verdade, o vinho possui alguns componentes químicos que realmente lhe acrescentam aromas que podem ser associados a outras coisas conhecidas.

Quer ver um exemplo ? Muitos vinhos brancos passam por um segundo processo de fermentação chamado de fermentação malolática - esse é o nome complicado de um processo bio-químico, que é a ação de algumas bactérias que transformam o ácido málico (presente nas uvas) em ácido lático (presente no leite e nos derivados de leite). Por isso, às vezes, um bom chardonnay pode ter um aroma que lembra manteiga - é o ácido lático. Trata-se, portanto, de um aroma real, de verdade, que existe mesmo, e não está só na cabeça do entendido.

Por outro lado, alguns aromas não podem ser associados a nenhuma característica específica do vinho - mas podem, sim, ser associados à nossa memória olfativa, que é pessoal, individual.

Por exemplo : é comum que um vinho tenha aromas frutados, principalmente se se tratar de um vinho jovem, de uma safra recente. O aroma de fruta vai ser sentido por todo mundo - mas, de qual fruta ?

Os livros sobre vinhos (como há livros sobre vinhos, atualmente !) falam em aromas de morangos, framboesas, amoras, mirtilos ...

Alguém aí já viu um mirtilo ?!?

O problema é que essas tabelas de aromas foram feitas, pela primeira vez, pelos europeus - e eles evidentemente se lembravam dos aromas das frutas lá deles ... Ninguém vai sentir aroma de jaca ou de sirigüela no seu vinho ...

Assim, não se preocupe demais se você não sentir aromas de mirtilo (?!?) no seu vinho ... Procure, antes, identificar se sente ou não sente aroma de frutas. Você pode também avançar um pouquinho mais e dizer que sente o aroma de frutas brancas (como maçãs ou pêssegos, por exemplo) ou de frutas vermelhas (como morangos e framboesas). Já é um bom começo !

Ainda vou falar mais sobre aromas, aguardem !

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Copa dos Copos - Parte 14


Pois é, a Copa do Mundo de futebol já é um passado meio dolorido para nós, brasileiros - mas a Copa dos Copos continua !

Sim, eu sei - já deveria ter acabado esta sequência de posts, mas me atrasei. Vou tentar agora avançar - já estamos nos momentos finais da nossa Copa dos Copos, e não há porque não avançar até a grande finalíssima, certo ?

Hoje é dia da última partida das nossas quartas-de-final. Enfrentam-se dois adversários poderosíssimos - Itália e Espanha. nada mais, nada menos !

A Espanha, que se mostrou tão poderosa e surpreendente no mundo do futebol, entra com força total nesta partida decisiva.

No gol, jogam as magníficas cavas espanholas. Que são as cavas ? São os espumantes - os champanhes, para quem não se importa muito com a ortodoxia dos nomes ...

E que espumantes ! As mundialmente famosas Codorniú e Freixenet são apenas a ponta do iceberg : a Espanha produz grandes espumantes na região de Barcelona, em uma pequena cidadezinha chamada San Sadurni de Noia.

Na defesa, jogam os poderosos e encorpados vinhos tintos do noroeste do país : Toro, Navarra, Castilla y Leon. Também atuam por lá os brancos de Rias Baixas e de Ruedas, com suas uvas albariño.

O meio-de-campo, soberano, vai de Rioja (com seus maravilhosos tintos da uva tempranillo) e de Ribera del Duero - onde se produz o mais famoso e mais caro vinho espanhol, o mitológico Vega Sicilia Unico.

O ataque é seu ponto fraco - Yecla, Alicante, Valdepeñas produzem bons vinhos no centro-sul do país, mas nada que tenha muito brilho. O destaque isolado - para quem gosta - são os vinhos fortificados de Jerez de La Frontera, na Andaluzia.

Será que dá pra encarar a poderosa Itália ?

Não, não dá, não ...

A Itália vem fortíssima, muito longe do seu time de futebol desentrosado e de baixo nível técnico.

No mundo dos vinhos, a técnica da Itália é quase insuperável, com seus séculos e mais séculos de tradição vinífera.

Como deter um ataque formado por Barolo, Barbaresco, Barbera d'Alba e Asti ? E olhe que só estão escalados aqui vinhos de uma única região, o Piemonte !

