sábado, 26 de janeiro de 2013

Crônicas Lusitanas - Parte 7 - Bendita Dona Antonia !


Se você, distinto leitor, aprazível leitora, gosta de vinho do Porto, não se esqueça deste nome : Dona Antonia Adelaide Ferreira.

Dona Antonia, também conhecida como Ferreirinha, viveu na região do Douro durante o século XIX. Ficou viúva quando ainda era muito novinha, aos 33 anos, e dedicou-se de corpo e alma aos seus amados terrenos no Douro, onde produzia  cereais, amêndoas, azeitonas –e, of course, uvas viníferas.

Definitivamente uma mulher à frente do seu tempo, Dona Antonia era uma negociante dura e astuta. Aplicou-se em produzir seus vinhos do Porto dentro das mais perfeitas e acuradas técnicas, tanto no plantio e colheita das uvas como no seu processamento. Para isso foi buscar novas técnicas em outros países da Europa, como a Inglaterra. Lutou contra sucessivos governos que não davam lá muita bola para a produção do vinho – e lutou ferozmente contra a praga da filoxera, que ameaçava devastar toda a produção de uvas da Europa.

Ainda encontrou forças para ajudar vários pequenos produtores da região, durante as sucessivas crises econômicas que varreram o país durante o século.

Quando morreu, em 1896, aos 85 anos, era riquíssima, dona de um império comercial – e respeitada como uma verdadeira Rainha do Porto.

A casa-símbolo da família de Dona Antonia, a conhecidíssima Casa Ferreira, que produz maravilhosos vinhos do Porto, hoje já não faz parte das propriedade dos herdeiros – foi comprada, tempos atrás, pela Sogrape, a grande empresa vinícola portuguesa.

Por outro lado, um ramo da família, descendente direto da famosa matriarca, criou uma vinícola chamada Quinta do Vallado – que visitamos, durante este nosso giro por terras lusitanas

Na Quinta do Vallado, um zeloso trabalhador local seleciona as uvas
A Quinta do Vallado é uma vinícola de porte médio. A visita lá foi OK – nem tão calorosa como nas pequenas Quinta da Seara d’Ordens e Quinta do Marrocos, mas também não tão impessoal como na Sandeman.

A sala das barricas
Um dos atrativos da Vallado é a bela sala de barricas, que foi construída, ela mesma, no formato de uma meia-barrica.

Provamos por lá dois vinhos de mesa, ambos da  D.O.C. Douro, e um vinho do Porto  :

  • Vallado Tinto 2010 – é o vinho de entrada da vinícola, para os tintos. As cepas usadas envolvem uma curiosidade :  20% de touriga franca, 25% de touriga nacional, 20% de tinta roriz, 5% de sousão. Até aí, tudo bem : essas são as uvas clássicas do Douro. Mas ainda faltam 20% ... Estes restantes 20% vêm do que eles chamam de vinhas velhas – são vinhas de mais de 70 anos, e há entre as videiras, diversas cepas misturadas, que são vinificadas em conjunto. Eles chamam isso de blend field – ou seja, a mistura feita no próprio campo. É um bom vinho, redondo, trazendo frutas vermelhas ao nariz e com um sabor persistente.
  • Vallado Branco 2011 – também o vinho de entrada, para os brancos. É produzido com aquelas uvas portuguesas clássicas de nomes impagáveis : rabigato, verdelho, arinto, viosinho. Um vinho de bom frescor, com notas cítricas e um toque levemente mineral.
  • Quinta do Vallado Porto Tawny 10 anos – Este, um Porto delicioso, com uma linda coloração alourada, aromas de frutas secas e caramelos, e um levíssimo defumado. Foi o melhor vinho que provamos lá, disparado !

Ah, bendita Dona Antonia, quanto lhe devemos !!!

Flagramos uma descendente direta da Dona Antonia em momento de relax ...

2 comentários:

Anônimo disse...

Fala Nivaldo, bendito seja o deus Baco.

A sensação de visitar estas vinícolas na Europa é a de estar no paraíso. Parece que todos os problemas desaparecem, principalmente após fazer diversas degustações...

Abraço,

Sandro

Nivaldo Sanches disse...

É verdade, Sandro : enquanto você está lá, provando os vinhos, conversando com o enólogo, fuçando nas parreiras, visitando as barricas - você não lembra que tem a prestação do carro pra pagar, ou que deu pau naquele sistema chave da empresa onde você trabalha, ou que o seu time caiu pra segunda divisão ... risos ....

Bendito Baco !