Seu meio-de-campo desfila, soberbo, com os vinhos da Toscana : Brunello di Montalcino e Chianti Classico ! Sim, um meio-de-campo de dar água na boca de qualquer apreciador ...

E como penetrar em uma defesa solidamente montada com os encorpados Primitivo di Manduria, Aglianico del Vulture, o branco Greco di Tufo, os históricos Marsala ?

E olhe que ainda estão no banco os deliciosos vinhos de sobremesa italianos, como o Vin Santo da Toscana e o Passito di Panteleria, da Sicília.

A Espanha tomba e cai fora da Copa dos Copos, a Itália avança, fortíssima !


Nossas semi-finais estão definidas, e prometem emoções fortes :


  • França e Portugal

  • Argentina e Itália

Não percam !


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Os maravilhosos vinhos doces da Hungria

Aqui estamos nós, depois de 35 dias de viagem pelo leste europeu. Estivemos na Hungria, na República Checa e na Polônia, além de uma passadinha de três dias em Viena e mais três dias em Amsterdam.

Não é uma terra muito pródiga em vinhos - a Repúbica Checa é famosa pelas ótimas cervejas, e na Polônia, o negócio é mesmo a boa e velha vodca ...

Mas a região do leste da Hungria produz um vinho de fama mundial - é o Tokay, ou Tokaj, como eles escrevem por lá.

O Tokay é um vinho branco, produzido basicamente a partir da uva furmint, uma variedade que praticamente só existe por lá, hoje em dia.





Nós visitamos duas vinícolas, das dezenas que existem por lá. Estivemos na Royal Tokay, que fica na cidadezinha de Mád, e na Oremus, que fica em Tolcsva. Ambas são cidadezinhas minúsculas, e nós fomos muitíssimo bem recebidos nas vinícolas.




Em ambas, tivemos a oportunidade de visitar as caves - são imensos corredores subterrâneos de tijolos, formando labirintos que chegam a 4 km de extensão, onde repousam os vinhos, envelhecendo nobremente ... Segundo as lendas locais, esses corredores teriam sido escavados lá por volta do século XIII, e já foram utilizados como esconderijos, depósitos, masmorras. Seja como for, são construções impressionantes que reforçam toda a beleza da visita.



Na região de Tokay são produzidos diversos tipos de vinhos :






  • Tokay Furmint - um vinho branco seco, muito bom, produzido pelo processo normal dos vinhos brancos.





      • Tokay Szamoródni - um vinho produzido com as uvas furmint colhidas tardiamente -este já é um ótimo vinho de sobremesa (que era o que nós esperávamos encontrar por lá). Esse nome esquisito deve ser pronunciado como xamoródini.




      Tokay Aszu - um vinho doce maravilhoso, produzido com a uva furmint que foi atacada pelo fungo botrytis cinerea. A uva, perfurada pelo fungo, concentra o teor de açúcar e produz esta maravilha.






      • Tokay Eszencia - o puro sumo das uvas botrytizadas, que são as uvas aszu. Este vinho é incrivelmente doce, enjoativo mesmo. Reza a lenda que as mulheres grávidas devem tomar um calicezinho deste vinho todos os dias, durante a gestação ... Será, mesmo ?


      O Tokay Aszu ainda tem uma classificação à parte : os chamados puttonyos. Em húngaro, puttonyo é o nome do cesto de madeira onde são colhidas as uvas botrytizadas, uma a uma. O vinho pode, portanto, ser classificado como 3, 4, 5 ou 6 puttonyos - quando mais puttonyos, mais doce ele será.

      Na foto ao lado, um puttonyo, em "carne-e-osso".




      Esses vinhos todos são caríssimos no Brasil. Por lá, os Furmint e os Szamoródni são extremamente baratos ... Qualquer restaurantezinho do país tem sempre uma boa oferta de vinhos Tokay em taças, de diversos tipos e diversos fabricantes.

      Mesmo os Aszu não chegam a ser proibitivos por lá. Já no Brasil ... Uma garrafinha pequena de Tokay Aszu, de 500 ml, no duty free, saía por mais de 100 dólares ....

      Ou seja : vamos continuar a curtir nossos Tokay apenas na memória, que é grátis !